O voo aterrissa em Guarulhos às quatro da tarde de um domingo e São Paulo me recebe com aquele calor úmido de março que gruda na pele como segundo corpo, cheiro de querosene e concreto molhado subindo do asfalto enquanto desço a rampa do finger e percebo que estou pisando no Brasil pela primeira vez em quatorze meses sem saber se o país que acabei de entrar ainda vai existir como país daqui a dois anos.
Compro um chip pré-pago num quiosque do desembarque, pago em dinheiro, dou nome falso no cadastro que ninguém verifica. O chip anterior ficou numa lixeira do terminal 4 de JFK, partido em dois, cartão SIM separado do aparelho e descartado em lixeiras diferentes como Thomas me ensinou numa conversa que na época pareceu paranoia e agora parece manual de sobrevivência básica.
O táxi até a Luz leva duas horas por causa do trânsito de domingo à tarde na Marginal, e durante o trajeto inteiro fico olhando pela janela tentando reconhecer a cidade onde cresci. São Paulo continua igual e completamente diferente, como alguém que envelheceu mal durante sua ausência, prédios novos brotando entre os mesmos buracos no asfalto, letreiros luminosos em inglês nos bairros que antes eram em português e uma quantidade de câmeras de vigilância nos cruzamentos que não lembro de existir quando saí.
O hotel fica numa transversal da Rua Mauá, um desses estabelecimentos que aceitam pagamento em dinheiro sem perguntas, recepção atrás de vidro blindado, corredor escuro que cheira a desinfetante industrial, quarto pequeno com cama dura e janela que dá para um poço de luz interno onde alguém numa cozinha embaixo frita cebola perpetuamente. Tranco a porta, coloco a mochila na cama, sento na cadeira de plástico e pela primeira vez desde que saí do prédio da ONU trinta horas atrás permito que o corpo registre o cansaço completo.
Tenho documentos que provam que um consórcio de corporações e agências governamentais está planejando desmontar o Brasil como nação soberana. Tenho nomes, datas, organogramas, memorandos internos, mapas de zonas de concessão, cronogramas operacionais. Tenho tudo que um jornalista precisaria para publicar a história do século. Preciso encontrar esse jornalista.
Ligo o celular novo e começo a fazer ligações.
A primeira é para Cláudio Werneck, editor de internacional da Folha, que conheci em 2017 quando trabalhava na sucursal do El País em São Paulo e ele estava cobrindo a crise política na Venezuela. Homem competente, corajoso até o ponto em que a coragem começa a custar anunciantes. Atende no quarto toque, voz de quem está assistindo jogo no sofá com a família.
— Cláudio, é o Elias. Elias Drummond.
Pausa.
— Elias? Da ONU? Quanto tempo, cara. Tudo bem?
— Preciso te ver. Amanhã de manhã. É urgente.
Outra pausa, mais longa. Percebo que ele está saindo do cômodo onde a família está.
— Que tipo de urgente?
— Do tipo que muda tudo. Tenho documentos. Preciso que alguém publique.
— Documentos sobre o quê?
— Não posso falar por telefone. Amanhã. Pinheiros, naquela padaria onde a gente se encontrava.
— Elias, você está no Brasil? Achei que estava em Nova York.
— Cheguei hoje.
O silêncio que se instala é de cálculo, de um profissional pesando riscos antes de responder.
— Tá bom. Dez da manhã. Mas Elias, se for coisa de espionagem internacional, não sei se a Folha é o canal certo. Você sabe como está o clima aqui.
— Eu sei. Amanhã.
Durmo três horas. Acordo com o barulho de alguém vomitando no quarto ao lado e a certeza de que o dia que começa vai definir se os documentos que carrego na mochila encontram um caminho até o público ou morrem comigo num hotel de beira perto de onde a “Cracolândia” nasceu.
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A padaria em Pinheiros continua no mesmo endereço, mesmo toldo verde desbotado, mesmo cheiro de pão na chapa misturado com café coado. Chego quinze minutos antes, sento de costas para a parede, de frente para a porta. Hábito que adquiri nas últimas trinta horas e que provavelmente nunca vou perder.
Cláudio chega pontual, camisa social com as mangas dobradas, bolsa de couro transpassada, olheiras que indicam que ele também não dormiu bem. Senta, pede café, me olha com uma expressão que mistura curiosidade jornalística com cautela de sobrevivente. Sem conversinha, foi direto ao ponto.
— Tá, fala.
Abro a mochila. Tiro a pasta com os documentos de Okafor, a cópia que transcrevi no avião durante as nove horas de voo entre JFK e Guarulhos enquanto fingia dormir. Coloco na mesa entre nós.
— Isso aqui é um plano operacional para a reorganização territorial do Brasil. Dividir o país em cinco zonas administrativas autônomas sob gestão de consórcios internacionais. Concessões de noventa e nove anos sobre a Amazônia, o pré-sal, o cerrado, o aquífero Guarani. Aproveitando a crise venezuelana como pretexto, a militarização da fronteira amazônica como porta de entrada, e o colapso econômico programado como justificativa para intervenção. Nomes, datas, valores, estruturas de comando. Tudo assinado, tudo documentado.
Cláudio olha para a pasta sem tocar. Toma um gole do café. Olha para mim.
— Quem te deu isso?
— Não posso revelar a fonte.
— Elias, sem fonte verificável eu não consigo levar isso para a redação.
— Você pode verificar os documentos. Cruzar com informação pública. As empresas existem, os nomes existem, os movimentos financeiros existem.
— Posso. Mas leva tempo. E preciso de contexto, preciso saber de onde veio, quem produziu, que interesse tinha em vazar para você especificamente.
— O interesse era que alguém publicasse antes de ser tarde demais.
Ele mexe na colher do café. Olha pela janela para a rua onde carros passam e pessoas caminham e o mundo continua funcionando como se nada estivesse acontecendo por trás das telas e dos memorandos.
— Elias, vou ser direto com você. A Folha está num momento complicado. Perdemos três repórteres no último semestre, corte de orçamento, a direção está cautelosa com qualquer coisa que envolva conflito com governo estrangeiro. Depois do que aconteceu com a equipe que cobriu a intervenção na Venezuela, existe uma orientação interna de evitar material não verificado sobre geopolítica americana. Não é censura, é gestão de risco jurídico.
— Gestão de risco jurídico. É como a direção chama.
— Eu sei como soa.
— Soa como funciona.
— Soa como realidade. Eu tenho dois filhos, Elias. E a Folha é o único emprego que existe na minha área neste país agora.
Recolho os documentos. Ele me olha com uma culpa que reconheço porque é a mesma que senti na ONU durante meses, culpa administrada, culpa que permite continuar funcionando.
— Me dá uma semana, ele diz quando me levanto. Vou ver o que consigo fazer por fora, conversar com gente de confiança.
— Não tem uma semana.
Saio do café e ando duas quadras até uma praça com banco de cimento onde sento e olho para as mãos que seguram a mochila. Por um instante as mãos parecem mais velhas, manchadas pelo tempo, e a praça ao redor oscila levemente como imagem projetada sobre outra imagem, São Paulo de 2026 sobreposta a algo que meu corpo reconhece sem que minha cabeça consiga nomear. Fecho os olhos. Quando abro, estou de volta ao banco de cimento, ao barulho de trânsito, ao calor de março.
Ligo para o segundo nome da lista.
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Ricardo Azevedo é advogado de direitos humanos, trabalhou com a Comissão da Verdade, tem escritório numa sala apertada na Praça da República com pilhas de processos em cada superfície horizontal. Aceitou me receber no mesmo dia, o que interpreto como bom sinal até perceber que a pressa dele é curiosidade acadêmica, a mesma fascinação que um entomologista tem por uma espécie rara que acabou de pousar na mesa do laboratório.
Folheia os documentos por quarenta minutos enquanto faço café na cozinha improvisada do escritório. Quando volto, está de óculos na testa, mãos apoiadas nos papéis espalhados, expressão concentrada.
— Isso é real?
— É real.
— Você tem como provar procedência?
— Tenho a cadeia de custódia até mim. Antes disso, não posso revelar.
Ele tira os óculos, limpa com a barra da camisa, coloca de volta.
— Elias, vou te explicar o problema. Do ponto de vista jurídico, esses documentos não existem. Não foram produzidos por nenhuma entidade que o direito brasileiro reconheça como parte num processo. Não foram obtidos por meio legal. A pessoa que vazou cometeu crime em pelo menos três jurisdições. E qualquer uso público deles abre quem publicar para processo por recepção de material confidencial, violação de segredo de Estado e provavelmente uma meia dúzia de outras coisas que um bom advogado de Washington inventa em vinte minutos.
— Então a solução é não fazer nada.
— A solução é construir um caso paralelo. Usar esses documentos como mapa, confirmar cada elemento por fontes independentes e publicar o resultado da investigação sem jamais mostrar os originais. Leva meses. Talvez um ano.
— Em um ano o Brasil pode não existir mais como Estado soberano.
Ele me olha por cima dos óculos com a paciência de quem já ouviu centenas de pessoas dizerem que o mundo vai acabar e sabe que o mundo continua acabando devagar sem jamais acabar completamente.
— Elias, o Brasil sobreviveu à ditadura, ao Collor, a duas décadas de corrupção sistêmica, à pandemia. Sobrevive a isso também.
Recolho os documentos pela segunda vez no mesmo dia. Na porta, ele me dá a mão e fala com voz mais baixa, como se o corredor pudesse estar escutando.
— Se precisar de ajuda jurídica pessoal, me liga. Isso eu posso fazer.
Desço a escada do prédio de Ricardo com os documentos de volta na mochila e a sensação de que estou carregando um corpo que ninguém quer enterrar. Na calçada da República, vendedores ambulantes gritam preços de capinha de celular e guarda-chuva. Acho uma pilastra para me encostar fora do fluxo de pedestres e consultar a lista que montei no avião. Três nomes restam. O próximo é a Aliança Verde, ONG de proteção ambiental que opera em oito estados, trabalho sério de monitoramento de desmatamento e defesa de terras indígenas, gente que deveria ser a primeira a querer esses documentos na mesa porque os planos de Kallinger descrevem exatamente a destruição do que passam a vida tentando proteger. Ligo do celular pré-pago, explico que sou ex-funcionário da ONU com material sensível sobre ameaça à Amazônia, e a assessora que atende agenda reunião para o fim da tarde com uma urgência que confundo com interesse genuíno.
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A ONG fica no Itaim, andar inteiro de um prédio comercial com paredes de vidro e uma recepcionista que me pede para assinar termo de confidencialidade antes de entrar na sala de reuniões. A diretora executiva é uma mulher de cinquenta anos com cabelo curto e brincos de prata que ouve minha apresentação durante vinte minutos tomando notas num iPad e depois me explica com gentileza cirúrgica por que a organização não pode se envolver.
— Nosso financiamento vem em grande parte de fundações americanas. Se publicarmos material que acusa o governo dos Estados Unidos de planejar ocupação territorial de um país soberano, perdemos setenta por cento do orçamento no trimestre seguinte. Sem orçamento, fechamos. Se fechamos, os projetos de proteção ambiental que mantemos em oito estados brasileiros morrem. A escolha é entre denunciar um plano de ocupação e manter os programas que protegem o que esse plano quer ocupar.
Pela primeira vez entendo por completo a engenharia do sistema que os documentos descrevem. A dependência financeira das organizações que deveriam fiscalizar é parte do desenho, está prevista nos memorandos de Kallinger, aparece na página treze sob o título “Gestão de Stakeholders Não-Governamentais: Estratégias de Contenção por Alinhamento de Incentivos”. As ONGs que recebem dinheiro americano para proteger a Amazônia são o mesmo mecanismo que impede que alguém denuncie quem planeja ocupar a Amazônia. O sistema funciona exatamente como foi desenhado para funcionar.
Saio do prédio e a cidade continua. Avenida Faria Lima em horário de rush, executivos de camisa social saindo de prédios envidraçados, delivery cruzando no meio dos carros, moradores de rua dormindo a três metros de recepções climatizadas e repletas de seguranças de óculos escuros. Cem metros lineares de calçada onde dois mundos operam lado a lado no mesmo espaço, e ninguém achando estranho, porque sempre foi assim.
A noite traz mais uma tentativa. Um jornalista independente que conheço de conferências, cara que publicou investigações sobre desmatamento ilegal que deram prêmio e quase deram bala. Nos encontramos num bar em Pinheiros onde a música está alta o suficiente para cobrir conversas e ele folheia os documentos com as mãos tremendo de algo que poderia ser excitação ou medo.
— Isso aqui derruba governo, Elias.
— Eu sei.
— Você sabe o que acontece com quem derruba governo?
— Eu sei.
— Vou pensar. Me dá uns dias.
Volta para o hotel sabendo que “me dá uns dias” é a forma educada que as pessoas usam quando a resposta é não. Deito na cama dura olhando para o teto manchado de infiltração e penso em Thomas Ashford, que arriscou tudo para vazar esses documentos e de quem ninguém tem notícia desde 22 de março, e na possibilidade real de que todo o sacrifício dele termine na gaveta de um hotel barato na Luz porque ninguém tem coragem suficiente para publicar o que ele mandou para o mundo.
Penso em ligar para Sofia. Quero ouvir a voz dela, quero contar o que estou vivendo, quero que alguém saiba onde estou e o que carrego. Decido não ligar porque cada ligação é risco, cada pessoa que sabe é alvo potencial, e Sofia no Itamaraty já está exposta o suficiente sem que eu coloque mais peso sobre ela.
Durmo pensando na mensagem de Paula. As coordenadas. Mayara. Território Yanomami.
“Tem gente que não está esperando o colapso. Já está vivendo do outro lado.”
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De manhã, Paula liga.
Não esperava, embora devesse esperar, porque Paula sempre soube coisas antes de qualquer um e sempre apareceu quando o silêncio ficava pesado demais para ser ignorado. Ela está em São Paulo. Pediu transferência de volta ao Itamaraty duas semanas depois da reunião sobre o Green Mantle, fez tudo pelo protocolo, preencheu formulário, esperou aprovação, embarcou com passagem institucional e recibo. Chegou em Brasília, ficou um mês, e depois pediu licença sem vencimentos e veio para São Paulo. O caminho mais longo, o mais limpo, o que deixa menos rastro de ruptura. Paula viveu ditadura, sabe que quem bate porta chama atenção.
— Sei que você está aqui. Soube ontem.
— Como?
— Cláudio me ligou.
Claro. A rede funciona assim, informação circula entre quem se conhece e se confia, e Cláudio confiava em Paula antes de confiar em mim.
— Preciso te ver.
— Mercado Municipal. Meia hora. Ala dos temperos, perto da escada do mezanino.
Chego ao Mercado Municipal e o barulho me atinge como uma onda física, vozes gritando preços, cheiro de bacalhau e frutas maduras e especiarias misturados num vapor denso que sobe do piso molhado de tanto trânsito de caixas e carrinhos. São Paulo em estado puro.
Paula está encostada num pilar perto da banca de temperos, cabelo grisalho mais curto do que lembro, óculos novos, a mesma bolsa de couro desgastada que vi durante anos nos corredores da ONU. Quando me vê, a expressão é de confirmação.
— Você tentou a Folha, a OAB, a ONG, o freelancer. Ninguém aceitou.
— Ninguém aceitou.
Ela assente como quem confirma diagnóstico que já sabia.
— Senta.
Sentamos no mezanino, dois cafezinhos, o mercado vibrando embaixo, um organismo vivo que ignora a conspiração que carrego na mochila.
— Quando voltei para São Paulo, tentei a mesma coisa que você está tentando agora. Tinha documentos menores, pedaços do que você provavelmente tem completo. Levei para imprensa, para gente da academia, para política. Fiz em duas semanas o que você fez em dois dias. O resultado foi o mesmo.
— Então informação não adianta nada.
— Informação adianta. Mas as estruturas que deveriam transformar informação em ação já foram capturadas. Imprensa depende de financiamento que vem de quem quer a ocupação. Justiça opera dentro de um sistema jurídico que foi desenhado para proteger quem tem mais advogados. ONGs funcionam com dinheiro de quem quer controlar o que elas protegem. A academia publica artigos que ninguém lê e congressos que não mudam nada. Tudo em perfeito funcionamento.
— E o que sobra?
Ela bebe o café, coloca a xícara vazia na mesa e me olha com uma clareza que reconheço de poucas pessoas na vida, aquele olhar de quem já passou da raiva, da frustração, do luto, e chegou num lugar onde a lucidez é tão afiada que quase dói.
— Sobra o território. O chão. As pessoas que estão no lugar onde a coisa vai acontecer e que já começaram a se organizar porque sabem que ninguém vai vir salvar. Não estão esperando publicação nem denúncia, tribunal, resolução de Conselho de Segurança. Já vivem do outro lado.
Fico em silêncio esperando que ela explique.
Ela abre a bolsa de couro e tira um caderno. Folheia até uma página marcada com clipe.
— Mayara. Você lembra dela? Vocês trabalharam juntos no relatório de desmatamento, 2019 ou 2020, aquele que mandaram reescrever três vezes até ficar inofensivo.
— Lembro. Yanomami.
— Voltou para o território. Está coordenando o que eles chamam de Conselho da Floresta. Rede horizontal entre as nações indígenas, quilombolas, ribeirinhos. Comunicação por rádio de ondas curtas e mensageiros. Sem internet, sem rastro digital. Estão mapeando áreas ocupadas, criando rotas de fuga, guardando sementes e conhecimento em lugares que ninguém sabe onde ficam.
Fico em silêncio processando. O mercado continua barulhento ao redor, gente comprando bacalhau e goiabada como se o mundo fosse permanecer exatamente como está agora.
— Eles mandaram uma mensagem para você. A que você recebeu ontem. A do Conselho da Floresta.
— Você sabia que eu ia receber?
— Fui eu que dei seu contato para eles. Quando soube que você tinha os documentos de Okafor, sabia que você ia acabar chegando aqui, nessa mesa, com essa mochila e essa frustração, porque foi o mesmo caminho que eu fiz.
Olho para as mãos de Paula. Firmes, sem tremer, unhas curtas, anel girando no dedo como sempre fazia quando processava algo importante. No fundo do mercado, uma voz anuncia preço de camarão e o som chega distorcido pela distância, como transmissão de rádio de outra época.
— Eles precisam de alguém que escreva. Que documente o que está acontecendo no território. As forças que estão lá dizem que vieram proteger, Elias, a mesma linguagem dos documentos que você está carregando, proteção ambiental internacional, cooperação de segurança, os mesmos eufemismos que a gente passava a limpo nos corredores da ONU. Aldeias estão sendo esvaziadas. Chamam de relocação temporária…e a gente sabe como termina relocação temporária.
— Você quer que eu vá para a Amazônia.
— Eu quero que você vá ver o que precisa ser visto. Os documentos que você carrega descrevem um plano. O que está acontecendo no território é a execução do plano. As duas coisas juntas são prova que ninguém pode negar.
Olho para a mochila aos meus pés. Os documentos de Okafor, as transcrições, os nomes, os mapas. Papel que ninguém quer publicar, informação que ninguém quer receber, verdade que todo mundo prefere que continue sendo teoria porque enquanto for teoria é possível fingir que talvez não seja verdade.
— Vai por São Paulo até Manaus, diz Paula abrindo o caderno na página das coordenadas. De Manaus para Boa Vista, voo de uma hora e meia. Em Boa Vista, procura Mayara. Ela te leva até o território. Paga tudo em dinheiro, não usa documento de identidade em lugar nenhum que não seja obrigatório, não liga para ninguém que não precise saber onde você está.
— E se eu for e não voltar?
— Você volta. A Mayara garante a segurança dentro do território. O problema é chegar lá e sair de lá sem chamar atenção.
Fico olhando para o mercado. Uma senhora negocia preço de queijo com a mesma intensidade que diplomatas negociam resoluções no Conselho de Segurança e alguma coisa nessa imagem que me faz sorrir pela primeira vez em três dias.
— Paula.
— Sim?
— Por que você não vai?
— Já fui. Duas vezes. Mas eu tenho cara de diplomata do Itamaraty e isso gera desconfiança. Você é diferente. Trabalhou com a Mayara, ela confia em você. E você é jornalista de formação, sabe documentar sem distorcer. É o que eles precisam.
Sofia esperando em Brasília. Meu pai em Genebra tentando proteger o que sobra da diplomacia brasileira de dentro de um exílio disfarçado. Thomas desaparecido. Cláudio com seus dois filhos e seu medo razoável. Ricardo com sua prudência jurídica. Todos disseram não, e todos tinham razões legítimas.
E penso na mensagem do Conselho da Floresta. “Palavra escrita é arma que vocês têm e nós não. Use ela.”
— Quando é o próximo voo para Manaus?
Paula sorri pela primeira vez. Sorriso breve, seco, de quem sabe que a decisão que acabou de ser tomada custa mais do que parece.
— Amanhã de tarde. Saindo de Congonhas, com escala em Brasília. Não desça em Brasília. Fica no avião.
— Sofia vai querer saber por que passei pela cidade e não parei.
— Conta para ela depois. Quando tiver o que contar.
Guardo o caderno com as coordenadas no bolso interno da mochila, junto com os documentos que ninguém quis, que ninguém publicou, que vou levar para o único lugar onde talvez façam sentido. O lugar onde plano e execução se encontram. O território onde a palavra escrita pode ainda servir para alguma coisa que assembleia, tribunal e redação de jornal já provaram que não conseguem fazer.
Paula me acompanha até a saída do mercado. Na calçada, o sol de São Paulo bate forte .
Daqui a três dias vou estar num barco subindo o Rio Mucajaí em direção ao território Yanomami e o que vou ver lá não cabe em nenhum dos documentos que carrego na mochila.
— Elias, espera.
A voz dela mudou. Paro, viro. Paula está com o celular na mão, olhando para a tela com uma expressão que não vi antes. O rosto perdeu cor.
— Que foi?
Ela caminha até mim, abaixa a voz, vira a tela na minha direção. Aplicativo criptografado, o mesmo tipo de servidor que Thomas usava. Mensagem recebida às onze e quarenta e dois da manhã, enquanto estávamos sentados no mezanino tomando café. Sem identificação de remetente. Coordenadas: 2.8456, -63.9821. As mesmas coordenadas de Mayara.
E abaixo, uma frase.
“Eu já estou aqui.”
Olho para Paula. Ela olha para mim.
— Isso é dele?
— O servidor é o mesmo. O protocolo de criptografia é o mesmo. A forma de escrever, coordenadas primeiro, frase depois, sem assinatura, é a mesma.
Thomas Ashford desapareceu cinco dias atrás. O mundo inteiro, ou pelo menos a parte do mundo que sabia da existência dele, assumiu que estava morto ou preso num porão de Langley. E agora uma mensagem chega de dentro do território Yanomami, do ponto exato para onde estou indo, dizendo que já está lá.
— Pode ser armadilha, digo.
— Pode.
— Pode ser alguém usando o servidor dele.
— Pode.
— Pode ser ele.
Paula guarda o celular no bolso da bolsa. O anel gira no dedo. O mercado continua barulhento atrás de nós, e na calçada da Rua da Cantareira o trânsito buzina e o sol esquenta a cabeça e o mundo segue funcionando como se ninguém tivesse acabado de receber mensagem de um homem que deveria estar morto.
— Vai, ela diz.
Paula guarda o celular. Eu continuo andando.







Que ficção bem construída.
Geopolítica + Atualidade + drama e cenários conhecidos para um paulistano. Adorando ler os capítulos já publicados e no aguardo dos próximos.
Mais um capítulo tenso. Aguardando ansiosa pelo próximo.