O Observador Sem Nome
O personagem se cala e o flow revela o que sempre esteve aqui.
Para os novos leitores que estão chegando, gostaria de brevemente me apresentar. Além de escrever a newsletter O Psiconauta, sou autor do livro Antes do Pensar e conduzo mentorias, workshops e retiros voltados para autoconhecimento e presença para executivos, empreendedores, equipes e exploradores da Consciência. Vim da comunicação, passei pelo mundo corporativo, fundei projetos em fotografia e cultura visual e ao longo desse percurso fui percebendo que o fio condutor de tudo era o mesmo: a qualidade da atenção que oferecemos ao que está acontecendo agora.
O texto a seguir mostra joga mais luz nessa trilha.



Existe um fio que conecta tudo o que faço nas mentorias, nos workshops, nos retiros. Ele raramente cabe numa explicação rápida, porque o que sustenta esse trabalho é uma direção de atenção, algo que se percebe na prática e que perde força quando vira uma descrição.
Cada formato, cada encontro, cada conversa parte do mesmo ponto: a possibilidade de que aquilo que você acredita ser, aquela construção mental que carrega seu nome e sua história, é apenas uma parte do que está acontecendo. Uma parte barulhenta, convincente, útil em muitos contextos, mas ainda assim parcial. O trabalho começa ali, nessa suspeita e se desdobra até o momento em que a suspeita deixa de ser ideia e vira percepção direta. O que chamo de reset de atitudes mentais é o instante em que a mente flagra seu próprio funcionamento e, ao flagrar, relaxa. O ego é visto e o que vê, o que nota esse ego, é algo anterior, mais silencioso, que sempre esteve aqui e que a tradição não dual reconhece com nomes variados, todos apontando para a mesma evidência: a Consciência que antecede o personagem.
Esse trabalho toma formas diferentes conforme o contexto. O deepDIVE e o deepNOW são programas de mentoria individual e coletiva de imersão remota ou presencial, onde o Eneagrama serve de ponto de partida para algo que vai além do autoconhecimento convencional, passando por práticas de meditação, respiração, coerência cardíaca e ativação do estado de flow, até o momento em que a própria pergunta “quem sou eu” começa a se dissolver na resposta. O mObZen chega por outro caminho, pela atenção do olhar e da escrita. Workshops e retiros de fotografia contemplativa e escrita criativa, onde o ato de fotografar com o celular e escrever, vira exercício de presença. A estética zen, o Miksang, Wabi Sabi, a atenção plena aplicada à composição da imagem e de textos que exploram o âmago das angústias que todos vivemos, tudo isso funciona como porta de entrada para uma percepção que dispensa palavras.
Em ambos os casos, o que está em jogo é a mesma coisa: perceber quem percebe.
O texto que segue abre esse processo. Aqui o que quero mostrar é a minha metodologia acontecendo em palavras, do mesmo modo que acontece ao vivo, quando alguém senta diante de mim e começa a notar que a pergunta “quem sou eu” já contém, na sua estrutura, o início da resposta.
A pessoa chega com a sensação de que é aquilo que pensa sobre si, com uma narrativa bem construída, coerente, repetida ao longo dos anos até ganhar a consistência de algo sólido. O Eneagrama entra nesse momento como uma lente que organiza esse material. Quando alguém reconhece o próprio tipo ou perfil, há um alívio imediato, uma espécie de organização de uma lógica interna que sempre operou em segundo plano. Um verdadeiro momento “eureka” - ah! agora eu entendo porque ajo assim!… As reações fazem sentido, os padrões se repetem com uma precisão quase desconfortável e a identidade ganha contorno.
Em paralelo a esse reconhecimento, tem uma coisa mais sutil acontecendo que costuma passar despercebida. Ao ver o padrão com clareza, a pessoa já não está completamente dentro dele. Ocorre um pequeno afastamento, quase imperceptível, um instante em que a engrenagem é vista girando. Esse instante não parece importante e ainda assim muda a qualidade inteira da experiência.
A identificação com o tipo continua funcionando, só que já não ocupa todo o campo.
Com o tempo, a atenção começa a se refinar. Em vez de olhar apenas para o que acontece, a pessoa começa a perceber como acontece. A pressa de um tipo, a necessidade de controle de outro, a busca por reconhecimento, a fuga do conflito, tudo isso começa a aparecer apenas como movimentos não são parte da essência. Ainda existe identificação, envolvimento e ao mesmo tempo, algo acompanha de perto, silencioso, registrando.
É nesse terreno que o flow começa a aparecer com mais nitidez.
No início, ele surge como um estado desejável, associado à performance, à criatividade, à sensação de estar no melhor de si. Isso atrai, principalmente em ambientes de liderança e alta exigência de performance e resultados. Na experiência direta, porém, o que chama atenção é a ausência de esforço psicológico desnecessário. A ação acontece com uma fluidez que dispensa o excesso de pensamento e a preocupação constante com a própria imagem já não se sustenta mais naquele momento.
Ninguém entra em flow virando outra pessoa. O que acontece é mais simples: o personagem que você mantém funcionando o dia inteiro, com suas opiniões, preocupações e necessidade de controle, afrouxa. E o que aparece por baixo dele já estava ali, operando sozinho, o tempo todo.
A mente continua operando quando necessário, o corpo responde com precisão intuitiva, as decisões surgem no tempo certo. Não existe aquela sensação de alguém no centro tentando fazer tudo dar certo. A experiência se organiza sozinha e isso, quando é percebido, causa um estranhamento silencioso.
Com essa fluidez, a pergunta que antes girava em torno de como melhorar, como evoluir, como corrigir o tipo, surge em algo mais simples: o que exatamente está faltando aqui, neste momento, para que a experiência aconteça. Muitas vezes a resposta vem como uma constatação direta, quase corporal. Nada está faltando. O movimento já está acontecendo.
A relação com o próprio padrão muda de qualidade, deixa de ser referência central e passa a ser apenas uma tendência que aparece e desaparece dentro de algo maior, mais estável, que não parece precisar de ajuste. A atenção então se volta, com mais curiosidade do que esforço, para aquilo que permanece enquanto tudo muda.
Pensamentos surgem, emoções passam, decisões são tomadas, conversas acontecem, negócios são conduzidos, equipes se organizam e em meio a tudo isso encontramos uma evidência simples, que não depende de interpretação: a experiência está acontecendo por si, sem um centro fixo que precise sustentar ou controlar isso.
Em alguns momentos, essa percepção se torna mais clara. A linguagem interna desacelera, a necessidade de comentar a própria experiência perde força. As coisas são vistas, ouvidas, sentidas, sem urgência de transformar isso em narrativa. A ideia de um “eu” que observa começa a parecer um detalhe aque foi adicionado depois.
Essa experiência direta, quando notada, não mentalmente, mas instintivamente, se reorganiza de forma irreversível, ainda que a vida continue exatamente como antes por fora. O trabalho segue, as responsabilidades permanecem, as relações continuam pedindo presença, porém, já não há a mesma contração em torno do representar um papel, uma identidade.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski





