Luz fria, fluorescente, martelando a superfície da mesa. O ar condicionado do escritório é seco, filtrado por máquinas industriais que prometem pureza e entregam vazio com gosto de plástico e ozônio. E barulho. Impossível saber se lá fora chove ou faz sol. O tempo aqui dentro é regulado por agendas, deadlines que apenas adiam o inevitável.
O envelope kraft aterrissa na minha frente. CLASSIFIED em vermelho. “São Paulo” escrito à mão embaixo do carimbo. O mensageiro nem espera recibo, só deixa o pacote já adivinhando que o conteúdo não quer testemunhas.
Abro o fecho. O ruído do lacre quebrando ressoa exagerado no silêncio do cubículo.
Dentro, o documento ocupa duzentas e quarenta páginas. O título em maiúsculas: RELATÓRIO DIAGNÓSTICO - MUNICÍPIO DE SÃO PAULO - MARÇO 2026.
Começo a ler.
São Paulo continha doze milhões de habitantes oficiais, mais três ou quatro milhões não contabilizados vivendo nas franjas onde o Estado parou de mapear.
A cidade ocupava mil e quinhentos quilômetros quadrados de asfalto, concreto e gente amontoada em camadas verticais de desigualdade tão evidentes que bastava olhar do alto para entender tudo.
As primeiras seções não trazem novidade. Taxa de homicídio em alta nas periferias. Trinta e dois por cento da população sem saneamento básico. Rios mortos, córregos entubados, enchentes cíclicas. Três horas de deslocamento diário para quem mora longe. Sistema de saúde colapsado, filas de meses. Polícia executando duas pessoas por dia.
São Paulo vinha sendo isso há décadas. O relatório apenas cataloga o óbvio com linguagem técnica suficiente para parecer diagnóstico sério.
Há uma seção no meio, páginas cento e vinte a cento e quarenta, que muda o tom. Análise de Risco Sistêmico e Projeções de Ruptura.
Leio devagar.
A cidade estava à beira de uma desintegração gradual acelerada. A infraestrutura não aguentaria mais cinco anos sem investimento massivo. Os sistemas hídrico e elétrico operavam no limite, reservatórios vazios, aquíferos comprometidos, apagões constantes. O mercado imobiliário especulativo expulsava população pobre para cada vez mais longe, criando cinturões de precariedade onde o Estado só aparecia como polícia.
Há gráficos mostrando curvas descendentes. Projeções para 2030 indicando deterioração irreversível. O termo usado: desertificação urbana.
Viro a página. Encontro o mapa.
Zonas marcadas em vermelho: regiões de alto risco de ruptura governamental. Quase toda a periferia. Boa parte da zona leste. O centro, curiosamente, amarelo.
O relatório sugere que, sem intervenção coordenada em nível federal, São Paulo poderia experimentar fragmentação administrativa dentro de três a cinco anos. Milícias formalizando controle territorial. Bairros declarando autonomia. Colapso de serviços básicos forçando população a criar estruturas paralelas de sobrevivência.
Fecho o documento. A sala parece menor.
Me pego encostando o polegar no mapa, exatamente sobre o retângulo de Pinheiros. Sinto, mais do que vejo, a distância entre este gesto e o que ele representa. Passei férias escolares naquele bairro, casa de tijolos da minha avó, cheiro de pão na chapa, barulho de pássaros misturado ao arrastar de cadeiras nas padarias. Pinheiros era azul claro no mapa da infância, agora pulsa vermelho ferrugem.
Um vazio úmido toma conta do estômago. Não sei dar nome sem soar melodramático, então registro só como pressão, uma falta de ar se acumulando atrás do esterno.
Abro o laptop, entro no drive criptografado onde guardei a cópia de Manto Verde. O documento que Thomas Ashford me enviou três semanas antes, de um endereço descartável que desapareceu segundos depois.
Ainda lembro a sensação de abrir o anexo. O peso imediato de saber que aquilo não podia estar na minha tela. O impulso de fechar, apagar, fingir que nunca vi. E depois a impossibilidade de não ler até o fim.
MANTO VERDE — Cenário de Intervenção Estratégica para a Proteção de Recursos Críticos na Bacia Amazônica — CONFIDENCIAL — SOMENTE PARA OS DESTINATÁRIOS.
Quando terminei de ler naquela noite, fiquei meia hora parado no escuro tentando processar o que fazer. Avisar alguém significava expor Thomas. Ficar quieto significava carregar sozinho o peso de saber que aquilo estava planejado, documentado, prestes a acontecer.
Escolhi ficar quieto.
Copiei o arquivo para drive criptografado pessoal, apaguei o e-mail, limpei o histórico. Quando Manto Verde vazou publicamente duas semanas depois, fingi surpresa na reunião. Peguei a cópia que Dominique distribuiu como se estivesse vendo pela primeira vez. Ouvi Klaus ler em voz alta trechos que eu já tinha decorado. Assisti Martin explodir dizendo que ainda bem que tinha vazado.
E não disse nada.
Qualquer coisa que eu dissesse significava admitir que sabia antes, explicar como eu sabia, entregar Thomas.
Agora, olhando o Relatório São Paulo aberto na tela ao lado de Manto Verde, o silêncio que escolhi ganha outro peso.
Procuro a seção de cronograma.
Fase 1: janeiro a março de 2026 - Preparação de narrativa pública através de amplificação de incompetência administrativa via mídia internacional. Eventos catalisadores locais que demonstrem incapacidade governamental.
Eventos catalisadores locais.
Pego o envelope que Paula me enviou três semanas atrás. Incidente de São Paulo, 15 de fevereiro. Quarenta e sete mortos na Paulista. Infiltração coordenada, quebra de vitrines, incêndio de veículos, confronto com a PM, munição letal, corpos cobertos com lonas, sangue no asfalto.
Fevereiro. Fase um. Março a abril. A mesma janela.
São Paulo estava dentro do cronograma.
E eu tinha sabido antes.
Não completamente, sem muitos detalhes, sem data prevista. Eu tinha lido Manto Verde semanas antes da Paulista. Tinha visto a palavra “eventos catalisadores” e a janela temporal “janeiro a março”. Tinha tido tempo de fazer algo.
O que exatamente? Avisar quem? Dizer o quê?
Ninguém ia acreditar. Ou pior, iam acreditar e iam querer saber como eu sabia. E aí Thomas estaria morto.
Quarenta e sete pessoas também estavam mortas.
Por um segundo, os limites da tela se dissolvem. Não há Elias decidindo, Paula julgando, Thomas escondido em algum lugar. O padrão se revelando, inevitável como gravidade. Somos filtros de linguagem, dispositivos de delay. Nossa função nunca foi impedir o horror, só desacelerar sua chegada ao vocabulário civilizado.
O telefone interno vibra na mesa, me trazendo de volta.
Ignoro a chamada e ligo para Paula.
Ela atende no segundo toque.
— Você leu o relatório de São Paulo?
— Li ontem. Por quê?
Hesito. Respiro.
— Você precisa vir aqui. Agora.
— Tenho reunião em dez minutos.
— Paula. Agora.
O meu tom faz ela parar.
— Tá bom. Já vou.
Desligo.
Fico olhando para a tela. Manto Verde de um lado. Relatório São Paulo do outro. O padrão é tão claro que dói.
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Paula entra cinco minutos depois. Fecha a porta, senta na cadeira de visita. Cheiro de café velho e papel entra com ela. Ela me olha com aquela expressão que tem quando sabe que algo grave está prestes a ser dito.
— O que foi?
Viro o laptop para ela. Manto Verde na tela.
— Você leu isso quando vazou, semana passada?
— Todo mundo leu.
— Você leu com atenção? A parte do cronograma?
Ela franze a testa, mexe no anel que usa no indicador direito.
— Li. Fase um, janeiro a março, preparação de narrativa, eventos catalisadores. Por quê?
— Agora olha isso.
Abro o Relatório São Paulo ao lado. Coloco os dois documentos lado a lado na tela.
— São Paulo. Desigualdade estrutural, violência endêmica, infraestrutura colapsada, Estado ausente. Tudo verdade. Tudo documentado. E agora olha a data do incidente da Paulista. Fevereiro. Quarenta e sete mortos. Fase um. Evento catalisador. A mesma janela temporal.
Paula olha para a tela. Um ruído de sirene sobe da rua lá embaixo, atravessa o vidro duplo. Ela olha para mim, volta a olhar para a tela.
— Você acha que foi planejado?
— Eu só estou vendo o padrão.
Ela fica quieta. A lâmpada fluorescente zumbe acima de nós. Quando fala, a voz está diferente.
— Elias, se você está certo, a gente não pode fazer nada. Não tem como provar. Manto Verde vazou, oficialmente não existe. Ninguém assumiu autoria. Poderia ser falsificação, poderia ser cenário especulativo, poderia ser qualquer coisa. E mesmo que fosse real, correlação não é causalidade. Pode ser coincidência.
— Você acredita nisso?
Ela demora para responder. Tira o anel, coloca de volta.
— Não. O que eu acredito não importa. Importa o que a gente consegue provar. E a gente não consegue provar nada.
Eu sabia que ela tinha razão. Saber disso não aliviava em nada o peso que eu carregava.
Respiro fundo.
— Tem outra coisa.
— O quê?
— Eu recebi Manto Verde antes de vazar publicamente.
Paula fica completamente imóvel. O anel para de girar no dedo.
— Como assim?
— Três semanas atrás. Chegou no meu e-mail pessoal, de madrugada, endereço descartável, sem mensagem, só o anexo. Eu abro, vejo o que é, copio para um drive criptografado, apago tudo.
— Quem te mandou?
Hesito. Essa é a pergunta. A única que importa.
— Não posso dizer.
— Elias.
— Não posso.
Ela me olha com uma expressão que mistura incredulidade e raiva. Levanta, caminha até a janela. Fica de costas olhando para fora.
— Você tá me dizendo que sabia desse documento semanas antes de vazar? Que você tinha a informação sobre plano de ocupação da Amazônia, sobre os eventos catalisadores programados para janeiro-março e não falou nada?
— Falar qualquer coisa significava expor quem me enviou.
— Ficar quieto significa deixar acontecer.
— Aconteceu de qualquer jeito.
— Você não sabe disso. Se você tivesse avisado alguém, a Paulista não teria acontecido.
— Avisar quem, Paula? O secretário-geral? O Conselho de Segurança onde um dos membros permanentes é exatamente quem está planejando isso? A imprensa que ia querer saber como eu consegui documento classificado? A pessoa que me mandou estaria morta. E quarenta e sete pessoas continuariam mortas de qualquer jeito.
Paula se vira. Há algo nos olhos dela que não consigo decifrar. Cansaço profundo, talvez. Reconhecimento de algo que já viu antes.
— Você em algum momento parou para pensar que poderia ter evitado isso? Que alguém poderia ter feito alguma coisa se soubesse antes?
— E se eu tivesse falado e não acontecesse nada? E se a única diferença fosse que agora duas pessoas estariam mortas em vez de uma estar viva?
— Você não pode saber.
— Exatamente. Eu não posso saber. Então eu escolhi proteger a única pessoa que eu podia proteger.
Silêncio.
Lá fora, Manhattan continuava funcionando perfeitamente.
Paula volta para a cadeira, senta devagar. A caneta na mesa rola até o canto quando ela apoia os cotovelos.
— Elias, eu vivi ditadura militar no Brasil. — Ela fala devagar, cada palavra escolhida. — Eu vi gente desaparecer. Eu vi gente ser torturada por ter falado, por ter confiado na pessoa errada, por ter acreditado que alguém ia fazer algo com a informação. E eu vi gente sobreviver porque outras pessoas ficaram quietas, protegeram segredos, não entregaram nomes… então eu entendo o que você fez. Eu entendo perfeitamente.
Ela para, respira.
— Mas isso não tira o peso, não muda o fato de que você vai carregar isso pra sempre. Porque a verdade é que a gente nunca sabe. A gente nunca sabe se a escolha que fez foi a certa. A gente só vive com ela.
Fico quieto. Ela tem razão. O peso já está lá. Se instalou naquela noite três semanas atrás quando recebi o documento e decidi ficar quieto. Cresceu quando a Paulista aconteceu e agora se tornou insuportável, quando me pego olhando o Relatório São Paulo e confirmando o padrão.
— Você vai contar pra alguém? Paula dispara.
— Não.
— Nem agora que já vazou publicamente?
— Não muda nada. Manto Verde já está no mundo. Dizer que eu sabia antes só coloca mais gente em risco.
Paula faz um lento gesto de concordância com a cabeça. Um carro buzina na rua, o som distorcido pela distância.
— Então a gente faz o que sempre fez. Documenta. Registra. Mantém algum nível de decência na linguagem. E espera.
— Espera o quê?
— Espera o momento em que isso vire história. E aí, talvez, a gente possa contar a verdade.
Ela levanta, coloca a mão no meu ombro por um segundo. Sai da sala sem olhar para trás.
Fico sozinho com os dois documentos abertos na tela e a papelada espalhada na mesa. Manto Verde que recebi antes de vazar. Relatório São Paulo que confirma o padrão. Quarenta e sete mortos que talvez pudessem ter sido salvos, ou talvez não, impossível saber.
Penso em Thomas Ashford. Na última vez que falei com ele, 2019, num bar da Vila Madalena, tomando cerveja ruim numa noite quente. Ele tinha me perguntado: ainda dá pra fazer a coisa certa quando a coisa certa custa tudo?
Não respondi naquela noite. Agora tenho uma resposta. Mas ela não resolve nada.
A coisa certa às vezes significa escolher quem você protege sabendo que não pode proteger todo mundo. Às vezes significa ficar quieto sabendo que falar pode custar vidas. Às vezes significa carregar o peso de nunca saber se você fez o certo.
Fecho Manto Verde, deixo só o Relatório São Paulo aberto. Preciso revisar e enviar nota para o gabinete do secretário-geral. Três parágrafos sobre a situação em São Paulo. Vocabulário padrão e o tom institucional de sempre.
Começo a digitar.
“O Secretário-Geral expressa profunda preocupação com os dados apresentados no relatório diagnóstico sobre São Paulo e reitera o compromisso das Nações Unidas com o apoio ao desenvolvimento urbano sustentável e à redução de desigualdades estruturais…”
Profunda preocupação. Compromisso. Desenvolvimento sustentável. Redução de desigualdades.
Cada palavra escolhida para criar distância suficiente entre horror e papel. Para manter decência superficial enquanto a estrutura profunda permanece intacta e administra a forma como a barbárie entra no vocabulário civilizado.
Estou fazendo isso há anos. Escolhendo sinônimos. Ajustando tons. Suavizando impactos. Transformando colapso em procedimento.
Agora eu sei o que está por trás. E escolhi ficar quieto.
Termino a revisão. Releio, ajusto vírgula, removo advérbio. Envio.
A máquina continua girando e eu continuo dentro dela, escolhendo as palavras, protegendo quem posso, documentando o que consigo. E carregando o peso de tudo que eu não disse.
O telefone vibra na mesa.
Número desconhecido. + 55 (11) Brasil, São Paulo.
Olho para a tela por três segundos. Quatro. Cinco.
Atendo.
— Elias? — A voz é abafada, como se estivesse falando de dentro de algum lugar fechado. — É o Thomas. Preciso te contar algo que muda tudo.
A linha fica em silêncio esperando minha resposta.
Lá fora, Manhattan respira sob céu claro de primavera. São Paulo existe a oito mil quilômetros de distância, real, vulnerável, dentro do cronograma.
E Thomas Ashford está vivo porque eu fiquei quieto.
E quarenta e sete pessoas estão mortas talvez porque fiquei quieto.
Eu nunca vou saber se poderia ter feito diferente.
— Estou ouvindo — digo e a história se dobra sobre si mesma como papel amassado, todas as escolhas levando para o mesmo lugar, nenhuma delas suficiente para mudar o padrão.
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A voz de Thomas vem distorcida, como se passasse por múltiplas camadas de compressão digital. Há um ruído de fundo que não consigo identificar. Talvez chuva, talvez estática, talvez apenas o som da própria distância se materializando em frequências.
— Onde você está?
— Não importa onde estou. Importa o que descobri.
Fecho o laptop instintivamente, como se alguém pudesse ver a tela através da linha. O escritório está vazio, sempre está a essa hora, minha reação vem de um lugar mais profundo que lógica.
— Thomas, você não deveria estar me ligando.
— Eu sei, mas se eu não ligo agora, não tem depois.
Algo na voz dele me faz parar de respirar por um segundo. Não é exatamente medo, parece a sensação de certeza de quem já atravessou o ponto onde medo faria diferença.
— O que você descobriu?
— Você leu o relatório de São Paulo?
Olho para o envelope kraft ainda aberto na mesa. As páginas espalhadas. O mapa com as manchas vermelhas.
— Li.
— E você comparou com Manto Verde?
— Comparei.
— Então você viu o padrão.
Não é uma pergunta.
— Vi.
Thomas respira fundo do outro lado. O ruído de fundo aumenta, diminui, como se ele estivesse se movendo.
— O padrão não começou em São Paulo, Elias. São Paulo é só o teste. O protótipo.
— Protótipo de quê?
— De como desmontar um país inteiro sem disparar um tiro. Como fazer um lugar implodir por dentro e depois entrar oferecendo salvação. Como transformar ocupação em gratidão.
Minha mão aperta o telefone com força suficiente para deixar marcas nos dedos.
— Explica.
— Você lembra da reunião sobre estresse hídrico na América Latina? Novembro de 2024?
Lembro. Era uma daquelas muitas reuniões intermináveis com PowerPoints cheios de gráficos que ninguém lê e recomendações que ninguém segue. Klaus apresentando dados sobre aquíferos em declínio. Dominique anotando coisas que nunca virariam ação. Eu sentado no fundo, traduzindo simultaneamente do inglês para o português na minha cabeça, um hábito que não consigo quebrar.
— Lembro.
— Você lembra quem estava na sala além de nós?
Penso. Klaus, Dominique, Martin, Paula, dois consultores externos cujos nomes não registrei, alguém do Banco Mundial.
— Não lembro de todo mundo.
— Tinha um cara que você não conhecia. Cabelo grisalho, terno cinza, sentou no canto e não falou nada a reunião inteira. Só ficou ouvindo e anotando.
— E?
— Esse cara se chama Robert Kallinger. Trabalha para uma empresa chamada Sagebrush Dynamics. Oficialmente, eles fazem consultoria em gestão de recursos naturais. Não oficialmente, eles desenham planos de intervenção territorial para o Pentágono.
O ar-condicionado recicla com um clique mecânico. O silêncio que fica é tão denso que consigo ouvir meu próprio pulso batendo no ouvido.
— Como você sabe disso?
— Porque eu passei os últimos seis meses rastreando cada pessoa que teve acesso a Manto Verde antes de vazar. Kallinger estava na lista. Fui atrás dele, descobri que Sagebrush tem contratos com três ministérios brasileiros. Recursos hídricos, infraestrutura urbana e defesa.
— Isso não prova nada. Consultoria internacional trabalha com governos o tempo todo.
— Os contratos foram assinados em agosto de 2025. Quatro meses antes daqueles apagões em São Paulo. E o escopo de trabalho inclui “modelagem de cenários de ruptura sistêmica e protocolos de estabilização emergencial”.
Sinto o estômago afundar de novo, aquela sensação de queda livre dentro do próprio corpo.
— Eles estavam planejando o colapso.
— Não só planejando. Executando. Os apagões não foram falha de infraestrutura. Foram teste de resposta populacional. Ver quanto tempo leva para uma cidade entrar em pânico. Quanto desabastecimento é necessário para quebrar coesão social. Qual é o momento exato em que população para de confiar no governo e começa a aceitar intervenção externa.
Thomas para de falar. Ouço ele respirando, rápido, irregular.
— E São Paulo passou no teste, Elias. A cidade se comportou exatamente como o modelo previa. As pessoas reagiram na hora certa, no volume certo, com o tipo certo de desespero. Agora eles sabem que funciona. E sabem que podem escalar.
— Escalar como?
— Rio em seis meses. Brasília em um ano. Depois vem o resto. Argentina, Colômbia, Peru. Qualquer lugar com recursos estratégicos e governos fracos. Eles vão replicar o modelo. Desestabilizar, documentar incompetência, oferecer solução. E quando entrarem, vão entrar como salvadores.
Olho pela janela. Manhattan ainda pulsa lá embaixo, imune, impermeável, funcionando com a eficiência de máquina bem lubrificada. É fácil esquecer, daqui de cima, que máquinas também quebram e eficiência é sempre temporária. Toda estrutura carrega dentro de si as sementes da própria ruína.
— Por que você está me contando isso?
— Porque você é a única pessoa que pode fazer algo.
— Eu não posso fazer nada, Thomas. Eu sou um simples tradutor de eufemismos. Meu trabalho é transformar horror em linguagem palatável. Não tenho acesso, não tenho poder, não tenho—
— Você tem o relatório de São Paulo. Você tem Manto Verde. E agora você tem isso. Três peças que provam o padrão. Se você juntar tudo e entregar para a pessoa certa, alguém que ainda não esteja comprometido, alguém que tenha autoridade suficiente para fazer barulho…
— Quem, Thomas? Quem nessa organização não está comprometido? Quem tem autoridade e coragem e ingenuidade suficiente para acreditar que denunciar isso não vai simplesmente resultar em carta de demissão e ordem de silêncio?
Silêncio do outro lado. Longo. Pesado.
Quando Thomas fala de novo, a voz está diferente. Mais baixa. Mais próxima do osso.
— Então a gente não faz nada? A gente só assiste?
— Eu não sei o que a gente faz.
— Quarenta e sete pessoas morreram na Paulista, Elias. E se a gente não fizer nada, vão ser quarenta e sete mil. Quarenta e sete milhões.
— E se a gente fizer alguma coisa e a única diferença for que você e eu desaparecemos e tudo continua igual?
— Pelo menos a gente tentou.
— Tentar não ressuscita ninguém.
— Não tentar garante que mais gente morre.
Fecho os olhos. A lógica dele é impecável e completamente inútil. Estamos presos num dilema que não tem solução, só escolhas ruins.
— Você tem os documentos que provam o envolvimento da Sagebrush?
— Tenho.
— Manda pra mim.
— Elias—
— Manda. Eu vou ver o que consigo fazer.
— Você vai precisar de proteção. Se eles descobrirem que você sabe—
— Eu sei o que acontece se eles descobrirem.
— Tem um cara em Genebra. Laurent Duchamp. Trabalha com direitos humanos, tem contatos em inteligência. Se você precisar sair rápido, ele pode ajudar.
— Não vai chegar nisso.
— Você não sabe disso.
— Ninguém sabe de nada, Thomas. A gente só improvisa e torce para não morrer no processo.
Ouço ele rir do outro lado. Um som seco, sem humor.
— Quando foi que a gente ficou tão cínico?
— Quando a gente entendeu que otimismo é privilégio de quem nunca viu como as decisões são tomadas de verdade.
— Mesmo assim. Obrigado.
— Por quê?
— Por não ter me entregado quando recebeu Manto Verde. Você poderia ter. Ia ser mais fácil.
— Mais fácil não significa certo.
— Também não significa errado.
A linha fica em silêncio. Ouço o ruído de fundo aumentar, como se Thomas estivesse saindo de onde estava.
— Vou mandar os arquivos em meia hora. E-mail criptografado, mesma chave que da última vez. Depois vou sumir por um tempo. Se você precisar falar comigo, não vai conseguir. Se eu precisar falar com você, eu acho um jeito.
— Thomas—
— Boa sorte, Elias.
A ligação cai.
Fico parado com o telefone na mão, olhando para a tela apagada. Levo dez minutos para me mexer de novo.
Quando finalmente levanto, as pernas tremem levemente. Não é medo, mas parece. Uma espécie de vertigem metafísica, a sensação de estar parado no topo de um penhasco sem saber se o próximo passo é para frente ou para o vazio.
Volto para o laptop. Abro o e-mail. Nada ainda.
Olho para o relatório de São Paulo espalhado na mesa, para o envelope vazio. Meu olhar se fixa no reflexo do meu rosto no vidro da janela.
Penso em todas as escolhas que me trouxeram até aqui. Aceitar o emprego na ONU. Aprender a suavizar linguagem. Receber o documento de Thomas e ficar quieto. Comparar os padrões. Atender o telefone.
Cada escolha parecia razoável no momento. Cada uma levava logicamente para a próxima. E agora estou aqui, segurando uma informação que pode mudar tudo ou nada, dependendo de variáveis que não controlo.
O e-mail chega exatamente meia hora depois.
Assunto em branco. Remetente: endereço alfanumérico sem sentido. Anexo: arquivo zip protegido por senha.
Digito a senha. O arquivo abre.
Dentro: dezessete documentos PDF. Contratos entre Sagebrush Dynamics e Ministério de Recursos Hídricos do Brasil. Notas técnicas sobre “protocolos de indução de estresse sistêmico”. Planilhas com cronogramas. Relatórios de progresso. Um memorando interno com o brasão da Sagebrush no topo.
Leio o memorando primeiro.
PARA: R. Kallinger
DE: Divisão de Planejamento Estratégico
ASSUNTO: Piloto de São Paulo - Avaliação da Fase 1
DATA: 3 de março de 2026
Os objetivos da Fase 1 foram alcançados dentro de parâmetros aceitáveis. A resposta da população está alinhada com a modelagem preditiva (variação <4%). A degradação da infraestrutura está ocorrendo dentro do cronograma. A amplificação da mídia foi eficaz no estabelecimento da narrativa de incompetência governamental.
Número de vítimas dentro do esperado. A análise da opinião pública indica que está tudo pronto para a Fase 2 da intervenção dentro de 60 a 90 dias. Preparação do local no Rio de Janeiro autorizada a começar. Modelo de contingência de Buenos Aires aprovado para o terceiro trimestre de 2026. Recomendação: prosseguir com a Fase 2 conforme planejado.
Leio três vezes. Cada vez, as palavras se tornam mais pesadas, mais reais.
Número de vítimas dentro do esperado.
Quarenta e sete pessoas. Dentro do esperado. Variáveis controladas. Progresso mensurável.
Fecho o arquivo.
A sala gira levemente ao meu redor, uma sensação de realidade se reorganizando, padrões se revelando, véus caindo e uma certa tontura.
Durante anos trabalhei traduzindo horror para burocracia. Pensei que estava documentando. Registrando. Mantendo algum nível de decência.
Não estava documentando. Estava participando. Cada relatório que revisei, cada eufemismo que escolhi, cada palavra que suavizei era uma peça na máquina. Pequena, talvez insignificante sozinha, mas parte do mecanismo.
E agora tenho a escolha.
Posso levar isso adiante. Procurar alguém. Tentar fazer alguma coisa. Assumir o risco de que isso pode mudar tudo ou nada, pode salvar vidas ou simplesmente encerrar a minha.
Ou posso apagar os arquivos. Fingir que não vi. Voltar para a rotina de traduzir atrocidades para vocabulário institucional. Proteger Thomas e a mim mesmo. Deixar o padrão continuar. Sobrevivência.
Ambas as escolhas levam a lugar incerto e carregam um peso impossível de mensurar.
Me lembro de algo que li uma vez, não sei onde. Talvez Camus, talvez Sartre, talvez alguém menos importante: A liberdade não é ausência de consequências. É a capacidade de escolher sabendo que toda escolha tem custo.
Olho mais uma vez para Manhattan. Para os arquivos na tela. Para minhas próprias mãos pousadas no teclado.
Por um instante, a sensação de dobra retorna. Não há Elias decidindo. Não há escolha sendo feita. Aqui, agora, apenas o momento se desdobrando, a vida fluindo através do corpo, a Consciência testemunhando o que já está acontecendo.
E então o momento passa.
Copio os arquivos para o drive criptografado. Fecho o e-mail. Limpo o histórico.
Pego o telefone interno. Aperto uma extensão que raramente uso.
— Escritório do Secretário-Geral Adjunto, Louise falando.
— Louise, aqui é Elias Drummond, da divisão de análise. Preciso de uma reunião urgente com o Dr. Okafor. Questão de segurança crítica. Não pode esperar.
— Dr. Okafor está em sessão com o Conselho até às dezenove horas. Posso encaixar você às dezenove e quinze.
Olho para o relógio. Três e quarenta.
— Perfeito. Obrigado.
Desligo.
Três horas e quarenta minutos para decidir exatamente o que vou dizer. Como vou apresentar. Quais pedaços mostrar e quais guardar.
Três horas e quarenta minutos antes de cruzar a linha entre ser uma testemunha silenciosa ou um participante ativo.
Três horas e quarenta minutos antes de descobrir se coragem e estupidez são realmente coisas diferentes.
Fecho o laptop. Guardo os documentos no envelope. Tranco tudo na gaveta do armário atrás da mesa.
Saio do escritório. O corredor está vazio, luzes automáticas acendendo conforme vou caminhando. Pego o elevador e desço até o térreo. Atravesso o saguão de mármore onde a carta da ONU está gravada em bronze na parede.
NÓS, OS POVOS DAS NAÇÕES UNIDAS, DECIDIDOS A PRESERVAR AS GERAÇÕES VINDOURAS DO FLAGELO DA GUERRA…
As palavras parecem arqueologia de civilização extinta. Bonitas. Inúteis. Sobreviventes de uma época quando ainda acreditávamos que linguagem podia mudar realidade.
Saio do prédio e uma lufada de ar frio da tarde me atinge no rosto. Nova York em março, aquele frio que ainda lembra inverno mas já prometendo outra coisa.
Caminho sem direção definida. Preciso me mexer, preciso que o corpo esteja em movimento enquanto a mente processa.
Acabo no East River, na beirada, olhando a água turva se movendo devagar em direção ao oceano. Acho um banco vazio.
Um homem passa correndo, fones de ouvido, tênis caros, suor brilhando na testa. Uma mulher caminha com uma criança pequena, apontando para as gaivotas. Um casal de idosos está parado na grade, de mãos dadas, olhando para o nada.
Vida acontecendo. Simples. Banal. Alheia ao fato de que em algum arquivo digital existe cronograma para desmantelar cidades inteiras.
Penso em todas as pessoas em São Paulo que acordaram no dia 15 de fevereiro sem saber que aquele dia estava marcado em um calendário. Que o caos que os atingiria não era acidente, era um teste.
Penso em todas as pessoas no Rio que vão acordar daqui a seis meses, se Thomas estiver certo e viver a mesma experiência. E depois Buenos Aires. E depois.
Penso em Thomas, escondido em algum lugar, carregando o peso de saber e não poder falar sem morrer.
Penso em Paula, que viu isso tudo antes, numa outra época e aprendeu que às vezes sobreviver é a única vitória possível.
Penso em minha avó, morta há dez anos, que viveu a vida inteira em Pinheiros e morreu achando que aquele bairro sempre existiria exatamente do jeito que era.
Fecho os olhos.
Por um instante, tudo desaparece. Não há Elias, não há escolha, não há peso. Apenas a sensação do ar frio no rosto, o som distante do tráfego, o cheiro de água suja misturado com escapamento de óleo diesel.
Apenas a Consciência testemunhando tudo isso. Observando sem julgamento. Permitindo que tudo seja o que é.
E então abro os olhos e sou Elias de novo. Com história, com medo, com responsabilidade que não pedi e não posso devolver.
Levanto do banco.
Volto caminhando para o prédio da ONU.
Três horas até a reunião.
Tempo suficiente para ensaiar o que vou dizer.
Tempo suficiente para mudar de ideia.
Tempo suficiente para nada.







