A sala vazia
Deixando de acreditar no personagem
Se realmente prestarmos atenção, uma atenção aberta e abrangente a tudo que acontece à nossa volta, vamos notar momentos completamente diferentes entre si, no que diz respeito a nossas emoções e reações diante delas. Tudo pode começar disparado por um pensamento aleatório, daqueles que temos milhares de vezes num só dia.
Tenho escrito bastante sobre isso aqui: pensamentos não são concretos, não são reflexos de quem somos, não são uma voz que nos comanda a escolhas e atitudes.
Pensamentos surgem, passam, se dissolvem. Preste atenção na próxima vez: um pensamento aparece, fica ali alguns segundos e vai embora sozinho, sem pedir licença, simplesmente some sem deixar vestígios. Estes, são nossa responsabilidade.
O problema nunca é o pensamento. Nossas reações e a sustentação de determinados estados de espírito, essas demoram mais, principalmente porque ficamos ruminando o que gerou aquela emoção. Uma memória, uma situação incômoda que acabou de acontecer, uma conversa que ficou reverberando, tudo se resume a histórias que contamos a nós mesmos o tempo todo. Funciona como um rádio ligado numa estação que só toca a mesma música: a narrativa do “eu”. E ficamos ali, hipnotizados pela repetição, esquecendo que não há nenhum CEO na nossa cabeça 1, nenhum responsável pelos pensamentos, escolhas e emoções. Ninguém decidiu pensar aquilo. Ninguém escolheu sentir o que sentiu. Esse é um dos maiores autoenganos aos quais somos submetidos desde que surgimos aqui, nessa existência. Vivemos como se houvesse um piloto dentro do corpo, alguém no comando, quando tudo o que existe é o avião voando sozinho.
Quando percebemos que esse “eu” é uma miragem, uma ficção do mesmo tipo do Papai Noel, em quem deixamos de acreditar em algum momento da infância, o significado de todo o sofrimento começa a se desfazer. Pense na última vez que você ficou horas remoendo uma ofensa, uma injustiça, uma frustração.
Quem estava sofrendo? Se você olhar com cuidado, vai encontrar uma história sendo contada para ninguém, numa sala vazia. O que parecia tão sólido, tão pessoal, tão inevitável, se revela um conjunto de histórias e memórias, uma narrativa criada a partir de nada, por ninguém, vivida apenas numa falsa sensação de independência e agência.
Uma criança descobre que o Papai Noel é invenção e o mundo não desmorona, a vida continua, os presentes continuam aparecendo, só muda quem a criança imagina que os colocou ali. Com o “eu” acontece a mesma coisa: a vida continua fluindo, as emoções continuam surgindo, os pensamentos continuam passando. Só desaparece a ficção de que alguém dentro de nós estava no controle de tudo isso.
Deixamos de acreditar no Papai Noel. Está na hora de olhar para esse “eu” isolado do mundo com a mesma honestidade.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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A ideia de que um “CEO” ou um líder singular e racional reside dentro de nossas cabeças é uma metáfora, não uma verdade biológica ou psicológica literal.
Esse conceito, frequentemente chamado de “falácia do homúnculo” na filosofia, implica que existe uma pequena pessoa dentro do cérebro controlando nossas ações, é uma história, não um gerente: A “voz dentro da sua cabeça” é uma ferramenta narrativa que nos ajuda a interpretar o mundo, mas pode ser enganosa se não for examinada, levando a pensamentos defensivos, tendenciosos ou emocionais.




