Contexto e Conteúdo
Tudo o que vivemos é conteúdo e é dinâmico, já o contexto, nunca mudou.
Tudo o que experimentamos é conteúdo. Pensamentos passam. Emoções passam. Medos, memórias, o nome que carregamos, o país onde nascemos, a história que contamos sobre nós mesmos, o que sentimos hoje de manhã ao acordar. Tudo isso aparece, permanece um tempo, segue adiante. Enquanto aparece, alguma coisa percebe esse ‘aparecimento’. Por enquanto vamos chamar isso de fundo silencioso, sabendo que essa imagem vai precisar cair mais tarde.
Nascemos dentro de um filtro. O cérebro, esse instrumento extraordinário lapidado por milhões de anos de pressão evolutiva, nos entrega o mundo decodificado, organizado, coerente o suficiente para que possamos sobreviver nele. Faz isso tão bem que passamos a vida inteira confundindo a tradução com o original. Os olhos não veem nada; captam frequência e vibração é o cérebro que converte isso em objetos, distâncias, rostos, ameaças. O que aparece diante de nós como realidade concreta é uma construção sofisticada e profundamente parcial.
Bernardo Kastrup usa a imagem do painel de controle de um avião para apontar isso. O painel não é o céu. Dá informação suficiente para voar, mas é uma representação codificada, não a coisa em si. A imagem funciona como porta de entrada e, como toda porta de entrada, precisa ser ultrapassada depois. Porque a tentação seguinte é supor que existe um céu objetivo lá fora, sólido, independente, esperando ser melhor traduzido por um painel mais refinado. Não há. O que chamamos de céu também aparece dentro da experiência. O painel e o céu são expressões do mesmo aparecer. Voltaremos a isso.
O problema nasce quando tomamos o painel pelo céu. Instala-se a ilusão da separação, a sensação de que existe um eu compacto, localizado, acomodado entre os olhos e as orelhas, observando um mundo que estaria do lado de fora. Essa mini versão de mim mesmo que gerencia, avalia e reage, essa construção que chamamos de ego, opera com eficiência impressionante dentro da lógica para a qual foi feita: sobreviver. O outro vira obstáculo ou aliado conforme a conveniência. O futuro vira ameaça quando aperta e promessa quando acena. O presente vira ponto de passagem entre o que foi e o que pode vir a ser, e tudo gira em torno da manutenção do personagem.
Vive-se assim a partir de uma versão muito reduzida do que se é, convicto de que essa versão é a totalidade. A mente organizada em torno da sobrevivência reproduz os mesmos padrões indefinidamente, com uma consistência que seria admirável se não fosse tão cara. Relacionamentos que repetem o mesmo desfecho com elencos diferentes. Conquistas que entregam alívio em vez de satisfação. Um cansaço de fundo que nenhuma realização dissolve, porque o personagem precisa continuar existindo no dia seguinte e isso custa energia.
Aquilo que objetos, pensamentos, emoções e sensações têm em comum é que podem ser observados. O que observa um pensamento não é outro pensamento. O que percebe uma emoção sem ser arrastado por ela não é uma emoção mais sofisticada. Um olho não olha a si mesmo.
Aquilo que percebe e acolhe tudo o que aparece, esse fundo silencioso que nunca se ausentou, é a Consciência. Uma evidência direta, acessível, que a maior parte de nós passa a vida inteira ignorando porque estava ocupada demais administrando o personagem.
A primeira experiência de reconhecer esse fundo costuma trazer alívio. Há um relaxamento, um leve recuo, como quem dá um passo para trás dentro da própria cabeça. Por um momento o personagem continua ali, agitado como sempre mas também existe algo que olha para o personagem sem ser ele. Essa descoberta é genuína e vale o caminho até aqui. É também provisória e fugaz.
Se você olha com cuidado para esse fundo, para essa testemunha que percebe tudo, percebe que ela mesma é uma posição, apenas um lugar de onde se observa. E todo lugar é, ainda, um ponto dentro de algo maior. Quando a investigação se aprofunda, a testemunha começa a ficar fina, transparente, até que se nota que não há observador separado do observado. Só existe o aparecer. O pensamento aparecendo, a respiração aparecendo, o som da rua aparecendo num espaço só, sem dois lados, sem dentro e sem fora.
Nisargadatta Maharaj dizia que o sentido de ser uma testemunha é o último disfarce do ‘eu’. O mais sutil, o mais difícil de soltar, porque parece espiritual. O praticante encontra a testemunha e descansa ali, achando que chegou. Mas a testemunha ainda implica algo testemunhado e portanto separação. O passo seguinte é notar que aquilo que parecia ser o fundo nunca esteve atrás de nada. Era o próprio aparecer se conhecendo. A onda não tem um oceano por trás. Ela é o oceano em movimento e o oceano é o que a onda faz quando se mexe.
Aqui a imagem do painel se completa. Kastrup não está dizendo que existe um céu real lá fora mal traduzido pelo painel. Está dizendo que tanto o painel quanto o céu são modulações de uma mesma Consciência universal, que aparece como ambos. O instrumento é feito da mesma matéria que o instrumentado. A separação entre observador e observado, entre dentro e fora, entre mim e mundo, é também conteúdo. Aparece, permanece, segue.
Vale ler o livro dele lançado este ano no Brasil pela Editora Clear Mud.
Quando essa percepção se assenta e ela tende a vir em pulsos, não em revelações definitivas, longe disso, apenas flashes ou vislumbres de alguma coisa diferente no funcionamento cotidiano, algo que muda sem que se possa explicar exatamente o quê.
O personagem não desaparece. Continua atendendo telefone, pagando conta, dirigindo. Continua útil. O que muda é que ele para de ser confundido com você.
Algumas coisas ficam mais leves quase por descuido. A urgência de defender posições diminui porque a posição não está mais costurada à nossa sobrevivência. A necessidade de que o outro confirme o personagem perde força. Episódios que antes ocupavam a cabeça por dias passam mais rápido, porque não há mais a quem proteger.
Surge um humor diferente em relação a si mesmo, a leveza de quem já não precisa se levar tão a sério.
Eis que surge algo mais difícil de se dar nome, até mesmo de compreender de imediato. Uma presença que não precisa ser produzida, um estado em que a ação acontece sem que se tenha que executá-la conscientemente. Os atletas em flow tentam descrever isso e sempre parecem estar exagerando até você também acessar o seu canal do flow. Os contemplativos vêm descrevendo isso há milênios com vocabulários distintos e chegam ao mesmo lugar. A neurociência só recentemente começou a olhar para o mesmo fenômeno e ficou surpresa com o que encontrou. O território sempre esteve aqui.
Nada disso se aprende. A Consciência não precisa ser produzida, só reconhecida. O que se chama de despertar é mais próximo de uma lembrança do que de uma conquista, daquilo que nunca se esqueceu de verdade, só foi encoberto pelas inúmeras camadas e o barulho contínuo da administração do personagem.
De manhã, antes do primeiro pensamento sobre o dia, tem um momento em que estamos acordados e ainda não somos ninguém em particular. Dura pouco. O personagem chega logo, traz a agenda do dia, traz o nome, traz o que precisa ser feito. Mas aquele instante existiu e existe todos os dias.
Tudo o que foi dito até aqui também é conteúdo. Esse ensaio, a leitura dele, a sensação de ter entendido alguma coisa, a sensação de não ter entendido, o leitor que avalia, o autor que escreveu. Tudo aparece no mesmo aparecer. Inclusive a frase que afirma isso. Inclusive a próxima.
“Sim, bem, você sabe, isso é apenas, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski









