22 de abril
O dia em que fingimos que ainda temos tempo
Eu passei quase sessenta anos sem saber o que é chão de terra. Cresci em apartamento, vivi em apartamento, envelheci cercado de concreto e vidro como a maioria das pessoas que conheço, sem que isso parecesse uma perda.
Brasília me deu natureza pela escala, pelos cerrados abertos que ainda existiam quando eu era criança, pelo céu imenso que a cidade planificada deixava ver, mas mesmo assim era natureza como cenário, coisa que se olha pela janela. Eu nunca estive dentro dela de verdade.
Quando me mudei para uma chácara, entre dois estados, numa zona rural que existe num Brasil que a maioria dos brasileiros urbanos já esqueceu que existe, eu não sabia o que estava prestes a entender. Uma mudança de endereço que foi, com o tempo, mudando também o tamanho do que eu conseguia perceber. Os animais que aparecem aqui não pedem licença, não pertencem a ninguém, não estão decorando nada, eles simplesmente existem e passam, e esse ato carrega uma importância que nenhuma ideia sobre natureza consegue transmitir. Você precisa estar aqui com o cheiro e o barulho e o ciclo da vida no seu ritmo próprio, para entender o que sempre foi.
O que me perturba hoje, 22 de abril, não é o simbolismo do Dia da Terra, mas sim aquilo que esse simbolismo esconde. Celebramos um dia, assinamos compromissos, publicamos posts, fazemos reuniões sobre metas climáticas para 2030, 2040, 2050, fazendo de conta que o planeta opera no calendário da nossa conveniência política, enquanto o Cerrado some e o Pantanal arde e o rio que abastece a cidade que abastece o país encolhe todo verão um pouco mais, com a mesma surpresa coletiva de sempre, parecendo ser impossível que o óbvio continuasse sendo óbvio.
Sessenta anos em apartamento não é culpa de ninguém, é só a forma de vida que o século XX produziu e quase todos nós entramos nela sem muita escolha. Mas há uma diferença real entre não ter escolhido e não querer ver. O que acontece agora tem dados suficientes, eventos suficientes, frequência suficiente para que ninguém precise consultar nenhum especialista. Ainda assim, persiste uma recusa coletiva de sentir o peso do que já está acontecendo, porque sentir implica em agir e abrir mão de uma forma de vida que construímos com muito esforço e da qual não queremos sair.
Eu entendo isso, vivi dentro disso por décadas. Só que agora eu acordo todo dia e ouço o que o apartamento nunca deixou eu ouvir e percebo que a natureza, quando você para de tratá-la como pano de fundo, te devolve ao tamanho real das coisas, um tamanho que inclui você como parte de um sistema que existia antes de você e que precisará continuar depois. E esse sistema não negocia prazo com ninguém.
O Dia da Terra precisa de menos distância entre o que a gente sabe e o que a gente sente e não de mais um manifesto. Esse intervalo confortável onde a consciência corre para não ser perturbada é onde a destruição encontra seu combustível. O lar que ainda podemos ter depende do quanto estamos dispostos a deixar que o que está acontecendo realmente chegue até nós, como perda concreta, irreversível e já em curso, não como dado a ser administrado na próxima reunião de cúpula.
O planeta não está pedindo nossa atenção com gentileza há muito tempo.

Falei aqui também sobre o tema:




