O Agora Não Dura Nada
e é exatamente isso que o torna real
Quanto tempo dura o agora?
Quando lembro nas orientações para “esquecer o passado” ou não “sofrer pelo futuro”, sempre me perguntei quanto tempo aquela noção de presente poderia durar.
“Esteja aqui agora” é o mantra mais manjado do planeta, cunhado por Ram Dass, um ex-pesquisador americano que foi parar na Índia e voltou transformado. Gosto muito do conceito. Mas se o futuro é só imaginação e ainda não chegou, e o passado é só memória porque já foi embora, quanto tempo dura esse “aqui, agora”?
Nada. Não dura nada. Esta frase que você está lendo já passou, assim como o momento em que você a leu. Como dominós caindo em sequência sem parar, o momento está de pé e logo não está mais. Não há como congelar esse fluxo. Ele é contínuo, ininterrupto, sem margem para segurar.
Um instante surge e imediatamente deixa de existir.
A ideia de rememorar o passado e avaliar que ele determina nossa humanidade é frágil, já que o passado, assim como o presente, é volátil, evanescente. O futuro é apenas imaginação.
Isso faz sentido para mim. A única realidade é esta, onde me encontro agora, datilografando estas palavras numa máquina de escrever de 1963, fabricada quando eu tinha um ano de idade. Em pleno 2025, uso esse instrumento para revisitar momentos vividos e tentar extrair deles algum sentido ou aprendizado.
A máquina não perdoa distração. Cada tecla exige pressão real, cada erro fica impresso para sempre. O texto acontece no tempo exato da mão, sem filtro, sem poder desfazer ou corrigir com “backspace”. O barulho das teclas traz de volta, o retorno do carro para mudança de linha traz de volta. Escrever numa Olivetti velha é um ato completo: atenção e palavra no mesmo instante, sem folga entre eles. A máquina é um portal não por ser vintage ou charmosa, o que sem dúvida é, mas porque não aceita meia-presença. Quando isso acontece, o tempo para de existir como problema. Isso é uma condição humana e tem nome: estado de flow.
Gosto de imaginar que sou outra pessoa desde então, que há uma evolução, uma maturidade acumulada. Bobagem. Continuo sendo a mesma presença silenciosa que observa. O que mudou foi o ego percebendo que já não era o mestre e sim o serviçal. Pobre coitado. Quando caiu a ficha, apelou e de vez em quando sua força gravitacional ainda me puxa de volta para seus domínios, onde a necessidade de proteção e satisfação reinam. Dura pouco, mas ainda acontece.
Volto para o espaço da Presença tão logo me dou conta. Uso um recurso simples, quase ridículo na aparência, que aprendi com Douglas Harding, 1um filósofo britânico que passou a vida investigando uma pergunta aparentemente absurda: o que há no lugar da sua cabeça, da sua perspectiva? Harding era arquiteto, não guru, e chegou à sua descoberta em 1942 num dia comum, olhando para o próprio campo visual sem pressupor o que deveria estar lá. O que encontrou foi espaço. Abertura. Ausência de fronteira entre ele e o mundo. Passou o resto da vida, até os 97 anos, desenvolvendo experimentos práticos para que qualquer pessoa pudesse verificar isso por conta própria, sem espiritualidade, sem hierarquia. O mais simples deles: aponte para seus pés, suba o dedo devagar, passe pelo torso, pelo pescoço, e continue apontando para cima. Onde está a cabeça? Do seu ponto de vista, agora, o que o seu dedo aponta? Harding chamava isso de “ver”, no sentido mais literal: uma verificação direta, disponível a qualquer momento, sem nenhuma qualificação espiritual necessária. Você não vê nada.
O que o Headless Way oferece é uma instrução de uso. Redirecionar a atenção para o espaço a partir do qual tudo está sendo percebido dissolve, por um instante, a sensação de ser um objeto no mundo. O observador recua ao seu lugar natural, que a memória e a história acumulada não alcançam. Nesse recuo, o momento volta a ser suficiente.
A máquina de escrever e a ausência de cabeça chegam ao mesmo lugar por caminhos que se tocam: o corpo forçado ao presente pela resistência física, e a atenção devolvida a si mesma pela simples pergunta de onde ela está. Cada dominó cai no seu tempo.
Cada momento é inteiro, e logo não está mais.
Isso não dura nada, mas é real enquanto é.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Aproveite e que o flow esteja com você!
Neste artigo, mais detalhes sobre o trabalho de Douglas Harding:





