Volto para o prédio quando as luzes de Manhattan já estão acesas e o East River reflete prédios em sua superfície escura. As três horas se dissolveram sem que eu tenha percebido direito onde foram parar. Ensaiei frases, mudei de ideia, voltei a mudar. Agora só resta subir até o vigésimo segundo andar e descobrir se Okafor vai me ouvir.
Os seguranças do lobby me conhecem. Acenam. Passo pela catraca.
No elevador, a tela embutida na parede exibe CNN International. Vou apertar o botão do vigésimo segundo quando a imagem muda e reconheço o rosto. Robert Kallinger, sentado num estúdio com bandeiras ao fundo, aquele tipo de cenário que parece sério sem dizer exatamente de onde vem a seriedade.
A legenda diz: “Analista de Segurança discute recentes declarações sobre Groenlândia”.
Subo o volume com o botão discreto na lateral.
A âncora está terminando uma pergunta: “...o presidente Trump afirmou esta manhã que ‘a propriedade e controle da Groenlândia são uma necessidade absoluta para a segurança nacional’. Como você interpreta essa declaração?”
Kallinger inclina-se levemente para frente, com uma calma ensaiada. “O que estamos testemunhando é o reconhecimento de realidades geopolíticas que a diplomacia tradicional tem evitado enfrentar. A Groenlândia possui recursos minerais críticos, terras raras essenciais para tecnologia verde e posicionamento estratégico no Ártico. A administração atual está simplesmente nomeando o que todos os analistas sérios já sabem: alguns territórios são importantes demais para permanecerem sob gestão de Estados pequenos com capacidade limitada de desenvolvimento.”
A âncora pergunta: “Mas a Dinamarca já recusou categoricamente qualquer discussão sobre venda ou cessão...”
“A Dinamarca”, Kallinger interrompe gentilmente, “tem sido uma guardiã histórica respeitável. A questão agora é se estruturas de governança do século 19 servem aos desafios do século 21. O presidente Trump mencionou hoje a possibilidade de tarifas sobre produtos europeus se a Europa continuar sendo não cooperativa em questões de segurança compartilhada. Não é ameaça. É só reconhecimento de que parcerias exigem reciprocidade.”
Estruturas de governança. Segurança compartilhada. Reciprocidade.
A apresentadora insiste: “Mas usar tarifas comerciais para forçar cessão territorial...”
“Ninguém está forçando nada”, Kallinger sorri. “Estamos oferecendo oportunidade para uma atualização administrativa que beneficia todas as partes. A Groenlândia receberia investimento massivo em infraestrutura, a Dinamarca manteria vínculos culturais e a comunidade internacional ganharia gestão eficiente de recursos críticos.”
A mesma linguagem. Palavra por palavra. Atualização administrativa. Gestão eficiente. Governança aprimorada.
O elevador chega ao vigésimo segundo. As portas se abrem. Kallinger continua falando, sua voz ficando mais baixa conforme me afasto. Por um segundo, vejo minha própria mão alcançando a porta do elevador e a mão tem manchas de idade que não deveriam estar ali. Pisco. A mão volta ao normal.
O corredor tem aquele silêncio característico de fim de expediente. A porta do gabinete de Okafor está entreaberta. Bato de leve.
— Entre, Elias.
A voz dele tem aquela cadência nigeriana que nunca se apaga completamente. Ele está sentado atrás da mesa, óculos de leitura apoiados na ponta do nariz, olhando para uma tela onde provavelmente há mais uma crise pedindo tradução diplomática.
— Obrigado por me receber, eu digo, fechando a porta.
— Você disse que era urgente. Ele tira os óculos, esfrega os olhos. E você nunca usa essa palavra.
Coloco a pasta sobre a mesa dele. Dezessete arquivos impressos porque e-mail deixa rastro e USB pode ser rastreado. Papel ainda tem essa vantagem arcaica de existir apenas onde está.
— São documentos que recebi de uma fonte. Contratos entre a Sagebrush Dynamics e ministérios brasileiros. Protocolos de indução de estresse sistêmico. Um memorando de 3 de março confirmando que o massacre de São Paulo foi teste operacional bem-sucedido.
Okafor não pega os documentos imediatamente. Olha para eles, reconhecendo o tipo de problema que vai acabar com o resto da noite.
— Essa fonte tem nome?
— Precisa ter?
Ele ergue as mãos num gesto de paz.
— Perdão. Você está certo.
Há algo no tom que não fecha completamente, uma nota dissonante que fico sem saber de onde vem.
Ele finalmente puxa a pasta, abre. Começa a ler. O silêncio que se instala é denso. Posso ouvir o ar-condicionado, o zumbido distante do elevador, alguém rindo em algum andar abaixo. Okafor lê devagar, metodicamente, virando páginas com cuidado de quem sabe que cada linha ali tem peso.
Depois de quinze minutos, ele fecha a pasta. Olha para algum ponto da parede atrás de mim, fazendo cálculos que eu não consigo ver.
— Você sabe o que você está me mostrando aqui?
— Evidência de que São Paulo foi um protótipo.
— Evidência de que existe uma empresa privada operando no território de um Estado membro com contratos que implicam na desestabilização deliberada desse Estado, com a precisão que vem de anos traduzindo horror em linguagem processável. E se isso for levado adiante, vamos desencadear uma crise diplomática de proporções que a organização talvez não sobreviva.
— E se não for levado adiante?
Ele respira fundo. Tira os óculos de novo. Esfrega a ponte do nariz.
— Elias, você acha que eu não sabia?
A pergunta me pega desprevenido. Sinto um aperto no peito.
— A arquitetura geral, sim, ele continua. Há anos circulam relatórios sobre think tanks especializados em segurança climática, sobre conselhos empresariais com acesso privilegiado a tomadores de decisão. O Brasil serve como teste de modelo.
— Modelo de quê?
— De como desmontar um Estado soberano enquanto parece que você está ajudando. A Sagebrush é apenas uma das peças. Há dezenas delas.
Ele empurra a pasta de volta na minha direção. O gesto é lento, deliberado.
— A ONU documenta. Registra. Arquiva. Depois espera que alguém peça ajuda.
— Então o que eu faço com isso?
— O que você quer fazer?
Eu trazia evidências e a ingenuidade de achar que mostrar a verdade seria suficiente.
— Quero que alguém aja.
Ele se inclina para frente.
— Você está pronto para o que vem depois? Sua fonte vai ser exposta, você vai ser investigado, seus acessos serão revogados e no final nada vai mudar.
Alguma coisa na forma como ele diz “sua fonte vai ser exposta” soa como aviso e ameaça ao mesmo tempo.
— Você precisa entender uma coisa: o mundo já decidiu como isso vai terminar. A única pergunta que resta é quem vai estar preparado quando terminar.
— Preparado para quê?
— Para administrar os pedaços.
Fico em silêncio. Okafor pega a pasta de novo, folheia com mais atenção. Dessa vez anota algo num bloco. Não consigo ver o quê.
— Deixe isso comigo por enquanto, ele diz. Vou ver o que pode ser feito dentro dos canais apropriados. Você está lidando com gente que não joga com as regras que a gente aprendeu aqui.
Agradeço. Me levanto. Vou até a porta. A mão já está na maçaneta quando ele fala de novo.
— Elias.
Olho para trás.
— A ONU espera. Espera até que o colapso já tenha acontecido, até que a violência já tenha se esgotado, até que alguém peça ajuda humanitária. Aí entramos.
Ele fecha a pasta. Me olha direto.
— É tarde demais para São Paulo. Talvez ainda haja tempo para o que vem depois. Se você souber escolher de que lado ficar.
Saio do gabinete e vou direto para o banheiro no fim do corredor. Fecho a porta, abro a torneira, jogo água no rosto. Olho para o espelho. Alguém cansado olha de volta.
Meu celular vibra no bolso. Número de Brasília. Sofia.
Atendo.
— Elias, graças a deus você atendeu.
A voz dela vem tensa, mais baixa que o normal. Minha prima nunca liga no meio do expediente.
— Sof, o que aconteceu?
— Tio Renato foi transferido.
Demoro um segundo para processar. Meu pai.
— Transferido para onde?
— Genebra. Anunciaram hoje de manhã. Coordenador de Diálogo Cultural na missão permanente.
Coordenador de Diálogo Cultural. Meu pai passou quarenta anos negociando tratados ambientais, representando o Brasil em conferências sobre mudanças climáticas, coordenando posições em fóruns multilaterais. Agora vai organizar exposições de arte.
— Isso é...
— Exílio, ela completa. Elias, é exílio. Teve reunião ontem sobre a proposta de governança compartilhada da Amazônia. Tio Renato fez perguntas. Muitas perguntas. Hoje de manhã, transferência. Sem consulta. Sem negociação.
Fecho os olhos. Vejo meu pai na sala de casa em Brasília, meses atrás, no funeral da minha mãe. A última conversa que tivemos antes de eu voltar para Nova York. Ele disse algo sobre documentar, sobre registrar tudo. Achei que era o luto falando.
— Quantos já foram transferidos?
— Sete em dois meses. Todos da área ambiental. Todos com conhecimento sobre Amazônia. Todos substituídos por comitês consultivos internacionais.
— Elias, tem mais.
— O quê?
— Os nomes. Os comitês que estão assumindo as posições dos diplomatas brasileiros. Reconheço vários deles dos documentos que você me mandou mês passado. Aquele email com os nomes da Sagebrush.
Apoio a mão na pia. A água continua correndo.
— Sofia, você tem certeza?
— Tenho os nomes aqui na minha frente. Pelo menos três aparecem em múltiplos comitês. Robert Kallinger em dois deles. Margaret Whitmore em três. David Chen em todos.
— Você está segura onde está?
— Estou no banheiro. Ninguém sabe que eu estou ligando.
— Não use telefone do trabalho. Não use email institucional. Se precisar falar comigo, usa o número que te passei, aquele do aplicativo criptografado.
— Elias, eu sei. Eu trabalho no Itamaraty, lembra? A gente sabe como isso funciona.
Há algo na voz dela, uma firmeza que eu não conhecia.
— Desculpa. Eu só...
— Eu sei. Também estou com medo.
Silêncio na linha. Ouço alguém entrando no banheiro dela, conversa abafada, voz masculina perguntando se está tudo bem.
— Está sim, obrigada, Sofia responde para quem quer que seja. Depois, mais baixo, para mim: Tenho que desligar.
— Sof, espera. Você vai ficar bem?
— Vou. E você?
Olho para o espelho de novo. A água ainda corre na pia.
— Vou.
— Mentiroso.
Ela desliga.
Fecho a torneira. O silêncio do banheiro é completo agora. Ouço apenas minha própria respiração.
Volto para o escritório vazio. Computador ainda ligado. A tela brilha azul no escuro.
Sento. Abro navegador. Os arquivos que Thomas enviou continuam abertos em múltiplas abas. Começo a procurar conexões.
Há um relatório de 2023 sobre capacidade agrícola brasileira, produzido por consórcio de universidades americanas e europeias. Estrutura Global de Segurança Alimentar 2030-2050: Avaliações Regionais e Recomendações Estratégicas.
Pulo para a página 167. “O potencial agrícola do Brasil permanece significativamente subutilizado devido à instabilidade de governança e déficits de infraestrutura. Uma estrutura administrativa reestruturada poderia aumentar a produção em 40-60% dentro de uma década, posicionando a região como um celeiro global administrado.”
Procuro quem financiou. Fundação em Washington. Conselho diretor: ex-secretários de agricultura, CEOs de multinacionais de agronegócio, Margaret Whitmore listada como “Diretora de Estratégia”.
O mesmo nome que Sofia acabou de mencionar.
Abro outro arquivo. Iniciativa de Segurança Climática, documento de 2024: “Floresta Amazônica como Ativo de Estabilização Planetária: Modelos de Governança para Ecossistemas Críticos”.
“Estruturas tradicionais de soberania são insuficientes para gerir ecossistemas de significância global. Um modelo de governança que reflita essas realidades envolveria administração internacional compartilhada, com o Brasil mantendo soberania simbólica enquanto o controle operacional é exercido por um consórcio de nações interessadas e especialistas técnicos.”
Rolo para baixo. Há parágrafo sobre implementação: “Aplicação simultânea de modelo em múltiplos territórios estratégicos reduz capacidade de resistência diplomática coordenada. Enquanto atenção internacional está focada em região X, transição administrativa em região Y pode avançar com menor escrutínio. Recomenda-se identificação de 2-3 alvos prioritários para implementação coordenada dentro de janela de 12-18 meses.”
Múltiplos territórios. Simultaneamente. Janela de 12-18 meses.
Um alerta pisca na tela.
“Trump Ameaça Europa com Tarifas se Dinamarca Recusar Negociação sobre Groenlândia”
Abro. Publicada há vinte minutos.
“O presidente dos Estados Unidos intensificou sua pressão sobre a Dinamarca nesta tarde, afirmando em entrevista coletiva que ‘a Europa precisa entender que segurança tem custos’. Quando perguntado sobre as tarifas mencionadas, Trump foi direto: ‘A Dinamarca se beneficia da proteção militar americana há décadas. Se eles querem continuar sendo protegidos, precisam cooperar em questões de importância estratégica. A Groenlândia é vital para a segurança do Ocidente. Posso impor tarifas sobre produtos dinamarqueses amanhã se eu quiser. Produtos alemães também. Franceses. Qualquer um que não entenda que precisamos trabalhar juntos.’”
Na mesma página, duas matérias relacionadas logo abaixo:
“Coalizão Internacional Propõe ‘Fundo de Preservação da Amazônia’ com Investimento de US$ 50 Bilhões”
“Banco Mundial Oferece Pacote de Infraestrutura ao Brasil - US$ 15 Bilhões Condicionados a ‘Reformas Administrativas’”
Clico na segunda. “...vem com condições que incluem descentralização da gestão de recursos, estruturas de autonomia regional e supervisão internacional da conformidade ambiental. Fontes no Banco Mundial indicaram que a aprovação está condicionada à aceitação brasileira do Fundo de Preservação da Amazônia proposto esta semana.”
Descentralização. Autonomia regional. Supervisão internacional.
Volto para os documentos de Thomas. Procuro por “pressão tarifária”. Encontro seção em relatório de outubro de 2025: “Ferramentas de Persuasão Não-Militar: Aplicações Contemporâneas”.
“Pressão tarifária seletiva demonstra eficácia crescente como instrumento de renegociação de arranjos territoriais quando aplicada a Estados com dependência comercial significativa. Modelo teórico sugere que combinação de ameaças tarifárias, congelamento de ativos soberanos e exclusão de mercados de capitais pode produzir aceitação política em período estimado de 18-24 meses, especialmente quando aplicado simultaneamente a múltiplos alvos com perfis de vulnerabilidade similares.”
Tem uma lista anexada ao documento. “Perfis de Vulnerabilidade Alto”:
Dinamarca: 78/100 (Groenlândia)
Brasil: 85/100 (Amazônia)
Venezuela: 82/100
República Democrática do Congo: 76/100
O documento é de outubro de 2025. Cinco meses antes de Trump começar a pressionar sobre a Groenlândia. Quatro meses antes de São Paulo.
Pego folha em branco. Começo a montar um mapa mental. Sagebrush Dynamics no centro. Linhas saindo: Kallinger, Whitmore, Chen. Mais linhas: think tanks, fundações, universidades, corporações. Linhas conectando: Trump/Groenlândia, Fundo Amazônia, Banco Mundial.
Traço linha grossa entre Groenlândia e Brasil. Escrevo: “SIMULTÂNEO”.
A folha fica pequena. Pego outra. Depois outra.
Quando olho para baixo, minha mão sobre o papel tem veias salientes, pele fina sobre ossos frágeis. Não é minha mão. É minha mão daqui a décadas. Levanto os olhos. Ainda estou no escritório, mas há algo sobreposto, transparente. Paredes de concreto úmido. Mesa tosca. Papel amarelado.
Pisco. A imagem se dissolve.
São duas da manhã quando encontro o que eu não deveria ter encontrado.
Classificado “Interno - Circulação Restrita”: “Cenários de Reorganização Territorial: Brasil 2026-2035”.
Data: outubro de 2025. Quatro meses antes de São Paulo.
Cinco zonas administrativas autônomas. Zona Norte, Amazônia Legal, administração internacional conjunta sob mandato de conservação. Zona Centro-Oeste, celeiro agrícola, parceria público-privada com gestão corporativa. Zona Sul, autonomia regional com supervisão técnica externa. Zona Nordeste, projeto-piloto de desenvolvimento resiliente. Zona Sudeste, centro logístico e financeiro com governança compartilhada.
Cada zona com cronograma, estrutura administrativa, projeções de investimento, análise de risco, protocolos de contenção.
Seção “Caminhos de Implementação”: colapso de infraestrutura em áreas urbanas críticas. Crise institucional federal que justifique intervenção estabilizadora. Deterioração da segurança pública que permita entrada de forças de paz. Pressão econômica suficiente para tornar ajuda externa politicamente palatável.
Tabela de projeções. Não chamam de mortes. “Custos de transição em termos humanos”: 50.000 a 200.000.
Nota de rodapé: “Números comparáveis aos da transição líbia (2011) e iraquiana (2003), considerados aceitáveis pela comunidade internacional em contexto de intervenção humanitária aprovada.”
Aceitáveis.
Fecho o arquivo. Mãos tremendo um pouco.
Outro alerta. Notícias locais desta vez.
“URGENTE: Sistema de Água de São Paulo em Colapso Iminente - Governo Federal Sem Recursos Para Intervenção”
“Três reservatórios principais registraram níveis críticos esta semana. Organizações internacionais de ajuda estão mobilizando resposta emergencial. O pacote de infraestrutura do Banco Mundial está agora sendo descrito como potencialmente a única solução viável...”
Olho para o documento de reorganização territorial ainda aberto na tela.
“Caminho de Implementação 1: Colapso de infraestrutura em centros urbanos críticos cria dependência de assistência externa.”
São Paulo. De novo.
E acontecendo na mesma semana em que Trump pressiona Groenlândia. Na mesma semana em que propõem governança da Amazônia.
Recolho as folhas com os mapas. Sei que estou documentando algo que já está documentado em 2150, amarelado, preservado, servindo de prova de que alguém viu enquanto estava acontecendo.
Desligo o computador. A tela escurece. Por um segundo, mais nítido desta vez, vejo outro rosto refletido junto ao meu. Mais velho. Olhos que já viram tudo isso terminar.
O rosto observa. Verifica se eu entendi. Se percebi que observador e observado nunca foram separados.
A imagem dura dois segundos. Três. Depois dissolve.
Me preocupo. Essas visões e sensações estão ficando mais frequentes.
Saio do prédio quando o céu está clareando sobre o East River. Frio de janeiro cortando a pele.
O celular vibra. Sofia de novo.
“saí de reunião agora. proposta de cooperação técnica para gestão amazônica. nenhum brasileiro consultado antes. todos os nomes que você mandou estavam na lista de parceiros propostos. cronograma idêntico. alguém perguntou sobre timing, por que anunciar agora. resposta: momento é propício porque atenção internacional está em outras questões urgentes. não disseram quais. mas eu sei. groenlândia. enquanto todo mundo olha trump, eles avançam aqui. elias, tem reunião amanhã sobre aceitar pacote do banco mundial. vão votar. e tem gente do itamaraty que já está defendendo aprovação.”
Leio três vezes.
Outro texto chega antes de eu responder:
“você está seguro aí? thomas está bem?”
Olho para a tela. Para a pergunta que Sofia fez.
Thomas. A fonte. O analista da CIA que vazou documentos que provam tudo.
Não falo com Thomas há dois dias. Ele sempre responde rápido. Sempre.
Abro o aplicativo criptografado. Última mensagem dele foi terça. Hoje é quinta.
“preciso sumir por uns dias. se algo acontecer, você sabe o que fazer com os arquivos.”
Foram as últimas palavras.
Olho para o East River. Manhattan acordando. Trânsito começando a se formar nas pontes.
Em algum lugar, Thomas está desaparecido. Meu pai está sendo exilado para Genebra. Sofia está testemunhando de dentro enquanto o Itamaraty prepara a assinatura. E eu estou aqui, segurando documentos que provam tudo, sem saber se mostrar vai salvar alguma coisa ou só vai acelerar o colapso.
Groenlândia e Brasil acontecendo juntos. Um servindo de distração para o outro. Cinquenta a duzentas mil pessoas como custos aceitáveis. Tudo documentado com cinco meses de antecedência. Tudo acontecendo exatamente como planejado.
Guardo o celular. Começo a andar em direção ao metrô.
E no fundo da mente, a pergunta que não consigo calar: se Thomas desapareceu, quanto tempo até virem atrás de mim?








Muito bom! Eu apenas gostaria de ler aquela frase tradicional de que "qualquer semelhança entre fatos e personagens é mera coincidência"... aguardemos, os acontecimentos e o próximo capítulo. Ao ritmo atual, pode até ser que sejam "simultâneos" também.