Ele lê em voz baixa, o hábito que criou em algum ponto da última década, quando percebeu que ler num espaço pequeno era uma forma de presença que dispensava plateia. As folhas têm a cor do papel que ficou perto de calor durante anos, um amarelo sem urgência. A letra é pequena, inclinada para a direita, sem ornamento. Ele lê:
“Perdi a conta dos dias em que não soube onde estava, em que o nome do município não chegava antes que eu precisasse partir. O lugar é o chão sob os pés e a voz de quem está sentado à minha frente. O resto é cartografia de um Estado que já não existe para mapear mais nada.”
Ele dobra a folha com cuidado, coloca no fundo da caixa. Pega a próxima.
Dona Teresa serve o café sem perguntar se quero. Coloca a xícara na mesa de plástico, senta do outro lado, cruza os braços sobre o peito com um gesto que aprendi a reconhecer em quem vai contar uma coisa que contou muitas vezes e ainda está procurando a palavra certa para o que aconteceu.
A casa é de alvenaria, três cômodos, uma janela com grade de ferro pintada de azul que perdeu o brilho. A rua de terra seca do lado de fora, uma mangueira com raízes que levantaram parte da calçada. O município fica a quarenta minutos de São Luís numa estrada que ninguém consertou desde 2028.
— O dia que eu lembro era uma terça-feira, ela começa. Fui lá e a grade tava fechada. Não tinha ninguém lá. Voltei na quarta. A mesma grade. Na sexta liguei pro número que tava na porta. Uma voz de robô dizia que o número não existia mais.
Ela fala de uma agência da previdência social. O prédio ficava a dois quarteirões, num imóvel alugado que o governo federal ocupou durante dezoito anos. A grade fechou numa terça-feira de março de 2029 e não abriu mais.
— Minha vizinha foi no dia seguinte levar documentos dela. Ficou esperando na calçada uma hora achando que iam abrir. Depois foram chegando outras pessoas. Ficou tudo esperando. Daí a pouquinho todo mundo foi embora. Ninguém lembra quem foi o último a sair.
Anoto com a Bic azul que sobreviveu a mais de um ano de bolso, que veio do território Yanomami. O caderno já está na última terça parte das páginas. Vou precisar de outro antes do Pará.
— A Caixa Econômica foi dois meses depois, ela continua. O correio foi junto. Ficou a prefeitura, e a prefeitura a gente já sabia que não tinha dinheiro. A agência fechou e levou junto o lugar onde ainda tinha alguém pra quem reclamar.
Pergunto se tentou reclamar mesmo assim. Ela olha para mim com a paciência de quem já explicou isso.
— E reclamar pra quem meu filho? Pra prefeitura que não tem dinheiro? Pro estado que fechou o escritório regional em São Luís no mesmo mês? A ouvidoria do governo federal tinha um formulário online. Internet aqui cai toda hora. Escrevi o formulário duas vezes. Recebi uma confirmação e número de protocolo. Nunca mais recebi nada depois disso.
A xícara de café esfriou. Olho pela janela. A mangueira do lado de fora tem uma fruta madura que ninguém colheu. A calçada levantada pelas raízes está rachada até a sarjeta.
A calçada está rachada e inteira ao mesmo tempo, as raízes levantaram o concreto e o concreto está plano, a mangueira tem fruta madura e onde ela estava há só terreno vazio. As duas imagens ocupam o mesmo espaço pela janela por um instante que não consigo medir. Depois a mangueira volta. A fruta balança levemente, o ar quieto.
— Você vai escrever isso?, ela pergunta.
— Já estou escrevendo.
— Vai adiantar alguma coisa?
Não respondo. Ela sabe tanto quanto eu. Continua falando porque contar é o que ficou quando a estrutura sumiu, a memória de como era e o gesto de alguém que anota.
Ele lê o parágrafo sobre a agência federal três vezes. A letra fica menor no meio da página, onde a caneta começa a secar, a escrita encolhendo para guardar a tinta. Coloca o caderno na caixa. Do lado de fora do refúgio, um silêncio com peso próprio.
O endereço chegou por mensagem criptografada de alguém que Paula havia conectado à rede antes de desaparecer. A rua tem nome oficial nos mapas da Zona de Administração Corporativa Sul. As pessoas continuam usando o nome de antes e o sistema processa os documentos com o nome novo mas ninguém usa.
A biblioteca ocupa o segundo andar de um sobrado com persiana fechada. Subo por uma escada lateral, bato três vezes como me disseram. Um homem de uns sessenta anos abre com a cautela de quem aprendeu que cautela é o custo de fazer o que faz.
— Elias?, ele diz. A voz de quem já sabia a resposta.
— Sim.
— Cláudio me falou de você. Entre.
O espaço tem estantes improvisadas com tubos de PVC e tábuas, pastas identificadas por ano e tema, caixas empilhadas onde o material transbordou. No centro, uma mesa com dois abajures de luz quente e uma cadeira com um amassado específico no assento que só aparece depois de anos.
O homem se chama Fábio. Trabalhou no Itamaraty durante vinte e três anos, na divisão de análise econômica, até o Ministério ser formalmente dissolvido em abril de 2030, os servidores redistribuídos para organismos da nova estrutura federal, a maioria em cargos decorativos. Pediu demissão. Começou a guardar o que conseguiu guardar antes que os arquivos fossem para servidores da CAZ-Administração.
— Isso aqui é o que eu consegui salvar, ele diz, passando a mão pelas estantes com um gesto implícito dos anos ali contidos. É o que eu consegui tirar antes que pedissem os crachás de volta.
Ele me entrega uma pasta. A etiqueta diz: Bloqueio Naval — Comunicações Internas 2027-2028.
Abro com cuidado. O primeiro documento é um telegrama cifrado de agosto de 2027, já decifrado à mão com letra diferente da de Fábio. O assunto oficial é “medidas de conformidade ambiental nas rotas de escoamento da Bacia Amazônica”. O corpo descreve em quatro parágrafos o procedimento de inspeção de navios em alto mar, os critérios de retenção para “verificação de cargas estratégicas”, os protocolos de comunicação com as autoridades portuárias de destino. A linguagem é exata, técnica, construída para que o que descreve permaneça dentro do documento.
Conheço essa linguagem. Escrevi essa linguagem durante anos, a serviço de processos que precisavam de descrição precisa para existir dentro das estruturas que os abrigavam. Leio o telegrama e reconheço a minha própria caligrafia num tempo em que ainda acreditava que ela servia para algo.
O segundo documento é uma comunicação de Buenos Aires, setembro de 2027. O governo argentino informa que, em vista de “acordos bilaterais de cooperação logística em vigor”, não será possível oferecer rotas portuárias alternativas para “cargas brasileiras em trânsito temporariamente impedidas de acessar seus destinos originais”. A Argentina foi instruída a não oferecer porto alternativo e aceitou. A formulação tem a elegância de quem responde a uma instrução que já havia sido acordada e assimilada bem antes.
O terceiro é uma carta de Lagos, três parágrafos, outubro de 2028. Informa o fechamento temporário da embaixada brasileira na Nigéria por “razões de reestruturação administrativa”. O remetente é um funcionário de segundo escalão. O destinatário é o Ministério das Relações Exteriores, que nessa data já operava com metade do quadro, o ministro original substituído por um interino de terceiro escalão. A carta é educada, precisa, absolutamente neutra quanto ao que descreve.
Fábio me deixa ler. Fica de pé perto das estantes, passando a mão nas lombadas das pastas, um gesto de quem está presente e respeita o tempo que um documento leva.
— Você chegou a trabalhar com Okafor?, pergunto, sem tirar os olhos da pasta.
Há uma pausa.
— Nunca diretamente. Por que?
— Conheço a linguagem.
Ele não pergunta mais.
No fundo da pasta, numa folha separada das outras por uma tira de papel kraft, uma comunicação interna sem cabeçalho oficial, escrita em inglês, março de 2028. Duas páginas. A letra é pequena, precisa, com uma inclinação para a direita que conheço desde criança, quando ficava olhando meu pai assinar documentos na mesa do escritório em Brasília. Leio as duas páginas. Coloco de volta na pasta com cuidado, devolvendo a tira de papel na posição em que estava.
Fábio me olha.
— Você conhece quem escreveu isso.
— Conhecia.
Fecho a pasta. O que ficou na minha mão é o peso de papel de duas páginas e a certeza de que a caligrafia moral de um homem é a mesma em qualquer idioma, em qualquer ano, quando ele acredita que está fazendo o mal menor.
Bastos vai até a estante, traz uma segunda caixa, menor, sem etiqueta. Abre com menos cerimônia que a primeira.
— Tem mais uma coisa que você deveria ver.
Entrega uma folha avulsa. Papel timbrado do Ministério das Relações Exteriores, data de setembro de 2029. O título é burocrático: Atualização Cadastral — Servidores em Situação Irregular de Vinculação. Duas colunas. Na esquerda, nomes. Na direita, datas.
Leio a lista devagar. Dezessete nomes. Diplomatas, assessores, dois funcionários de carreira com mais de trinta anos de casa. Na décima primeira linha: Drummond, Renato Augusto — 14.03.2029.
Devolvo a folha com cuidado.
— Situação irregular de vinculação, digo.
— É o termo que usaram.
Ele pega a folha, coloca de volta na caixa, fecha. O gesto tem a economia de quem fez isso muitas vezes com muitas coisas.
— Nenhum dos dezessete deu entrada em pedido de exoneração. Nenhum apareceu para assinar desligamento voluntário. O sistema simplesmente os retirou do cadastro ativo e os colocou nessa lista.
Não digo nada.
— Eu conheci seu pai, ele diz, sem olhar para mim. Trabalhamos juntos por quase dois anos, no período das negociações de Manaus. Era o tipo de homem que fazia as perguntas difíceis em voz alta. Era um bom diplomata.
O era fica no ar entre nós. Nenhum dos dois toca nele.
Fico em silêncio um momento. Fábio também.
— Ainda tem gente dentro?, pergunto.
Ele considera a pergunta com cuidado, pesando o que vale responder.
— Alguns. Pessoas que calcularam que sair era perder o último acesso ao que resta. — Uma pausa. — Não sei se estão certos. Sei que é uma escolha que não consigo fazer por eles.
— Conhece algum nome?
— Conheço vários. — Ele olha para a caixa fechada. — Tem uma Drummond ainda no sistema. Divisão de Recursos Territoriais, estrutura nova. Não sei o que ela faz de dentro. Talvez eu não queira saber.
Não pergunto mais.
Ele encontra a referência à biblioteca em três cadernos, com detalhes que variam: numa versão a escada é lateral, noutra é nos fundos, numa terceira não há escada descrita. Ele anota a discrepância numa margem. O espaço físico foi cedendo enquanto o que estava dentro das pastas permaneceu.
Lê a referência à comunicação de Okafor. Não conhece o nome. Busca na caixa de índice, encontra uma entrada: “Okafor, K. — ver pasta Instrumentos de Conformidade 2026-2029, vol. 2”. Vai até a estante. A pasta existe. Lê a comunicação de março de 2028 com a mesma atenção que leu tudo o mais. Dobra a última página com cuidado. Continua.
Txai anda na minha frente sem olhar para trás. Aprendi que isso é confiança. Se eu parasse, ele saberia.
Caminhamos desde a manhã. A floresta aqui tem uma densidade que São Paulo nunca vai entender como dado físico: o ar com umidade e o cheiro de matéria viva em decomposição e crescimento ao mesmo tempo e a luz que chega ao chão atravessou tantas camadas que perdeu a direção e virou presença difusa, sem sombra definida.
Txai para antes de uma curva no igarapé. Fico ao lado dele. A margem está limpa, terra vermelha e raízes expostas onde a água trabalhou durante anos. Ficamos assim um tempo que não sei quanto. Depois Txai diz algo em Suruí, baixo, para a margem, e começa a andar de volta.
Fico mais um momento.
A margem está limpa e está queimada, a terra vermelha e a terra preta, as raízes expostas e os tocos carbonizados onde foi floresta um dia, o igarapé com água e o igarapé com o leito seco e rachado. O céu fechado pelas copas e o céu aberto acima dos tocos. Está tudo lá, duas realidades ao mesmo tempo, ocupando o mesmo espaço, e a luz da tarde bate igual nas duas.
Txai não voltou para ver o que estou vendo. Para ele as duas florestas sempre estiveram no mesmo lugar. O que ele disse em Suruí antes de andar de volta era um reconhecer.
Quando o alcanço ele está de cócoras na beira do caminho, olhando para alguma coisa no chão que não consigo identificar. Não pergunto o que é.
Mais tarde, no acampamento, ele descreve como percebeu a mudança antes que qualquer notícia chegasse: o movimento dos helicópteros alterou o padrão em setembro de 2028, as rotas das balsas no rio principal mudaram dois meses depois, os homens que chegavam nas beiras de rio passaram a usar termos que não existiam na região antes. Txai nomeou para si mesmo, nos termos que tinha, que eram os termos corretos.
— O Estado saiu, ele diz em português, que ele fala com precisão e sem pressa. O território ficou. São coisas diferentes.
Anoto. Txai olha para o caderno, para o meu gesto de escrever, com a atenção de quem está avaliando se o instrumento está à altura do que está sendo registrado.
— Vai durar?, ele pergunta. O caderno.
— Não sei. Espero que sim.
— A floresta dura mais do que papel.
— Eu sei.
— Mas você escreve mesmo assim.
— Sim.
Ele assente com uma leveza de quem reconhece que cada coisa usa o instrumento que tem.
O apartamento fica num bloco da Asa Norte que ainda tem síndico e porteiro, condomínio sendo pago por quem sobrou. A maior parte dos apartamentos está vazia. Vazios mesmo, explica o homem que me recebe. As pessoas pararam de aparecer.
Hélio Bastos foi embaixador em três países, coordenou negociações ambientais numa época em que isso tinha peso, passou os últimos quatro anos guardando em caixas o que conseguiu salvar antes da sala dele no Palácio Itamaraty virar escritório de uma consultoria de logística territorial.
Ele é preciso, com a economia de palavras de quem passou décadas escolhendo cada uma. Serve água, senta do outro lado da mesa baixa, coloca as mãos sobre os joelhos.
— O que você quer saber especificamente?
— Mato Grosso. E o que veio antes.
Ele vai até uma estante, pega uma caixa sem etiqueta, traz para a mesa. Abre.
— O que veio antes de Mato Grosso declarar autonomia foi um processo de três anos em que o estado deixou de receber transferências federais, negociou diretamente com dois consórcios internacionais sem mediação do governo central, e passou a operar uma estrutura jurídica paralela para contratos de exploração de recursos. Quando a declaração veio, em junho de 2031, era a formalização de um negócio que funcionava sem nome oficial há pelo menos dois anos.
— E o governo federal?
Ele faz um gesto com a mão.
— O governo federal emitiu nota de repúdio. Constituiu grupo de trabalho para análise jurídica. O grupo produziu um relatório em noventa dias. O relatório foi arquivado. Nesse ponto o governo federal já não tinha capacidade institucional para fazer mais do que produzir documentos sobre o que estava acontecendo.
Bastos vai retirando papéis da caixa de forma sistemática, guardados por categoria. Me passa comunicações, telegramas, dois relatórios internos com um carimbo de confidencial, coisa que perdeu validade legal quando a estrutura que decidia o que era ou não confidencial deixou de existir. Leio devagar. Anoto o que posso. O que não cabe no caderno fica na memória, que já aprendi a tratar com cuidado.
No fundo da caixa, numa folha separada das outras, uma comunicação em inglês, de 2027 ou 2028, escrita à mão com a letra pequena e inclinada para a direita que já vi antes. Duas páginas. O mesmo texto que Fábio guardava em São Paulo.
Leio. Coloco de volta.
— Você conhece quem escreveu?, Bastos pergunta.
— Conhecia.
Ele assente. Há um silêncio curto em que a água no copo reflete a luz do abajur de uma forma que me prende um instante, sem que eu saiba por quê.
— O que você vai fazer com o que está juntando?, ele pergunta.
— Guardar.
— Guardar onde?
— Em lugares onde o sistema não vai procurar porque não sabe que existem.
Ele olha para mim com a atenção de quem passou a vida calibrando o peso das palavras das pessoas na sua frente.
— Isso foi o que eu fiz, ele diz. E não tenho certeza de que adiantou alguma coisa.
— Talvez não agora.
— Quando, então?
Não tenho resposta. Ele sabe disso. Ficamos sentados com o peso da caixa entre nós e a cidade lá fora, ainda lembrada como um projeto inovador do mais famoso arquiteto brasileiro.
A referência a Bastos aparece em dois cadernos. Num, o nome completo. No outro, só “o embaixador”. Ele lê os dois trechos lado a lado. No segundo caderno, o cargo absorveu o nome. Bastos virou função.
Ele fecha o segundo caderno. Do lado de fora do refúgio, alguém está passando. Os passos param por um momento, depois continuam. Ele não levanta para ver quem era. Já faz tempo que aprendeu que os passos que param e continuam são apenas presença.
Durmo naquela noite num quarto que Bastos tem para visitas, um colchão num cômodo com uma janela que dá para o corredor interno do bloco. Acordo antes do amanhecer.
Pego o caderno. A caneta tem pouca tinta, a letra saindo fina. Escrevo devagar para poupar.
Escrevo: a verdade é que nunca houve separação entre
A caneta seca no meio da frase. Troco pela outra que carrego na mochila. Fico olhando para o que escrevi à luz fraca da lanterna de bolso. A luz muda por um instante, a qualidade dela, vinda de um ângulo diferente, mais fria.
A lanterna continua acesa. A outra luz não volta.
Semana que vem, capítulo 11 - não perca






