Debaixo das Árvores de Mariângela
Ela cuidou do terreno. O terreno cuidou de mim.
O bosque onde vivo é praticamente uma extensão de mim mesmo. Nem sempre foi assim.
Quando aqui chegamos, estava tomado pelo mato, com árvores e troncos já mostrando sinais de envelhecimento e cobertos por outras plantas que vão se esparramando e tomando conta do terreno. Não havia um olhar para a beleza dele. O bosque, apenas estava ali.
Foi a intenção de mexer, limpar, cuidar dele, que moveu as mãos e o corpo de Mariângela, minha mulher, que aos poucos foi se apaixonando pelo lugar. Ela já havia tido uma experiência anterior, numa outra casa, com terreno menor, mas ainda assim, a mágica se deu. Uma horta com diversos canteiros, um limoeiro, um mamoeiro, mandioca e até mesmo uma árvore de nêsperas. Mas ali, ficamos pouco tempo. E tempo para essas coisas, é o principal personagem e agente de mudança. Os atuais moradores preferiram criar galinhas e cabras no lugar…
Já se passaram 6 anos ou quase isso. Aqui, novas árvores cresceram, os canteiros se firmaram e o mato deu lugar a vários ambientes, onde escolho trabalhar, contemplar, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ela criou esses espaços: um para receber os amigos, outro que virou meu “escritório”, porque passo a maior parte do meu tempo aqui, um canto para meditar e ainda um banco onde a gente só senta, absorvendo e observando o real aspecto da nossa identidade, nossa real natureza de não separação.
Hoje, é o lugar onde eu passo mais tempo, boa parte dele dedicado ao meu trabalho, que demanda estar disponível para meus clientes, de forma remota, via plataformas de vídeo. Aliás, é nesse lugar também que produzo os conteúdos que vão para o ar na forma de lives, webinars ou podcasts, vídeos que trazem mensagens curtas ou não tanto, buscando provocar e apontar para possíveis vislumbres dessa real natureza que comentei acima. Algumas reuniões acontecem debaixo da minha “capela sistina” particular, árvores de mais de 40 anos, algumas mais de 50. Escrevo essas linhas deste texto, embaixo delas e daqui a pouco, uma reunião no zoom para tratar de uma palestra que farei em breve.
Tudo isso me trouxe uma sensação infinita de agradecimento por estar aqui neste lugar, depois de mais de 30 anos vivendo na metrópole caótica, dentro de um pequeno apartamento, tentando me deslocar numa cidade que não anda, com sorte para uma reunião presencial por dia, no máximo duas, o modelo comum daquela época pré-pandemia.
A presença que encontro aqui não me dá respostas. Só me deixa sentado, debaixo de árvores que estavam aqui muito antes de mim, e vão permanecer depois.1
Você também tem uma reunião te esperando daqui a pouco, num espaço diferente do meu. O lugar muda; a presença, quando existe, é a mesma nos dois.
Você já trabalhou muito em si mesmo. Conhece os padrões, sabe identificar o que opera em você. E continua repetindo.
O trabalho que faço, entra antes que o padrão opere. Uma pessoa por vez, cinco semanas.
Atravesse a fronteira interior:
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta.
Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Escrevo para lembrar disso.
O pretexto muda a cada texto, hoje um caso do cotidiano, amanhã uma ideia da física, mas o movimento por baixo é sempre o mesmo.
Escrevo o primeiro rascunho de tudo o que publico numa máquina de escrever, longe de telas, no calor do instante em que a ideia ainda não existe. A primeira revisão acontece no Google Docs, após a digitalização via scanner. Depois entra a inteligência artificial, editora exigente, revisando a ortografia e apontando a frase que falha e o vocabulário que engorda o que deveria ser simples. Os fatos citados passam pela mesma revisão, e cada fonte é conferida direto na origem.
O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
Esse instante, nenhuma ferramenta pensa por mim.
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Isso se nenhum humano tiver a grotesca ideia de derruba-las para fazer uma piscina ou uma quadra de beach tennis.






