Ninguém Embarcou
Heráclito disse, Eliot disse, e nós continuamos comprando passagem.
O que existe entre o homem que embarca e o que desembarca não é o tempo, é o próprio homem.
Em 1941, T.S. Eliot escreveu, em The Dry Salvages 1, que você não é a mesma pessoa que deixou aquela estação, nem a que vai desembarcar no destino final. Heráclito de Éfeso 2 afirmava que um homem nunca se banha no mesmo rio duas vezes. A razão é dupla: o rio já não é o mesmo, porque a água que passou não volta e o homem também não é o mesmo, porque o instante anterior já o alterou de alguma forma que ele provavelmente não percebeu. Dois pensadores, épocas e contextos radicalmente distintos, apontando para o mesmo fato que continuamos ignorando com uma competência impressionante.
A regeneração celular acontece continuamente no corpo humano e não a cada sete anos, como a ciência um dia supôs. Mas isso é só a ponta de um iceberg mais amplo: o que chamamos de “eu” é um fluxo ininterrupto de experiências, das mais automáticas às mais conscientes e ele pressupõe uma continuidade que vai além do corpo e da mente. Gurdjieff chamava esses aparatos de “máquinas”. Bernardo Kastrup 3 prefere a imagem de redemoinhos: vórtices que emergem de uma mesma água e, por um tempo, parecem ter vida própria. A água, porém, é uma só.
A respiração acontece. O coração bate. O estômago digere. Nenhum desses processos depende de intenção, planejamento ou esforço e qualquer interferência deliberada em alguns deles, termina em colapso.
A visão acontece, o coração bate, até que um dia não bate mais. Nada disso passa por nenhuma decisão nossa.
Quando olho com alguma honestidade para o que realmente controlo, a lista é bem mais curta do que meu ego gostaria de admitir. Há um fazer que acontece sem quem faça, uma observação sem observador, não é metáfora, é simplesmente o que a experiência direta revela quando paramos de querer sobrepor conceitos e racionalizações a ela.
O curioso é o que fazemos com essa percepção quando ela aparece. Em vez de deixar que o reconhecimento do fluxo dissolva a ilusão de um centro fixo e separado, invertemos o movimento: reforçamos a fronteira, enrijecemos a identidade e passamos a operar como se esse “eu” imaginado fosse não só real, mas soberano. A noção de separação, insisto que é noção e não realidade, produz consequências que conhecemos bem: nos sentimos acima dos animais, da natureza, do planeta e, naturalmente, acima de outros seres humanos. Em especial daqueles humanos que, por algum critério conveniente, decidimos que não são tão iguais a nós. Inevitável lembrar aqui de Orwell 4 . A crença de que existe um “eu” isolado e soberano fundamenta tudo que produzimos de mais destrutivo, das hierarquias que justificam a exploração às guerras que chamamos de necessárias.
Fico pensando em quando esse autoengano ganhou escala. Uma hipótese que me persegue há anos: foi no momento em que nossos ancestrais nômades encontraram um lugar bom o suficiente para ficar. Ao fixar raízes, fixaram também propriedades e com elas, vieram as cercas, as divisas, as fronteiras. A lógica do “meu” e do “seu”, tornou-se o embrião de toda separação subsequente. Outra possibilidade, igualmente plausível: a separação se consolidou quando figuras como Buda, Jesus, Lao-Tsé, Rumi, Krishnamurti e outros que viveram sem a ilusão de um eu separado, tiveram suas palavras sequestradas por quem se apresentou como intermediário do divino, transformando ensinamentos de dissolução do ego em instrumentos de controle e hierarquia.
Provavelmente os dois processos se reforçaram. O resultado está à vista.
O mundo voltou a se organizar em torno de autoritarismo e fechamento e isso me parece menos um desvio do que a expressão mais honesta do que nunca deixamos de ser. O ego coletivo opera pela mesma lógica do ego individual: quanto maior a ameaça à sua ficção, mais rígida a fronteira que ele ergue. Trump e fauna que o rodeia, os aiatolás, Orbán e a toda a leva recente de “líderes” que surfam essa mesma onda não são anomalias, são sintomas. Refletem a cristalização política de uma crença muito mais antiga e muito mais íntima: a de que existe um “nós” que precisa ser defendido de um “eles”, que a identidade só se sustenta pela exclusão, que a segurança só existe atrás de muros, literais ou simbólicos. O fascismo não nasce de ideologia, nasce de medo e medo nasce da ilusão de separação levada ao limite institucional.
Hannah Arendt observou, em “Eichmann em Jerusalém”, de 1963, que o totalitarismo prospera onde as pessoas perdem a capacidade de pensar, de se colocar no lugar do outro, de habitar qualquer perspectiva além da própria. Isso que ela chamou de “banalidade do mal” é, visto de outro ângulo, a banalidade da separação: a incapacidade de perceber que o outro não é uma ameaça existencial, mas a mesma água formando um redemoinho diferente. O que Heráclito viu no rio, nós nos recusamos a ver uns nos outros.
Colhemos o que plantamos com bastante fidelidade. Durante séculos, plantamos a convicção de que somos entidades separadas competindo por recursos escassos num mundo hostil. A filosofia contemplativa apontou para outra direção, mas a modernidade a relegou às margens, tratada como espiritualidade de boutique enquanto a civilização se construía sobre o exato oposto. Agora chegamos ao ponto em que o custo dessa crença se torna impossível de ignorar: fronteiras, muros, negacionismos, colapsos climáticos tratados como questões de opinião. A separação virou política externa.
Só não sei se precisamos de um choque para sair disso, ou se o choque já está acontecendo e ainda estamos no trem, lendo o jornal, sem perceber que não somos os mesmos de quando embarcamos.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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“Quatro Quartetos” (Four Quartets) é um conjunto de quatro poemas de T. S. Eliot, publicado entre 1935 e 1942, considerado sua obra-prima. Os poemas, “Burnt Norton”, “East Coker”, “The Dry Salvages” e “Little Gidding”, exploram o tempo, a memória, a espiritualidade e o misticismo. Cada poema é estruturado em cinco estrofes e medita sobre um local geográfico específico.
A famosa frase de Heráclito de Éfeso (c. 540-470 a.C.), “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”, simboliza sua filosofia do devir e do fluxo constante (panta rei). Ela significa que tudo no mundo muda constantemente; nem o rio é o mesmo (as águas fluem), nem a pessoa que entra nele (que se modifica).
A Metáfora do Rio: Heráclito, filósofo pré-socrático, observava a natureza e via o movimento como essencial à vida. As águas do rio passam e nunca são as mesmas, simbolizando a transformação contínua do cosmos.
A Mudança Humana: Ao retornar ao rio, a pessoa também se modificou, seja fisicamente ou em suas experiências. O ser humano é parte desse fluxo contínuo de “renascimento”. Sua frase ensina sobre aceitar a impermanência e valorizar o momento presente. Essa reflexão, frequentemente citada na filosofia, destaca a unidade dos opostos e a eterna mudança da realidade.
Bernardo Kastrup é um filósofo e pensador contemporâneo, conhecido por defender o idealismo analítico, que propõe que a realidade é fundamentalmente mental. Com doutorados em filosofia e engenharia de computação/IA, ele argumenta que o mundo físico é uma representação da consciência, não o contrário.
Principais Pontos:
Idealismo Analítico: Kastrup argumenta que o mundo físico é uma manifestação ou “projeção” de uma mente universal.
Formação Acadêmica: Possui doutorado em Filosofia e em Engenharia de Computação (Inteligência Artificial).
Obras: Autor de vários livros, incluindo Why Materialism Is Baloney e The Idea of the World.
Sites:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Animal_Farm
"A Revolução dos Bichos", de George Orwell, é uma fábula satírica sobre a corrupção do poder. Animais de uma granja se rebelam contra o dono humano para criar uma sociedade igualitária, mas os porcos assumem o controle, tornando-se ditadores piores que os humanos originais, culminando na frase: "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".





