O apartamento estava arrombado quando cheguei. Porta forçada, fechadura quebrada, madeira lascada ao redor da maçaneta. Empurrei devagar e a destruição se revelou completa. Gavetas abertas, conteúdo no chão. Estante derrubada, livros espalhados. Colchão cortado em três lugares, espuma exposta.
Não foi um roubo comum, era coisa de profissional. Os documentos. Não sabem que carrego tudo na mochila. Paranóia herdada do meu pai.
A pergunta que me fiz saindo da ONU ao amanhecer tinha resposta: não precisei esperar muito. Thomas desapareceu terça-feira. Hoje é quinta de manhã cedo. Dois dias.
Entrei rápido. Fui direto ao armário, procurei o casaco de inverno. Estava no chão, dobrado da forma que eu deixei. Encontrei o envelope dentro do bolso interno. Três mil dólares, passaporte, certidão. Peguei uma sacola de lona, joguei roupas, a necessaire, carregadores do celular e do laptop. Saí fechando a porta que não trancava mais. A rua lá fora continuava normal, pessoas indo trabalhar, manhã de quinta-feira comum para quem não tinha a casa revirada por agentes procurando provas de conspiração internacional.
Passei as horas seguintes vagando. Deli 24 horas, luz fluorescente e cheiro de bacon rançoso do restaurante ao lado. Penn Station depois. Sentei num banco de metal fingindo esperar o trem, com a mochila entre minhas pernas.
Às duas da madrugada tomei a decisão. Voltar para a ONU. Movimento totalmente contra intuitivo e exatamente por isso, talvez funcione. O último lugar onde procurariam. Vou até a sala de reuniões do décimo segundo andar, certamente vazia a essa hora. Deixei as luzes apagadas, trabalho só com a luminosidade azulada que entra pela janela, reflexo dos prédios de Manhattan acesos. sem nunca dormir.
Os documentos que Okafor me devolveu ontem à noite estão espalhados na mesa de vidro.
Desestabilização econômica gradual. Acordos comerciais assimétricos. Concessões de infraestrutura de noventa e nove anos. O mapa mostra o Brasil dividido em zonas de influência, linhas coloridas retalhando o país como um tabuleiro de jogo.
Olho para minha mão segurando a página. A pele parece estranha por um segundo, mais velha talvez, com aquelas manchas de idade que eu ainda estava longe de acumular. Pisco e volta ao normal. Mas a sensação persiste, como se houvesse uma defasagem entre o que vejo e o que sinto.
O cheiro de concreto molhado entra pela janela entreaberta. Estamos em março e Nova York está fria. Mesmo assim sinto o cheiro de Brasília na estação chuvosa. Fecho os olhos e por um instante estou em outro lugar, em outro tempo, uma espécie de sala de pesquisa num subsolo úmido onde alguém está lendo estes mesmos documentos cento e vinte e três anos no futuro.
Abro os olhos. A sala de reuniões, Manhattan acesa lá fora. Minha respiração está acelerada, taquicardia, coração batendo como se eu tivesse corrido. A sensação de estar sendo observado é forte, visceral.
Pego o celular e ligo para Sofia. Toca seis vezes antes dela atender, voz sonolenta.
— Elias? — ela pergunta. — Que horas são aí?
— Desculpa te acordar. Precisava ouvir sua voz.
— Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
— Estou. Só... fiquei pensando no que você me contou ontem. Sobre o tio Renato. Sobre os nomes que reconheceu nos comitês.
— Elias, são três da manhã. O que aconteceu de verdade?
— Nada específico. É que depois que você ligou, fiquei juntando as peças. Está tudo conectado, Sof.
— Eu sei — ela diz, cansaço profundo na voz. — Também não consegui dormir desde ontem. Tem mais gente sendo realocada. Soube hoje à tarde. Mais três na próxima semana.
— Você está se cuidando?
— Estou sendo cuidadosa. Mas também não vou fingir que não estou vendo o que está acontecendo.
Silêncio na linha.
— Onde você está agora? — ela pergunta.
— No escritório. Tentando entender algumas coisas.
— Três da madrugada no escritório? — ela pausa. — Elias, o que você vai fazer?
— Ainda não sei. Talvez sair de Nova York por uns dias.
— Vem para Brasília — ela diz imediatamente. — Fica aqui comigo. A gente conversa pessoalmente.
Olho para a mochila aos meus pés. Ir agora pode colocá-la em perigo direto.
— Talvez. Deixa eu resolver umas coisas aqui primeiro.
— Elias...
— Eu sei. A gente se fala em breve. Pessoalmente.
— Tome cuidado. Por favor.
— Você também.
Desligo antes que ela pergunte mais.
Três dias atrás, antes de levar os documentos para Okafor, tentei alertar meu grupo sobre os padrões que vinha identificando. Reunião semanal da divisão América Latina, sala 1247, as mesmas cadeiras giratórias de sempre dispostas ao redor da mesa oval. Apresentei os dados que havia coletado nas últimas semanas: transações financeiras brasileiras bloqueadas sem justificativa em bancos internacionais, contas de empresas congeladas por verificações de compliance que se arrastavam sem conclusão, ONGs ambientais com quadros técnicos sendo substituídos por consultores externos cujos currículos não resistiam a uma verificação básica, exercícios militares conjuntos na fronteira amazônica que não constavam em nenhum acordo bilateral registrado.
Dominique me interrompeu antes que eu terminasse de apresentar a cronologia, com aquela gentileza glacial que sempre funciona como prelúdio de silenciamento. Sua voz tinha a paciência forçada que se usa com quem está perdendo o controle. “Isso me parece especulação baseada em correlação sem nexo causal comprovado, Elias. Precisamos ter muito cuidado com teorias conspirativas que não têm evidência documental sólida.” Klaus citou três precedentes históricos de situações aparentemente similares que não levaram a nada, casos arquivados de paranoia institucional justificada retrospectivamente como zelo profissional excessivo. Richard redirecionou a discussão para a situação venezuelana, que segundo ele demandava nossa atenção imediata e não podia ser ofuscada por preocupações tangenciais sobre o Brasil. Paula e Cristina permaneceram em silêncio absoluto durante toda a troca, olhando fixamente para as pastas abertas à frente delas, canetas paradas sobre papel em branco, recusando o contato visual que poderia implicar cumplicidade ou discordância.
A reunião terminou com distribuição de tarefas, prazos confirmados, emails a serem enviados. Quando todos já estavam saindo, Dominique me pediu para ficar. Fechou a porta. Sentou na beirada da mesa. “Elias, você está carregando um peso muito grande sozinho. Talvez seja hora de tirar uns dias de folga, descansar um pouco.” A preocupação soava genuína. Também soava como demissão velada. Agradeci e saí. Voltei para minha mesa sabendo com clareza absoluta que estava completamente isolado, que todos ali já haviam feito suas escolhas e que essas escolhas eram no mínimo coniventes, ou pior, de cumplicidade. Ninguém ia agir. Ninguém ia sequer registrar formalmente minhas preocupações.
Abro o caderno que trouxe de casa, começo a anotar, com uma escrita apressada, tentando seguir o conselho do meu pai.
Lembro da conversa. Dezembro de 2024, apartamento dele em Brasília, um dia depois do funeral da minha mãe. Ele preparou café forte e ficamos sentados no silêncio pesado de quem acabou de enterrar alguém. Ele quebrou o silêncio falando de trabalho. Sempre foi mais fácil assim.
“Se você vir algo que parecer errado”, ele disse, “documente. Não confie na memória. Não confie em arquivo digital. Escreva à mão, guarde em lugar seguro, faça cópias. O papel ainda tem valor quando tudo mais pode ser apagado com um clique.”
Na época achei que era paranoia de diplomata velho que viveu ditadura. Agora entendo que ele estava me preparando para este momento exato.
Passo as próximas horas transcrevendo trechos dos documentos, condensando páginas técnicas em parágrafos diretos. “Reorganização administrativa” vira “ocupação territorial”. “Gestão compartilhada de recursos” vira “controle estrangeiro da Amazônia”. A língua materna oferece uma clareza que o inglês diplomático foi concebido para obscurecer.
Às quatro da manhã termino. Tenho doze páginas manuscritas que resumem cinquenta anos de planejamento para desmantelar o Brasil como estado soberano.
Fecho o caderno, guardo na mochila junto com os documentos originais. Preciso sair daqui antes que seja tarde demais.
Guardo tudo. Apago as luzes. Desço pelo elevador de serviço que sai direto no estacionamento. Saio por uma entrada lateral que dá numa rua paralela à First Avenue. O céu está clareando, frio de março ardendo na pele.
Caminho até uma estação de metrô duas quadras ao norte. Entro no metrô para o Queens. A mochila pesa no colo, prova material de conspiração que custou minha casa e vai custar muito mais antes de terminar.
Genebra ou Brasília. A escolha se impõe enquanto o trem acelera no túnel escuro. Meu pai tem conexões, experiência, décadas navegando política internacional. Ele saberia como arquitetar uma resposta calibrada, como usar os documentos de forma estratégica. Genebra é a escolha racional.
Mas Sofia está em Brasília. E mais importante: o Brasil está em Brasília, está em São Paulo, está nos lugares onde as pessoas que já estão sofrendo as consequências desses planos vivem, sem saber o que vem. Ir para Genebra é continuar operando na mesma lógica que produziu essa conspiração.
Fecho os olhos sentindo o balanço do vagão. Por um instante não sei mais qual corpo estou habitando. A consciência oscila, a percepção racha, e quando abro os olhos a decisão já está tomada.
Brasília.
O metrô para na estação. Pego a mochila e subo para a superfície. JFK fica a uma hora daqui. Tenho dinheiro suficiente para passagem só de ida, comprada em espécie, sem rastro digital.
Antes de ir para o aeroporto, preciso fazer uma coisa importante. Abro o celular, procuro nos contatos arquivados, encontro o número que salvei há quatro semanas quando Martin pediu demissão. A última coisa que ele disse foi “sai enquanto ainda dá para você se reconhecer”. Pensei que era amargura. Mas agora compreendo a lucidez dele.
Abro o aplicativo criptografado e digito: “você estava certo. preciso de lugar seguro.”
Espero. Três minutos. A resposta chega: “buenos aires. vem.”
Não vou direto. Ainda tenho a ilusão de que preciso ir para Brasília primeiro. Mas agora sei: se tudo der errado, se não houver saída, Martin é a rede de segurança.
Olho as outras mensagens que chegaram nas últimas horas. Estranhas.
Paula: “Coordenadas: 2.8456, -63.9821. Peça por Mayara. Ela é Yanomami, trabalhou comigo na ONU anos atrás. Voltou para o território quando percebeu o que vinha. Tem gente que não está esperando o colapso, Elias. Já está vivendo do outro lado.”
E outra, de número que não reconheço, texto em português com sintaxe diferente:
“Amazônia já tem visitantes que não foram convidados. Forças dizem que vêm proteger. Mas proteção deles parece ocupação. Aldeias sendo esvaziadas. Dizem que é relocação temporária. Nós sabemos o que vem depois. Precisamos que brancos escrevam o que está acontecendo. Palavra escrita é arma que vocês têm e nós não. Use ela. - Conselho da Floresta”
Guardo o celular. Olho pela janela do metrô. Luz cinzenta da manhã sobre Queens.
Brasília ainda é o destino. Sofia está me esperando, mas talvez haja algo que eu precise ver primeiro, as mensagens me deixaram inquieto e essa inquietação eu conheço bem e só acaba quando tenho toda a perspectiva entendida. Ossos do ofício. Talvez o Brasil que precisa ser documentado não seja o que está nas capitais, mas o que já está se organizando nas margens.
Subo no ônibus para o aeroporto, mochila no colo. Escolho um assento no fundo, perto da saída de emergência. O ônibus começa a se mover, atravessando Queens em direção a JFK.
Duas fileiras à frente, um homem de terno cinza ajusta o fone de ouvido.
Reconheço o gesto. O mesmo homem que vi no metrô ontem à noite. Tenho certeza.
Ele vira a cabeça levemente. Nossos olhos se encontram pelo reflexo da janela.
Ele sorri.
Minha mão sua na alça da mochila. Coração dispara.
O homem se levanta. Caminha pelo corredor na minha direção.
Preparo para…
Ele passa direto. Desce na próxima parada. Entra num prédio de escritórios da Goldman Sachs sem olhar para trás. Fone bluetooth no ouvido, conversando com alguém, gesticulando sobre planilhas ou mercados ou qualquer coisa que pessoas normais fazem numa quinta-feira de manhã.
Nunca esteve me seguindo.
Respiro. O ônibus continua.
Mas agora não consigo mais saber. Cada homem de terno. Cada passageiro quieto demais. Cada pessoa que sorri no momento errado.
O ônibus continua para JFK. Olho pela janela. Manhattan fica para trás, arranha-céus diminuindo até virarem linha pontilhada no horizonte.
No reflexo do vidro, vejo meu próprio rosto. O reflexo revela a exaustão, um olhar de quem já está perdido mesmo antes de desaparecer.
Foi assim que eles venceram Thomas. Não o pegaram. Só fizeram ele não conseguir mais distinguir entre vigilância real e sombras imaginárias até que a única opção segura foi desaparecer completamente.
22 de março de 2026, seis e meia da manhã.
Em duas semanas, quando meu nome reaparecer nos registros oficiais, eu já terei entendido: não estou documentando o fim de um país.
Estou documentando o nascimento de dois mundos simultâneos.
Um que vão chamar de Reorganização. Outro que vão chamar de Confederação.
E ambos já nasceram.






Ótima leitura para uma tarde de domingo... apesar da angústia causada pelos acontecimentos e da espera pelo próximo capítulo.