Atenção e energia
Uma leitura pragmática da experiência humana
A energia acompanha a atenção
Entrei em contato com essa máxima muitos anos atrás, ao ler um livro escrito por um kahuna (xamã) havaiano, Serge Kahili King, alguém que apareceu num momento em que eu ainda não sabia exatamente o que estava sendo questionado em mim, apenas sentia que havia algo excessivamente estreito na forma como a vida costumava ser apresentada como um roteiro a ser seguido. Aqueles livros não funcionaram como guias nem como respostas, mas como pequenas fissuras numa estrutura que até então parecia sólida demais, abrindo espaço para a percepção de que havia muito mais em jogo quando começamos a olhar com atenção para aquilo que sempre tomamos como dado, muitas vezes apenas porque foi repetido, ensinado ou imposto como o jeito certo de viver.
O tempo passou, bastante tempo e só muitos anos depois, alguma coisa começou a se reorganizar de maneira silenciosa, como uma lembrança que vai se aproximando devagar, sem alarde, até que se torna impossível ignorar a familiaridade do que está sendo visto.
Não foi um aprender, foi um lembrar, no sentido mais simples e direto da palavra.
Ainda garoto, por volta dos oito ou nove anos, havia um pensamento recorrente que surgia ao acordar, um movimento da atenção que não exigia esforço nem intenção, no qual eu ficava imaginando como seria a vida sem pessoas, sem objetos, sem lugares, sem circunstâncias, até que tudo se dissolvia numa espécie de nada amplo, um grande vazio branco, sem forma, sem limites, sem qualquer referência. Era angustiante. Eu olhava então para a cama ao lado, via meu irmão ainda dormindo, e sentia um alívio imediato, quase físico, ao perceber que havia alguém ali, que existia uma realidade sustentando aquele instante da manhã.
O que eu não tinha como saber naquela época e que levaria muitos anos para se tornar claro, era que aquilo que aparecia como um vazio branco não era uma construção imaginativa nem um exercício mental, mas uma experiência direta desse espaço onde tudo acontece, essa vastidão sem centro e sem contornos que acolhe cada coisa que surge sem exigir comentário, reação ou julgamento. Não estava fora nem separado, era o próprio lugar de onde a percepção surgia, presente enquanto pessoas, pensamentos e situações apareciam e desapareciam.
As palavras sempre chegam depois e ainda assim sigo tentando, consciente de que elas apenas acompanham mas nunca capturam.
A experiência não se organiza a partir de um ponto fixo observando o mundo à distância, embora desde muito cedo, todos aprendemos a nos mover como se houvesse um “alguém” aqui e algo lá fora. A linguagem participa desse arranjo ao nomear e estruturar, criando um hábito perceptivo no qual a atenção se estreita e passa a repousar quase exclusivamente nas formas e nas histórias que surgem com elas. Esse modo de ver se torna funcional, cotidiano e a vida continua acontecendo dentro desse enquadramento.
O espaço onde tudo isso aparece permanece disponível, silencioso, sustentando cada movimento sem interferência. Diferentes tradições tocaram esse reconhecimento ao observar a experiência humana com cuidado e atenção, registrando aquilo que já estava presente.
O Advaita1 descreve isso ao afirmar que aquilo que percebe participa do mesmo campo do que é percebido, uma constatação prática quando a atenção não está excessivamente tensionada. No Zen 2, a ideia de que o caminho é a mente comum aponta para a clareza da experiência tal como ela acontece. No Tao 3, o aviso sobre os limites da nomeação funciona como um lembrete pragmático de que a realidade precede qualquer formulação. Em falas atribuídas a Jesus de Nazaré 4 ,quando lidas fora do enquadramento religioso, essa mesma percepção aparece ao dizer que o reino dos céus está entre nós, ao afirmar que ele e o Pai são um, ao dizer que o Pai está nele e ele no Pai e ao falar a partir desse “Eu Sou” anterior à história pessoal, descrevendo uma condição humana acessível.
As tradições funcionam como registros históricos desse reconhecimento e apontam para algo que pode ser constatado sempre que a atenção não está capturada por interpretações, expectativas ou narrativas pessoais.
Nesse mundo cada vez mais saturado de estímulos, a atenção é constantemente puxada e a energia acompanha esse movimento. O que é simples e imediato deixa de ser notado porque a atenção raramente repousa. Ainda assim, a experiência segue acontecendo, sustentando as formas que surgem, se reorganizam e se desfazem.
E a atenção pode simplesmente permanecer no que acontece, enquanto a experiência segue se reorganizando sozinha, sem esforço e sem a sensação de que alguma coisa precisa acontecer.
NOVIDADE
A versão digital (Kindle) de Antes do Pensar já está em pré venda na Amazon e o livro em papel segue à venda na Drummond Livraria em São Paulo ou pela Amazon.
Advaita Vedānta
Tat Tvam Asi — “Isso que percebe é o que você é.”
Chāndogya Upaniṣad, VI.8.7
Zen (Chan / Zen Budismo)
“O caminho é a mente comum.”
Resposta atribuída ao mestre Joshu (Zhaozhou Congshen)
Taoísmo
“O Tao que pode ser nomeado não é o Tao eterno.”
Tao Te Ching, verso 1 — Laozi
Cristianismo (Evangelhos)
“O reino dos céus está entre vós.” — Lucas 17:21
“Eu e o Pai somos um.” — João 10:30
“O Pai está em mim e eu estou no Pai.” — João 10:38
“Antes que Abraão existisse, Eu Sou.” — João 8:58







Please find some references which are very much about this topic:
http://www.consciousnessitself.org
http://www.integralworld.net/reynolds16.html Reality as Indivisible Conscious Light
http://cms-revelation-magazine.adidam.org/books/ancient-teachings The Ancient (non-dual) Reality Teachings
http://www.dabase.org/gnosticon.html The Ancient Reality Teachings are included in this book