Dormir é uma coisa estranha
A memória reconstrói o que a noite desfez
Todas as noites, sem exceção, apago a luz, deito e em poucos minutos deixo de existir. Não sobra nada daquele ‘eu’ que organizou o dia, antecipou o seguinte, carregou a sensação de estar no comando. O corpo continua vivo, funcionando por conta própria, mas a parte de mim que diz ‘eu’, para de estar presente. Isso se repete todas as noites, em escala global, com cada pessoa que dorme e ninguém acha estranho. A pessoa que assinou um contrato hoje à tarde some por completo algumas horas depois, sem cláusula de garantia sobre quem volta para honrá-lo.
Precisar entrar em suspensão completa de consciência por aproximadamente oito horas a cada vinte e quatro, sob risco de adoecer caso resista, parece um roteiro de ficção científica quando escrito sem a palavra sono. E o padrão não é exclusividade humana, essa condição atravessa praticamente toda forma de vida que conhecemos, de mamíferos a insetos, cada um entregando o controle à sua maneira, por um tempo que parece ter sido negociado com alguma lei mais antiga do que qualquer escolha individual. A gente entra nessa “câmara” todas as noites sem perguntar o que acontece lá dentro.
A biologia já respondeu com razoável competência por que precisamos dormir: o corpo usa essa pausa para se restaurar e regular processos que o estado de vigília não permite acessar. O que me intriga vem depois dessa resposta. Se esse eu que toma decisões, que sente que está no comando, desaparece todas as noites sem deixar vestígio de continuidade, fico pensando no quanto ele é sólido durante o tempo em que estou desperto. Esse eu que planeja a próxima década e defende opiniões com convicção definitiva não sobrevive nem oito horas sem supervisão. Ele se dissolve com a mesma facilidade com que aparece. Chamo de identidade algo que nem dura uma noite inteira sem interrupção e ainda assim trato essa identidade como o centro estável de tudo que vivo.
Durante o sono profundo não há ninguém ali percebendo o quarto ou lembrando do dia anterior. O apagão é genuíno, sem nenhum ponto de vista guardando o lugar. Nenhum estado emocional sobrevive a essa ausência, porque emoção pressupõe alguém presente para sentir, e aqui não há ninguém. É o intervalo mais radical que conheço, um apagão sem promessa de que um outro lado exista, fica só a ausência cumprindo seu horário. Ainda assim, de manhã, abro os olhos e me reconheço inteiro. Sinto que sou o mesmo que dormiu.
Essa sensação de continuidade não vem de uma presença que atravessou a noite acordada em algum porão da mente. Vem da memória, que reconstrói a narrativa de onde ela foi solta, sem deixar marca do corte.
Os sonhos complicam essa história, porque ali parece haver alguém. As cenas se sucedem com uma urgência emocional que dentro do sonho parece durar horas. Esse alguém que sonha, aceita absurdos sem questionar e esquece em segundos o que parecia inegociável um instante antes. A Consciência segue produzindo experiência mesmo sem o personagem habitual presente para organizá-la e manter o senso crítico que sustenta a identidade durante o dia.
Se há um intervalo inteiro, noite após noite, em que nenhuma versão minha está presente para confirmar que existo, a existência continuada que dou por garantida não depende de presença ininterrupta. Depende da reconstrução feita de manhã, com os materiais que sobraram. O eu de hoje herda a memória e os hábitos do eu que apagou ontem à noite e por isso acredita ser o mesmo, sem verificar a procedência dessa herança, afinal verificar exigiria um eu anterior à reconstrução, presente para testemunhar a passagem, e esse eu não estava lá.
Sinto estar acordado de forma concreta pela mesma razão que vejo movimento contínuo num filme: os fotogramas de imagens estáticas passam rápido demais para o olho perceber o corte entre eles.
A noite não interrompe um eu contínuo. Revela que ele nunca foi contínuo, só bem reconstruído a cada despertar.
“Sim, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Você já trabalhou muito em si mesmo. Conhece os padrões, sabe nomear o que opera em você. E continua repetindo.
O trabalho que faço entra antes que o padrão se instale. Conheça a Fronteira Interior:





