Muito Barulho por Nada
Shakespeare provavelmente não estava falando sobre isso, mas poderia estar
A mente tem muito a dizer.
Quase nada importa.
Há alguns anos aprendi um truque que pratico desde então: tratar os pensamentos como se fossem irrelevantes. Falo daquelas ruminações sobre um passado que não existe mais, remoendo situações negativas ou arrependimentos. Ou ainda a imaginação fértil direcionada ao futuro, que também não existe. Completamente inútil.
Nem sempre consigo aplicar isso, só quando estou em atenção e foco. Mas quando acontece, o que estava invadindo a mente simplesmente passa, leve e fugaz, não merecendo o peso que atribuímos porque de fato não tem.
A chave está em não acreditar no pensamento. Em não se deixar levar por ele num encadeamento de historinhas e cenas que ficam se repetindo na cabeça, histórias que contamos a nós mesmos com uma convicção surpreendente.
O problema é que desde sempre confundimos os pensamentos, a mente, aquela vozinha interior geralmente crítica, com quem somos. E temos certeza disso, como se fosse um fato óbvio e incontestável. Essa certeza começou a se formar lá atrás, na primeira infância, ali pelos dois anos de qualquer bebê que começa a aprender a falar e dar nome às coisas. Ao nomear, viramos sujeito e tudo ao redor vira objeto. Essa separação é a nossa prisão. Por conta dela, passamos a vida inteira tentando nos fixar e nos diferenciar, vivendo em estado permanente de comparação, geralmente com uma avaliação não tão boa de nós mesmos em relação ao que devemos ser, uma linha de chegada inventada de acordo com o que fomos “adestrados” a perseguir, um sucesso que não existe em lugar nenhum. Enquanto isso, a vida acontece em cada instante, e no próximo, posso já não estar aqui. Essa parte a gente sempre joga para debaixo do tapete…
Esse blábláblá mental tem uma característica curiosa: ele é extremamente repetitivo e, na imensa maioria das vezes, absolutamente inútil. Os mesmos temas, os mesmos personagens, as mesmas cenas em loop, com pequenas variações que não levam a lugar algum.
A mente em modo automático é uma rádio mal sintonizada que ninguém pediu para ligar.
O barulho está lá, constante, e a gente vai se acostumando tanto que começa a confundir o barulho com a própria voz. Com quem se é.
Não precisamos silenciar a mente à força. Quem já tentou sabe que isso funciona mais ou menos como tentar não pensar num elefante rosa. Quanto mais se tenta, mais ele aparece. O que muda de verdade é a relação com o pensamento: perceber que ele está passando, sem embarcar. Observar sem seguir. Esse gesto, que parece simples e às vezes é o mais difícil do mundo, cria um espaço entre o pensamento e quem o percebe. Nesse espaço está a presença.
O engano comum é achar que presença e atenção plena exigem meditação, postura, tapete, incenso, aplicativo ou pelo menos meia hora sem compromisso. Bobagem. A presença pode acontecer enquanto você lava a louça, ouve alguém falar, espera o elevador ou dirige num trecho de estrada que conhece de cor. Em qualquer um desses momentos, existe a possibilidade de notar o que está aqui, agora, sem a narrativa mental sobreposta. O sabão espumando na palma da mão. O timbre da voz de quem está à sua frente. A luz entrando pela janela de um jeito específico que não vai se repetir exatamente assim nunca mais. Detalhes que para a maioria de nós, passam batido. Tenho usado a fotografia contemplativa para ver os detalhes que se perdem no automatismo do dia a dia. Em breve falo mais disso.
A diferença entre estar presente e estar em piloto automático é a diferença entre viver o que está acontecendo e ficar processando internamente alguma coisa que já aconteceu ou ainda vai acontecer. Uma pesquisa conduzida por Killingsworth e Gilbert, em Harvard, revelou que passamos em média, 50% do tempo com a mente divagando, desconectados do que de fato está diante de nós. Metade da vida, basicamente, gasta em conversa com um interlocutor imaginário sobre cenas que não existem mais ou que ainda nem existem.
Se a nossa atenção se fixar no que está aqui, mesmo por alguns segundos, alguma coisa muda. O pensamento ruminante perde força porque a atenção foi para outro lugar, para o real, para o concreto, para o que efetivamente está acontecendo.
Experimente agora, sem intenção especial. Escolha qualquer coisa concreta ao seu redor: um som, o contato dos pés no chão, a temperatura do ar entrando pelo nariz, o peso do corpo na cadeira, o roçar do tecido da sua roupa na pele. Fique aí alguns segundos. A mente vai comentar, vai lembrar de coisas urgentes, vai ter uma opinião sobre o que você está fazendo. Agradeça a dedicação dessa máquina. Aquele (ou aquilo) que percebe tudo isso, já estava aqui antes do pensamento.
O pensamento passa. Aquilo que observa, fica.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski





