O Equívoco do Operador
Discutimos a realidade sem saber que cada um habita uma diferente
Pense num sistema operacional, no sentido literal do que acontece aqui dentro. O coração bate sem pedido. Os pulmões enchem sem decisão. Os olhos captam luz, o cérebro traduz essa luz em imagem, e você acredita que está vendo o mundo. Está no entanto, vendo uma versão processada do mundo. O hardware é o corpo. A mente é o sistema que roda sobre ele, coordenando cada função, cada sinal, cada interpretação do que chega pelos sentidos. O processo inteiro dispensa um gerente separado tomando decisões.
Ainda assim, em algum ponto desse processamento, surge uma entidade que se acredita o autor de tudo isso. Esse é o ego. Um aplicativo que começou a se confundir com o sistema operacional inteiro. Robert Anton Wilson 1 chamou de túnel de realidade essa versão filtrada do mundo que cada um de nós processa, e vale entender o que isso significa de fato. O sistema nervoso humano recebe algo em torno de onze milhões de bits de informação por segundo. A consciência processa cerca de cinquenta. O resto é descartado, comprimido, reorganizado pelo filtro que cada um carrega, formado por linguagem, cultura, trauma, crença, experiência acumulada. O que sobra depois desse processamento brutal é o que chamamos de realidade. Uma fatia minúscula do que estava disponível, apresentada como se fosse o todo. Você não vê o mundo. Vê o que o seu túnel deixa passar.
O detalhe que Wilson fazia questão de sublinhar é que cada túnel é genuíno dentro de si mesmo. Duas pessoas olhando para o mesmo evento habitam realidades processadas de forma tão distinta que o desacordo entre elas não é necessariamente erro de nenhuma, é só a distância entre dois filtros operando com honestidade. O que chamamos de conflito, de incompreensão, de visões de mundo diferentes, é em grande parte o atrito entre túneis que nunca se tocam diretamente. Cada um experimenta sua fatia como se fosse a realidade inteira. E ainda assim, por baixo de todos os túneis, o mesmo campo. A mesma Consciência de fundo sobre a qual cada ser humano roda seus próprios aplicativos e produz uma realidade imediata que parece exclusiva e soberana.
Pense agora nos dispositivos numa sala: celular, computador, caixa de som, cada um com função própria, cada um operando de forma aparentemente independente. Todos dependem do mesmo campo eletromagnético para funcionar. O campo está presente da mesma forma antes e depois de qualquer dispositivo existir. O ego é um dispositivo que, em algum momento, aprendeu a se acreditar a fonte da energia que o alimenta. Esse equívoco é a fundação de tudo que construímos sobre ele.
Ayrton Senna descreveu algo parecido, sem usar nenhum desses termos. Em Mônaco, 1988, ele relatou que havia baixado mais de um segundo por volta e continuava melhorando sem saber de onde vinha o movimento. Disse que estava pilotando por instinto, que se sentiu em outra dimensão, dentro de um túnel, muito além da sua compreensão consciente. O que ele descreveu é a suspensão temporária do aplicativo que gerencia a narrativa de si mesmo: o piloto desapareceu, e o que sobrou foi apenas pilotagem. O campo operando sem que o dispositivo atrapalhasse, por pura ausência de obstrução.
Isso acontece com mais frequência do que registramos. Qualquer um que já esteve completamente absorto numa tarefa, num instante de atenção tão plena que o tempo parou de ser contado, tocou a mesma coisa que Senna descreveu em alta velocidade. O conteúdo muda, a estrutura é idêntica: o personagem saiu de cena, e o processo continuou, às vezes com qualidade superior à que o personagem conseguia produzir com todo seu esforço. Isso deveria provocar uma pergunta incômoda sobre quem, afinal, estava fazendo o quê o tempo todo.
A Consciência é aquilo em que a mente ocorre. Está presente antes da primeira interpretação, antes da primeira palavra que nomeou alguma coisa como “eu”.
Douglas Harding 2 passou décadas apontando para isso de um ângulo que parece absurdamente simples: ele perguntava o que há onde sua cabeça deveria estar, do seu próprio ponto de vista. Você olha para outras pessoas e vê rostos. Quando vira a atenção para si mesmo, para o lugar de onde você está olhando, encontra abertura. Encontra o espaço em que tudo aparece. A cabeça que você imagina ter está sempre do lado de fora, nunca aqui onde a experiência acontece. Esse aqui tem presença.
Quando isso se instala como percepção direta, a estrutura que mantinha tudo separado começa a perder firmeza. O corpo segue sendo corpo, a mente segue operando, os aplicativos continuam rodando.
A ilusão de que existe um operador isolado dentro de tudo isso simplesmente não se sustenta mais.
“Sim, bem, você sabe, isso é apenas, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Robert Anton Wilson ou RAW (Nova Iorque, 18 de janeiro de 1932 - 11 de janeiro de 2007) foi um escritor, filósofo, psicólogo, futurista, anarquista e pesquisador das teorias de conspiração
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