Aqui, inteiro
A experiência não pede um personagem nem um protagonista
Quando olho para quem eu era há três ou quatro anos, tenho a sensação de que alguma coisa não fecha. Não sinto nostalgia nem qualquer tipo de julgamento moral envolvido, é apenas uma sensação clara de desencaixe. Durante muito tempo acreditei que mudanças profundas não aconteciam de verdade nas pessoas, que no fundo sempre seriam daquele jeito, que aquilo que chamamos de transformação era só um rearranjo superficial do mesmo personagem que segue atravessando o tempo. O sujeito calmo que explode, o grosseiro que, em certos dias, parece gentil. Movimentos diferentes, mas com o centro intacto.
Essa crença não se sustenta mais.
Passei grande parte da vida mantendo uma imagem de mim mesmo, reagindo a ataques que só existiam porque eu sentia que tinha que me proteger. Um personagem em estado permanente de vigilância, respondendo antes mesmo de ser chamado, num teatro que insistia em se levar a sério. Em algum ponto, isso se tornou óbvio demais para continuar sendo ignorado. O palco estava ali, a luz, o silêncio entre as falas, o olhar que assiste e até a plateia. Essa percepção não chegou como uma das tantas elaborações filosóficas que eu teimava em produzir, nem como uma conclusão intelectual. Foi simples e constrangedora de tão óbvia. O personagem continuou aparecendo, com seus hábitos e reações, porém sem centro. Um vazio pleno de formas, todas acontecendo, nenhuma podendo ser chamada de “eu”. Sobre essa passagem, comento aqui:
O sofrimento costuma nascer sempre no mesmo lugar. A atenção fragmentada, ora ruminando o passado (ou remoendo lembranças doloridas) ora imaginando um futuro ideal. Projeções disfarçadas de preocupação, memórias disfarçadas de identidade - nossas memórias são imprecisas e funcionam à nossa conveniência. Basta observar com honestidade como o corpo reage quando a mente se projeta alguns minutos à frente ou retorna a cenas já encerradas. A contração aparece quase automaticamente. Você está dirigindo, pensando numa conversa difícil que vai ter daqui a três horas, e percebe que os ombros já estão tensos, a mandíbula apertada. A conversa ainda não existe, o corpo já sofre. Se houver disposição para uma experiência mínima do agora, sem correção e sem expectativa, muito disso começa a se desfazer por conta própria.
Experimente agora algo simples.
Pare por alguns segundos. Sinta o peso do corpo apoiado onde ele está. Note a temperatura do ambiente, a luz incidindo sobre os objetos, os sons que não pedem interpretação. Pensamentos surgem, porque sempre surgem. Seguir ou não seguir fica disponível como opção, sem esforço. Observe com clareza que, neste exato momento, enquanto estas palavras são lidas, não há nenhum problema real acontecendo. Nenhuma urgência concreta. Aquilo que parece exigir resposta existe apenas como pensamento, e isso pode ser conferido agora.
Esse vislumbre costuma ser breve e discreto. Não provoca fogos de artifício nem garante estabilidade emocional. Ainda assim, uma vez percebido, não pode mais ser completamente ignorado. Ele revela algo decisivo, que não pode mais ser “desvisto”. A ansiedade pelo que ainda não chegou e o peso do que já passou não possuem substância própria. São imagens sustentadas pela atenção e por uma mente habituada a se fixar em pensamentos que continuam surgindo, inevitavelmente.
O que perde força é a confusão entre pensamento e realidade.
Se eu fosse meus pensamentos, eles seriam coerentes, úteis, bem-intencionados e sempre positivos, claro. Mas claramente não são e isso aponta para uma realização óbvia: medos, esperanças, julgamentos, culpas e expectativas surgem para um alguém que precisa ser mantido em funcionamento. Um centro imaginário que organiza a experiência ao redor de si e que começa a perder densidade quando a ilusão da separação é percebida como uma construção mental. É possível notar isso no cotidiano de qualquer um de nós: uma conversa em que alguém te critica duramente e você percebe, quase com surpresa, que a necessidade de defender uma posição simplesmente não aparece. Ou num momento em que uma crítica simplesmente atravessa o corpo sem deixar rastro, como atravessaria uma nuvem.
A miragem desse “alguém” vivendo tudo isso começa a se desfazer. Nada muda na mecânica da vida nem no funcionamento do mundo. Contas continuam chegando, compromissos e conflitos permanecem, o corpo segue com suas necessidades. O que cai é a narrativa centralizada que exigia constante manutenção. Para mim, a mudança mais visível foi continuar vivenciando as agruras que são parte da vida, sem leva-las tão a sério, deixando que simplesmente sejam e passem.
Um conceito que muito me ajudou foi o do Wu Wei, do Tao. 1
Imagine caminhar até um oásis e encontrar apenas areia. Era uma miragem. Nada foi retirado dali. O engano cessa. O que sobra, essa fantasia repetida à exaustão pela indústria da autoajuda, não é um novo sentido para a vida, nem a melhor versão de você mesmo. O que fica é um reconhecimento silencioso daquilo que sempre esteve aqui, antes de qualquer história pessoal, antes da ideia de progresso ou de falha.
Consciência simples, aberta, sem esforço, onde tudo aparece, inclusive a noção de que havia alguém que precisava mudar.
NOVIDADE
A versão digital (Kindle) de Antes do Pensar já está em pré venda na Amazon e o livro em papel segue à venda na Drummond Livraria em São Paulo ou pela Amazon.
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Wu Wei (Taoísmo) — termo central do Taoísmo que significa literalmente “não agir”, não como passividade, mas como ação sem esforço deliberado. Refere-se a agir em alinhamento com o Tao, permitindo que a ação emerja da realidade tal como ela é, sem imposição do ego, controle excessivo ou resistência. Parte do reconhecimento de que as coisas são como são; resistir ao curso dos acontecimentos é inútil e apenas prolonga o sofrimento. No Wu Wei, a eficácia não nasce da força, mas da sintonia com o fluxo natural, que inclui a impermanência de tudo o que surge — tanto do que é percebido como bom quanto do que é percebido como ruim.
A ligação com a não dualidade é direta, mas costuma passar despercebida porque usamos Wu Wei como técnica, quando ele aponta para uma mudança de perspectiva.
Na não dualidade, a premissa central é simples: não há um “eu” separado, de um lado, enfrentando um mundo externo do outro. Há experiência acontecendo. A sensação de separação surge quando o pensamento cria um agente que tenta controlar, resistir ou melhorar o fluxo da vida a partir de fora.
Wu Wei é a expressão prática dessa compreensão. Quando a ideia de um “eu-autor” enfraquece, a ação deixa de ser uma imposição sobre a realidade e passa a emergir do próprio campo da experiência. Não é alguém agindo sobre o mundo, é a situação se reorganizando através deste corpo, desta mente, destas circunstâncias.
Por isso, resistir “ao que é” se torna incoerente: quem exatamente estaria resistindo a quê? A resistência nasce da crença na separação. Quando essa crença relaxa, agir e acontecer deixam de ser polos opostos. O que chamamos de escolha, resposta ou decisão surge do mesmo movimento que produz o evento. Wu Wei é ação sem o ruído do ego, coerente com a percepção de que a vida não está acontecendo contra você, mas como você. Não é inação, não é acomodação.






Texto forte, verdadeiro e profundo. Ressoou demais comigo, me vi em vários trechos. Minhas ferramentas são outras, mas a experiência é a mesma! Grato pela inspiração!
Recebi hoje a versão digital de "Antes do Pensar". Só li até a introdução e interrompi a leitura para vir aqui comentar (não encontrei um post específico sobre o livro, bem, eu realmente não procurei, rsrs). Estou em uma estação de trens (comboios, como chamam aqui em Portugal) e em dois minutos eu havia lido da capa ao fim da introdução. Entro fácil no flow (ou seria "em") com a sua escrita. Não sei como é para as outras pessoas, mas eu percebo que quando estou nesse estado, eu produzo muito em um curto intervalo de tempo, e sempre penso que devo ter me confundido com a hora. É como se intervalos, vazios e respirações não ocorressem, uma linha única ou uma espiral que não para até atingir o objetivo ou sofrer interferência externa, como sua mãe dizendo que a comida ia esfriar. Depois comentarei mais, agora, estou treinando o nome impronunciável, Mirrai Tchikisentmirrai (sério, pesquisei no YouTube). Até!