A ilusão do autor
Ninguém escreve a própria vida do zero.
As circunstâncias nos criam a todos
Fico impressionado com a miopia de alguns humanos em relação à própria vida, seja ela bem ou mal sucedida nos critérios que as sociedades contemporâneas insistem em valorizar. Falo da arrogância de quem diz, para quem puder ouvir, que se fez sozinho. Que o sucesso é fruto exclusivo do próprio empenho e dedicação. O raciocínio inverso também circula com a mesma força: todo o azar acumulado por quem não teve a sorte de nascer em berço esplêndido recai sobre o mundo ou sobre outrem. As circunstâncias criam todos, uns com mais vantagens, outros com menos, e raramente alguém para para olhar isso de frente.
Outro dia vi um vídeo sobre meritocracia que desmontava a noção de que todos têm as mesmas 24 horas e que por isso alguns chegam e outros não. Que bobagem acreditar nisso. Era uma corrida de obstáculos onde parte dos participantes já largava metros à frente, com menos barreiras para pular. Essa prepotência de certos bem-sucedidos e basta assistir alguns vídeos de tech bros do Silicon Valley para entender do que falo, beira o ridículo. Pense no Elon Musk, que gosta de se apresentar como o gênio que construiu tudo do zero. O que raramente aparece na narrativa é que ele cresceu numa família rica na África do Sul, que o pai tinha uma mina de esmeraldas e que chegou aos Estados Unidos com dinheiro suficiente para estudar e arriscar. O talento existe, sem dúvida. O trampolim também existia e era de ouro.
Ninguém faz nada sozinho. Nascemos e precisamos de cuidado por anos, muito mais do que outras espécies. Uma criança humana leva quase duas décadas para ter alguma autonomia real e, mesmo assim, depende de uma rede invisível que a sustenta: escola pública ou privada, vizinhança segura ou não, acesso a saúde, alimentação, afeto. Muitos chegam ao mundo já carregando todos os problemas possíveis, enquanto outros escapam da maioria deles sem nem perceber. A loteria acontece antes do nascimento, quando surgimos em determinado país, família, ou código postal.
O vídeo que comentei acima, circula há alguns anos e que se você mesmo testar, resume tudo isso de forma brutal. Você coloca várias pessoas numa linha de largada e vai fazendo perguntas. Seus pais foram à faculdade? Dê dois passos à frente. Você nunca precisou se preocupar com a próxima refeição quando criança? Dois passos à frente. Você cresceu com pai e mãe presentes? Dois passos à frente. Você teve acesso a aulas particulares, reforço escolar, internet em casa? Dois passos à frente. Quando a corrida começa, alguns já estão quase na linha de chegada, e ainda assim os que ficaram para trás ouvem que o problema é falta de esforço.
Isso tem nome: privilégio. Privilégio não é xingamento, é só a descrição honesta de uma vantagem que você não pediu e provavelmente não escolheu. Nascer no Brasil já é um privilégio em relação a nascer no Iêmen ou na República Centro-Africana, entre Camarões e Sudão do Sul, onde a expectativa de vida mal ultrapassa os 55 anos e guerra, seca e fome não são manchetes distantes, são o cotidiano. Nascer em São Paulo já é um privilégio em relação a nascer em certas regiões do Maranhão, onde a mortalidade infantil ainda carrega números que deveriam envergonhar qualquer governo. Você que leu até aqui já está entre os privilegiados. Está lendo este texto na tela de um celular, um tablet ou um computador, com tempo disponível para refletir sobre filosofia e meritocracia, o que já te coloca numa fatia pequena da humanidade. Segundo dados do Banco Mundial, mais de 700 milhões de pessoas ainda vivem com menos de dois dólares e meio por dia, em extrema pobreza e, aproximadamente 3,5 bilhões abaixo da linha de renda média-alta (US$ 6,85/dia). Não estamos em Gaza, na Ucrânia, nem num país esquecido onde crianças morrem de doenças que eliminamos há décadas com uma simples vacina.
Quando essa percepção se instala de verdade, alguma coisa muda. Surge uma compaixão que vai além da empatia, um entendimento visceral de que a vida que você tem é radicalmente diferente e melhor em aspectos que você raramente enumera, (ou até percebe) do que a de uma parcela enorme da humanidade.
Compaixão aqui tem peso: é a capacidade de sentir com o outro sem precisar ter vivido o mesmo, o reconhecimento de que se você tivesse nascido no lugar errado, com os pais errados, no país errado, você seria completamente diferente. Com isso vem o agradecimento, que é outra coisa completamente diferente de culpa ou de pena.
Agradecer é um ato de lucidez, de ver com clareza o que você recebeu e que não estava garantido. Não é aquela “gratidão performática” de post motivacional.
É o silêncio de quem olha para a própria vida e percebe a extensão do que lhe foi dado antes mesmo de qualquer esforço pessoal.
Mas há uma camada mais funda que essa e ela aparece quando você leva a pergunta realmente a sério: se as circunstâncias nos criam a todos, se o idioma em que você pensa é de fora, se os valores que carrega foram depositados em você antes de ter voz sobre o assunto, se a forma como processa risco, ambição e afeto foi moldada por forças que antecederam qualquer decisão consciente sua, então onde começa exatamente o “eu” que reivindica o mérito?
Quando você senta com essa pergunta de verdade, sem pressa para responder, o que você encontra é continuidade, não uma fronteira clara entre você e aquilo que te formou. O que você chama de “sua” vida carrega o que o mundo foi antes de você existir, as escolhas dos seus pais, os acasos da história, a geografia, o corpo que você recebeu sem pedir. A separação entre você e as circunstâncias é real o suficiente para funcionar no dia a dia e sutil o suficiente para desaparecer quando examinada de perto.
Agradecer, visto por esse ângulo, ganha outra dimensão. Você percebe que o que chama de “sua” vida nunca foi só sua, que você é, em alguma medida que o ego sempre resiste a admitir, uma expressão do todo que te compôs. A compaixão pelo outro deixa de ser virtude ou esforço moral, vira reconhecimento direto: o que separa você de quem nasceu com menos é mais fino do que a narrativa do mérito individual consegue sustentar. E não vai conseguir nunca.
Você e as circunstâncias que te formaram nunca estiveram separados o suficiente para que o crédito fosse só seu.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.





