A Árvore
Vida e morte no mesmo movimento
Olhe para uma árvore. Ou imagine uma. Ela está ali, inteira, viva, oferecendo sombra, folhas, flores ou frutos. O reconhecimento costuma parar aí. Vemos, identificamos, seguimos. A mente registra “árvore” e a experiência parece concluída. Mas quando o olhar não vai direto para o que surge em seguida, algo começa a se mostrar por si.
A árvore não existe como um objeto isolado ocupando um espaço neutro. Ela é um acontecimento contínuo. As raízes não estão sob a terra, elas são terra em movimento, absorvendo água, minerais e tantos outros sinais invisíveis. A chuva não chega só de fora, ela entra no mesmo processo que sustenta o tronco. O ar atravessa as folhas, a luz participa, o solo responde. Nada ali acontece sozinho. Nada começa onde a linguagem sugere que começa.
O que chamamos de árvore é um recorte funcional, útil e necessário mas limitado. O processo real não respeita esse contorno. Ele acontece como comunicação permanente, troca viva e ajuste constante. Vida como relação em movimento.
A vida é comunicação. Não precisamos concordar, apenas prestar atenção.
O mesmo vale para nós. A sensação de separação é aprendida e surge quando o mundo passa a ser organizado a partir de um centro imaginário chamado “eu”. A partir daí, o corpo vira algo que o “eu” (ego/mente) pensa que possui, a vida vira algo que ele pensa que observa, o tempo vira uma linha que corre contra essa imagem que faço de mim. A não dualidade aponta para a fragilidade dessa construção assim que a atenção repousa antes do pensamento.
Sem esse centro fixo, a experiência se mostra simples. Não existe um observador separado acompanhando a vida à distância. Só a vida acontecendo, em formas temporárias, sem dono. A árvore não se percebe como algo destacado do solo. O rio não se entende como diferente do caminho que percorre. A separação não é um problema a ser resolvido, é uma ideia que se sustenta enquanto não é vista e assimilada.
Quando essa ideia organiza a percepção e essa é o nosso cotidiano trivial, surge a ansiedade de controlar o tempo. O passado se torna um arquivo que nos puxa para trás, o futuro um território imaginado que exige planejamento constante. A atenção deixa de estar aqui e passa a oscilar entre memória e projeção. A vida vira aquilo que acontece depois, ou aquilo que já passou.
Nesse ponto, a morte costuma a aparecer como ameaça, um fim a ser evitado, uma interrupção injusta. Quando a ideia de separação perde força, a morte muda de lugar. Ela deixa de ser inimiga e passa a funcionar como aliada silenciosa da presença, como uma lembrança clara da impermanência de cada forma.
Nada no fluxo da vida é estável. A árvore cresce, perde folhas, se transforma, cai, retorna ao solo. O corpo segue o mesmo movimento. A morte não interrompe o processo, apenas encerra uma organização específica dele. O que se desfaz é a forma, não o campo onde a forma apareceu.
Se pudéssemos ver isso com clareza, haveria naturalmente um ajuste na nossa atenção. Cada encontro, cada gesto, cada silêncio passaria a ser vivido sem a distração constante do “depois” ou do “antes”. A morte, compreendida assim, dá foco e firmeza no olhar, impedindo que a vida seja adiada. A morte vira uma aliada.
O corpo e a mente cumprem sua função com precisão, funcionando como um traje sensível, adequado para a nossa experiência aqui. Envelhecem, se transformam e se dissolvem. A Consciência que percebe tudo isso não nasce com o corpo e nem se encerra com ele, permanece como o campo onde passado, presente e futuro aparecem como movimentos e não como prisões.
A árvore não pensa sobre a morte, vive plenamente cada estação. Nós podemos lembrar disso quando pararmos de viver sequestrados por memórias e projeções e deixarmos a vida acontecer onde ela sempre esteve: aqui, sem separação e sem atraso.






