O Cronista abre o caderno na última página escrita. Lê em voz baixa, como quem confere se a memória guardou certo.
“O que não tem nome não pode ser confiscado.”
Fecha o caderno. Coloca de volta na prateleira de pedra entre outros doze, todos com lombada numerada, nenhum com título. Apaga a lanterna. Fica parado no escuro por um momento antes de sair.
Acordo antes do sol. A aldeia já está em movimento, fumaça das fogueiras, vozes baixas de mulheres na maloca grande. Kopenawa está sentado na entrada do xapono1 quando saio. Esperou. Soube a hora sem ter consultado nada.
As cinco cópias do manuscrito foram distribuídas na noite anterior, cada uma com o representante de cada território, dentro de tubos de PVC lacrados com cera de abelha que Mayara trouxe de Boa Vista, preparada para o que ia precisar antes de eu saber que ia precisar. Cinquenta e três páginas por cópia, escritas à mão em um caderno comprado numa papelaria da Rua Aurora antes de embarcar para Manaus. Papel que não precisa de bateria, que não tem endereço IP, que o fogo destrói e a água danifica e que por isso mesmo é o único formato que ainda pertence a quem o escreve.
Kopenawa me olha por um tempo antes de falar.
— Você escreveu o que viu.
— Tentei.
— Então serviu. — Ele levanta, coloca a mão no meu ombro um instante, tira. — Agora vai.
Mayara espera perto do barco com a mochila já amarrada. Nos despedimos sem cerimônia, aperto de mão, ela me olha um segundo a mais do que o necessário.
— Quando publicar, publica de uma vez. Não avisa antes.
— Sei.
— Não sabe — ela diz, sem crueldade. — Mas vai aprender.
O barco leva três horas descendo o Mucajaí com a correnteza, motor em rotação baixa, os dois homens na popa em silêncio. Na margem onde vimos a trilha de máquina na subida, Mayara aponta sem falar. O barco segue. A floresta engole a trilha e o rio continua. Na pista da Sesai o piloto já está lá. O Cessna levanta, a pista some embaixo, depois a clareira, depois a floresta fecha sobre tudo e lá de cima parece sempre intacta, o verde contínuo que os satélites vendem como prova de permanência, e a imagem de cima guarda para si o que está acontecendo por baixo das copas.
Em Boa Vista, enquanto espero o voo para Manaus, compro os jornais do dia. Sento numa cadeira de plástico e abro o Folha. É um hábito de sete anos de ONU, ler jornal em papel antes de qualquer coisa. Por um momento o corpo esquece onde está, e a cadeira de plástico de Boa Vista é igual a todas as outras cadeiras de plástico de todos os outros aeroportos de todas as outras viagens que já fiz.
Manchete principal: ajuste fiscal emergencial, governo federal suspende repasses para saúde e educação em onze estados, reunião de emergência na madrugada anterior. Real caiu seis por cento em três dias. Leio e sinto o estômago apertar com o reconhecimento específico de já ter lido esse parágrafo antes, num documento de outubro de 2025, seção Caminhos de Implementação, item dois: pressão econômica suficiente para tornar ajuda externa politicamente palatável. O jornal está descrevendo o cronograma e ninguém na redação sabe que está descrevendo o cronograma e essa distância entre o que está sendo publicado e o que está acontecendo de fato, é a parte mais precisa do plano, a que exige mais engenharia e está funcionando.
Nas páginas internas, uma nota curta: o porto de Santos recusou a saída de dois navios cargueiros brasileiros que tentaram zarpar para a Europa sem inspeção prévia de conformidade ambiental por auditores de consórcio internacional. Paro de respirar. Fico parado com o jornal aberto na mão por um tempo que não meço, no aeroporto de Boa Vista, com cinquenta e três páginas na mochila que descrevem exatamente isso, item três da mesma seção: deterioração da capacidade logística que force dependência de operadores externos. Santos é o maior porto da América Latina. Se Santos opera sob inspeção de consórcio privado internacional, o Brasil exporta quando o consórcio permite. Isso já está acontecendo. Agora. Enquanto o jornal chama de procedimento de rotina.
Fecho o jornal. Abro o segundo. Foto de satélite: expansão de acampamento de cooperação técnica na fronteira entre Roraima e Venezuela, estrutura permanente, heliponto, antenas. O governo venezuelano não comentou. O governo brasileiro disse que monitora a situação com atenção. Lembro do que meu pai me disse antes de Genebra: quando diplomata veterano diz que monitora, já perdeu a capacidade de intervir e está registrando para a história. Dobro o segundo jornal. Guardo os dois na mochila.
O voo Boa Vista para Manaus dura uma hora e vinte. Fico com o caderno fechado no colo olhando pela janela para a floresta que de cima parece sempre intacta e pensando que Santos é o maior porto da América Latina.
Pouso em Manaus no fim da tarde. Três horas até a conexão para São Paulo. Sento na área de embarque com o celular na mão verificando mensagens de Paula. Nada desde que entrei no território. Mando mensagem: estou voltando. Ligo. Toca sem atender.
A mensagem do meu pai chega enquanto ainda estou com o telefone na mão. Cifrada no método que ele me ensinou em 2024, quando começou a suspeitar que os servidores do Itamaraty já não eram seguros. Cinco linhas. Ele escreve que está bem em Genebra e que o tempo está frio, e cada palavra nessa frase sustenta o peso de uma frase completamente diferente que ele está escrevendo ao mesmo tempo: o vocabulário operacional que passei semanas documentando no Brasil, o mesmo sequenciamento, a mesma gramática de desmonte, está aparecendo agora dentro dos Estados Unidos, reconhecível pela cadência, pelo ritmo de coisas que começam antes de ter nome.
Fico parado com o telefone na mão por um tempo longo.
O que ele está dizendo tem uma implicação que levo alguns minutos para deixar assentar completamente: o processo que está desmontando o Brasil foi coordenado por uma potência que agora está sendo impactada pelo mesmo mecanismo que ela própria operou. Isso significa que o mecanismo é maior do que qualquer potência. Significa quer não existe posição de fora, que não existe quem coordena e quem é coordenado, que a gramática do desmonte não pertence a nenhum Estado específico, pertence ao próprio processo, e o processo continua independente de quem pensava estar no controle. Lembrei de uma série excelente sobre o tema, que assisti há algum tempo, Deep State, 2 que retratava em detalhes o subterrâneo das decisões intencionais de se provocar conflitos e guerras com a finalidade de lucro apenas. Sadam Hussein, a Guerra do Iraque e as “armas de destruição em massa” que nunca foram encontradas não me saem da cabeça.
Lembro também de uma frase que li quando tinha vinte e poucos anos, num livro fino que um professor de filosofia deixou na mesa, ali, disponível, sem apresentação. O Tao que pode ser nomeado não é o Tao eterno. 3 Na época li como enigma poético, o tipo de coisa que soa profunda sem exigir nada de quem lê. Agora, com o telefone na mão e a mensagem na tela, a frase tem outra textura. O que tem nome pode ser confiscado. O que tem nome pode ser mapeado, legislado, bloqueado, reorganizado em cinco zonas administrativas com cronograma e protocolos de contenção. O plano inteiro que carrego nesta mochila é um sistema de nomeação: Zona Norte, Zona Centro-Oeste, parceiros de implementação, custos de transição em termos humanos. Nomear é o primeiro ato de posse. E o que está resistindo, aqui e em 2149, são as estruturas que nunca aceitaram o nome que lhes foi dado de fora. O xapiri não tem tradução. O manuscrito não tem título. A frase que vou escrever esta noite num caderno em São Paulo ainda não existe.
Olho pela janela do terminal para um avião taxiando na pista. Penso em Mayara dizendo não sei, mas vou aprender. Guardo o telefone.
Quatro homens chegam à área de embarque com laptops abertos e coletes de ONG ambiental, um dos nomes do plano de reorganização territorial como parceiros de implementação em zonas de transição. Voo de madrugada para Boa Vista. Embarcam para onde eu acabei de sair. Anoto no caderno o nome da ONG, a hora, o destino.
O voo Manaus para São Paulo sai às seis e meia. Compro mais um jornal antes de embarcar. O Estado de S. Paulo, análise de duas páginas: Crise ou Transição. Os economistas que apontam para crise citam o câmbio, a fuga de capitais, o congelamento de repasses federais, a paralisia de obras em dezessete estados, o porto de Santos abaixo de quarenta por cento. Os economistas que dizem transição são todos ligados a instituições financiadas pelos mesmos fundos que aparecem no plano de reorganização territorial. A palavra bloqueio não aparece uma vez nas duas páginas.
Na página seis: Dinamarca confirma negociações formais sobre status da Groenlândia, quatro parágrafos, sem análise. Ao lado, Parlamento Europeu aprovando resolução sobre gestão de recursos hídricos em territórios de alta vulnerabilidade climática, sem nomear países. Página doze: Venezuela no décimo quarto dia de exercícios militares conjuntos com forças de coalizão.
Dobro o jornal. A floresta acabou, estamos agora sobre o cerrado, a terra tem a cor de coisa que esperou demais. O porto de Santos a quarenta por cento é o cronograma avançando na velocidade calibrada para que cada etapa pareça consequência da anterior. O governo vai continuar parecendo governo até perceber que as alavancas que ainda opera não movem mais nada relevante, e esse momento pode já ter passado sem data registrada. O colapso tem essa propriedade: às vezes só tem a hora de ser percebido, não a hora que começou.
Fecho os olhos.
São Paulo de madrugada, calor úmido que não alivia nem às três da manhã, cheiro de asfalto molhado e escapamento. Pego um táxi para o hotel perto da Luz onde fiquei no mês passado. O taxista fala sobre o câmbio, sobre a gasolina, sobre o posto de saúde do bairro que fechou sem aviso na semana passada. A cidade que ele descreve tem os mesmos contornos da cidade do jornal, a mesma sensação de serviços que vão deixando de funcionar um por um sem que se consiga nomear o momento em que as circunstâncias viram outra coisa.
Na Marginal, um posto de controle que não existia em março. Dois homens fardados com colete de logotipo que não reconheço, parando veículos. O taxista diminui a velocidade, passa devagar, eles acenam para seguir. Nenhum de nós comenta. A cidade está aprendendo a não comentar.
Na Luz, a grade da agência federal na esquina da Mauá está fechada com cadeado numa quinta-feira de manhã, sem feriado, sem aviso. A calçada tem marcas de pneu que não fazem sentido e o concreto está mais claro num pedaço de dois metros, lavado com pressão recentemente.
A grade está arrancada, o concreto embaixo com ferrugem de anos. A calçada vazia num raio de cinquenta metros.
Pisco. A grade está fechada com cadeado. O ambulante monta a barraca de caldo de cana. Um ônibus passa. Anoto no caderno sem parar de andar.
Mando mensagem para Paula de três números diferentes ao longo do dia. O primeiro toca sem atender. O segundo está fora de área. O terceiro dá ocupado constante, o som específico de número bloqueado.
O coletivo de jornalismo independente onde ela estava colaborando fica numa rua lateral da Bela Vista, segundo andar de um sobrado antigo que em março tinha a janela aberta e barulho de gente trabalhando. Chego às duas da tarde.
A porta está fechada com cadeado novo, aquele tipo que não veio com a porta, colocado do lado de fora depois. O interfone tem o cabo cortado rente à parede, limpo, sem fio exposto, cortado com ferramenta certa por alguém que tinha tempo e método. Fico parado na calçada olhando para o cadeado por um tempo que não consigo medir porque Paula esteve nesse prédio. Paula que viveu ditadura e sobreviveu porque aprendeu quando ficar quieta e quando falar, Paula que me passou as coordenadas de Mayara num box de temperos do Mercado Municipal com a leveza de quem marca almoço, Paula que disse a coisa certa na hora certa durante anos e que sabia, melhor do que qualquer pessoa que já encontrei, a diferença entre risco calculado e risco real. O cadeado é novo. O cabo do interfone foi cortado com ferramenta certa. Alguém fez isso com método e sem pressa, e isso é mais assustador do que qualquer coisa que eu poderia ter encontrado nessa porta.
O vizinho do térreo, uma banca de revistas, não levanta os olhos quando passo na frente. Passo duas vezes. Na terceira ele olha para o lado oposto ao meu. Esse gesto específico, de quem viu alguma coisa e decidiu que não viu, eu aprendi a reconhecer em sete anos de campo. Significa que houve movimento aqui. Significa que o movimento foi suficiente para assustar quem estava por perto.
Passo pela Paulista, pelo café em Pinheiros onde o jornalista da Folha me disse não em março, grade baixada agora, sem aviso na porta.
Ligo para Sofia de um dos chips pré-pagos que comprei em Manaus. O telefone toca três vezes antes de ela atender. A voz dela tem aquele tom de quem está no trabalho e recebe número desconhecido, cuidado reflexo de quem aprendeu que cautela é hábito antes de ser decisão.
— Sou eu.
Pausa de dois segundos. Ela reconhece a voz antes de processar o número.
— Tá bom — ela diz, e naquelas duas sílabas estão quatro coisas ao mesmo tempo: alívio, aviso de que está num lugar onde não pode falar, confirmação de que entende a situação, e um tipo de ternura que prima que cresceu junto carrega na voz sem saber.
— Vim visitar a cidade. Tá tudo igual aqui.
— Aqui também. Ou quase. Teve uma reorganização de equipes essa semana. Metade da minha divisão está em outras funções agora.
Reorganização. A palavra do plano, usada no corredor do Itamaraty com a mesma naturalidade com que foi escrita nos documentos de outubro de 2025.
— Tentei falar com aquela amiga nossa. Tá difícil de localizar.
Silêncio de três segundos. Sofia sabe quem é.
— Eu sei. Faz uns dias que também não consigo. — Uma pausa curta. — Você tá com o endereço certo?
— Fui lá pessoalmente.
Outro silêncio. Ela entende o que isso significa.
— Se cuida — ela diz, devagar, no tom de quem está dizendo uma coisa simples que contém outra completamente diferente. — Tá frio aqui em Brasília essa semana. Aquele frio que chega sem aviso.
— Aqui também. Obrigado, prima.
— Qualquer coisa, você sabe.
Ela desliga primeiro. Fico parado na calçada com o telefone na mão. Sofia também não consegue localizar Paula há dias. Reorganização de equipes no Itamaraty. Frio que chega sem aviso.
Na volta para o hotel, na Rua Mauá, o posto de controle da manhã sumiu mas há uma câmera nova no poste que não existia em março, cobrindo a entrada do hotel e os cinquenta metros de calçada em cada direção.
O poste não existe.
A rua está diferente de um jeito que leva alguns segundos para processar. Onde deveria estar o poste há uma pilha de entulho encostada na parede de um prédio que foi demolido, concreto partido expondo ferro enferrujado cor de sangue seco, e no chão a calçada tem rachaduras largas onde cresceu grama e musgo de tempo acumulado, anos, talvez mais. O hotel na esquina tem as janelas tapadas com compensado. A placa está lá mas o compensado está por baixo e por cima de cada janela e a porta da entrada tem uma corrente. A rua está quieta de um jeito que a Rua Mauá nunca está, sem o fluxo de pedestres, sem os sons do bar do lado, sem o cheiro de fritura que subia do boteco onde eu jantei. Há marcas de pneu na calçada que não existiam há uma hora e uma mancha escura no asfalto perto da sarjeta que pode ser óleo de motor ou pode ser outra coisa e eu prefiro não me aproximar para verificar.
Fico parado no meio da calçada por um tempo que não consigo estimar. Depois a mulher que passa com o cachorro passa a menos de um metro de mim e o cachorro late para o poste que está lá, câmera nova, hotel aberto, cheiro de fritura do boteco, o barulho normal da Rua Mauá às seis da tarde.
Entro no hotel. Sento na cama com a mochila no colo. As mãos estão estáveis. O resto não.
Janto no boteco, televisão no canto sem volume, congresso votando o Marco Regulatório de Parcerias Ambientais Estratégicas, 287 a 134, o apresentador sorrindo. No canto da tela: Real atinge menor cotação em 16 anos. Volto para o quarto. Deito. Não durmo.
O celular vibra às onze e quarenta. Sofia. Número diferente do que ela usou no início da tarde.
Atendo sem falar.
— Sou eu — ela diz. A voz está diferente de como estava às duas da tarde, mais baixa, mais direta. — Você tem uns minutos?
— Tenho.
— Recebi uma ligação às oito. Número de Genebra que eu não conhecia. A pessoa não se identificou. Disse que houve uma alteração na situação do seu pai. Que ele está sendo retido para fins de averiguação junto às autoridades suíças, a pedido de uma comissão de revisão de conduta de pessoal diplomático em atividade no exterior. Que a situação é temporária e que ele está bem.
— Você conseguiu falar com ele?
— Celular fora de área. O apartamento não atende. A secretária da embaixada disse que ele está em licença médica.
Silêncio de alguns segundos.
— Você vai voltar para Brasília? — ela pergunta.
— Não agora.
— O que você precisa que eu faça?
— Fica quieta. Não procura ele pelos canais oficiais. Se ligar de novo, atende e escuta.
— Tá bom.
— Sofia, fica atenta. Obrigado por tudo.
Ela desliga. O quarto fica quieto.
Licença médica é o que a secretária de embaixada diz quando não pode dizer outra coisa, e quarenta anos de serviço sem uma falta por doença é o tipo de detalhe que uma secretária de embaixada conhece.
Quem teria interesse em tirá-lo de circulação agora, neste momento específico: o próprio Itamaraty capturado, algum dos consórcios que aparecem nos documentos de Okafor, uma agência que monitorava as comunicações cifradas que ele me mandava, alguém que soube que eu saí de Nova York com o que saí e rastreou de volta até ele? Meu pai passou quarenta anos dentro dessas estruturas e sabe coisas que não estão em nenhum documento, o que pode ser o motivo ou pode ser só o pretexto, e eu não tenho como saber qual dos dois.
São Paulo produz o som de sempre lá fora, sirenes, buzina, o caminhão de coleta às duas da manhã. Sons de cidade que ainda funciona e ainda acredita que vai continuar funcionando. Levanto. Sento na cadeira junto à janela que dá para o poço de luz. Abro o caderno.
Escrevo durante uma hora: porto de Santos, acampamento em Roraima, mensagem de Renato e o que ela significa sobre a escala do processo, os quatro consultores embarcando para Boa Vista, o posto de controle na Marginal, a grade da agência federal, Paula sem resposta, o coletivo com o cadeado e o cabo cortado e o vizinho que olhou para o lado oposto, o café de Pinheiros fechado, a câmera nova no poste, a rua que por alguns segundos foi outra rua. Escrevo os nomes que coletei no território, as coordenadas, os depoimentos resumidos. Escrevo o que o jornalista da Folha disse em março e o que o mesmo jornal publicou hoje. A distância entre as duas coisas é a medida de quanto o chão se moveu em três semanas, e o chão continua se movendo, e Paula não atende nenhum telefone.
Paro. Olho para a janela, o poço de luz, a parede do prédio do lado com a tinta descascando em formas que parecem mapa de território que não existe em nenhum atlas.
Penso em Kopenawa: o que escrever fica.
Uma última frase aparece, sozinha na página. Não veio de mim. Ou veio de uma parte de mim que esteve no rio Mucajaí e ainda não voltou completamente.
O que não tem nome não pode ser confiscado.
Fico olhando para o que escrevi. São Paulo continua do lado de fora. A câmera no poste, se ainda está lá, cobre a entrada do hotel e os cinquenta metros de calçada em cada direção. Paula não atendeu nenhum dos três números.
Fecho o caderno. Amanhã começo a publicar.
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Xapono é a habitação coletiva tradicional dos Yanomami. Uma estrutura circular ou oval, construída com madeira, palha e folhas, onde toda a comunidade vive junta sob o mesmo teto inclinado que forma as paredes. O centro fica aberto para o céu. Cada família tem seu espaço ao longo da borda interna, com sua própria fogueira, mas sem divisórias. Tudo acontece em comum, refeições, conversas, rituais, sono.
“Deep state” é a ideia de que parte do poder real de um país pode permanecer nas mãos de estruturas permanentes do Estado — burocráticas, militares ou de inteligência, enquanto, no mundo atual, grandes corporações e sistemas tecnológicos passam a ocupar cada vez mais esse mesmo espaço de influência, independentemente de quem foi eleito.
Esta frase abre o Tao Te Ching de Laozi ou Lao Tsé (Tzu) e significa que o “Tao” (o Caminho ou a Verdade Absoluta) é indescritível e infinito, transcendendo qualquer rótulo ou definição humana. Quando nomeamos ou tentamos explicar algo, o limitamos; o Tao real é o fluxo inefável da natureza, a origem inominável do universo.








