O Último Equívoco
O eu é uma conclusão e não uma causa

A Dobra, que acabou de ser concluído 1, apontou para uma direção. Este texto vai até lá. Os ensaios que publico aqui no Psiconauta, cada um ao seu modo, tocam o mesmo território: a nossa real natureza, a não separação. Este desce um pouco mais fundo. A divisão entre sujeito e objeto, a fratura que está na origem de quase tudo que chamamos de problema humano.
Existe uma divisão que antecede todas as outras. Anterior à política, à religião, à economia, ao conflito entre nações ou entre vizinhos. Uma separação tão fundamental que a carregamos como se fosse a própria estrutura da realidade, acreditando que o mundo sempre foi assim e não houvesse outra forma de existir. É a inevitável e atávica divisão entre sujeito e objeto, entre o “eu” que observa e o “mundo” que é observado, entre o que está aqui dentro e o que está lá fora. Tudo que chamamos de problema humano, quando você desce fundo o suficiente, tem raiz nesse equívoco.
A criança pequena não nasce com essa divisão instalada. Há pesquisas em psicologia do desenvolvimento que sugerem isso, mas qualquer pessoa que já ficou em silêncio diante de um bebê de alguns meses sabe intuitivamente: aquilo que olha ainda não separou completamente o olhar do olhado. O mundo e o ser que percebe o mundo ainda têm uma permeabilidade entre si, uma continuidade que ainda não foi cortada pela linguagem e pelo conceito. Depois a faca entra. Gradualmente, o processo de socialização, de dar nome às coisas, de construção de identidade vai erguendo uma espécie de membrana entre o “eu” e o resto. Quando essa membrana está estabelecida, o problema começa, porque um sujeito separado é um sujeito com medo.
O medo é a consequência lógica e inevitável da separação. Se existe um “eu” isolado, delimitado, com fronteiras definidas, então esse eu pode ser ameaçado, diminuído, destruído. Precisa se defender, se expandir, acumular, se comparar. Precisa vencer ou ao menos não perder. A competição não é um traço humano, é uma aritmética: quando há dois separados, há hierarquia possível, e onde há hierarquia possível, há ansiedade. O sujeito separado vive numa guerra permanente de baixa intensidade com tudo que percebe como “outro”, seja outro ser humano, seja uma circunstância, seja o próprio tempo que passa e ameaça dissolve-lo.
Olhe para qualquer conflito com atenção suficiente e você vai encontrar esse mecanismo operando. A guerra entre países é a versão amplificada do que acontece entre duas pessoas numa discussão, que é a versão amplificada do que acontece dentro de uma única mente quando ela resiste ao que está acontecendo. A estrutura é sempre a mesma: um “eu” que se percebe separado e ameaçado, reagindo para preservar sua fronteira. O conteúdo e a escala mudam, mas o mecanismo é idêntico. Imperialismo, racismo, misoginia, tribalismos de toda ordem - tudo isso, tecnologias de separação, formas de tornar a fronteira entre o “eu” e o “outro” mais nítida e justificada, portanto, mais permanente.
O que a não dualidade observa e isso aparece no Vedanta, no Budismo, no Taoismo, no Zen, em certas leituras da mística cristã e islâmica, na filosofia; curiosamente começa a aparecer também na física quântica e nas ciências cognitivas, o entendimento de que essa separação é uma construção, não uma descoberta. O sujeito não encontrou a si mesmo como algo distinto do mundo. O sujeito foi fabricado, lentamente, por camadas de pensamento, linguagem e experiência repetida, até que a fabricação pareceu tão sólida quanto os móveis da sala. Bernardo Kastrup 2 descreve a consciência individual como um redemoinho num rio: tem forma, tem movimento próprio, pode ser identificado e nomeado, mas não existe nenhum momento em que deixou de ser água. A separação é funcional, não ontológica. Útil para navegar o mundo, catastrófica quando tomada como verdade absoluta.
É exatamente aí que mora o equívoco. Não é a existência de uma perspectiva individual, um ponto de vista localizado ou uma experiência subjetiva particular que são reais (e que valem ser vividas com inteireza). O equívoco está justamente em acreditar que essa perspectiva seja uma entidade independente, um “eu” que existe por conta própria, separado da consciência que o permeia e do mundo que o constitui. Quando isso acontece, o redemoinho esquece que é rio e vai gastar toda a sua energia tentando se manter, tentando crescer, tentando não se dissolver, numa luta que é, por definição, sem fim.
A maior parte do sofrimento humano tem essa textura. A ansiedade crônica, a sensação de inadequação, a compulsão por validação externa, a dificuldade de estar presente sem que a mente construa narrativas protetoras, o vício em ocupação (ah o glamour de se dizer “estou ocupadíssimo”…) para não sentir o vazio que assusta, tudo isso é a experiência de um sujeito que acredita ser separado e precisa se sustentar nessa separação. O problema está na estrutura que organiza os conteúdos específicos de cada pessoa, esse centro imaginário em torno do qual tudo orbita e que, quando você vai olhar diretamente, tem a consistência de uma sombra.
A pergunta mais direta que existe, aquela que as tradições não duais fazem de formas diferentes, é simplesmente: quem é esse “eu”? Ou o que é esse “eu”? Não são perguntas filosóficas abstratas, é uma técnica de investigação real, feita agora, neste momento. Quando você procura o observador, o que você encontra? Existem pensamentos, sensações, percepções, imagens, sons, o peso do corpo na cadeira, a respiração que continua sozinha. Mas o “eu” que deveria estar coordenando tudo isso, o sujeito central que a gramática pressupõe em cada frase, esse, quando você vai olhar diretamente, escorrega, dissolve, sempre um passo atrás do olhar. O observador e o observado nunca estiveram tão separados quanto a experiência cotidiana sugere.
Escrevo sobre isso aqui no Psiconauta porque acredito, com a convicção que vem de observação repetida, que esse reconhecimento é o único que muda alguma coisa na raiz. Reformas políticas, avanços tecnológicos, mudanças culturais, tudo isso tem valor, mas nada vai chegar na origem enquanto o sujeito separado continuar operando como premissa inquestionável. A crise ecológica é a relação do sujeito com a natureza tratada como objeto de uso. A crise política é a relação entre sujeitos que não reconhecem nenhuma substância compartilhada. A crise de saúde mental é o custo de manter uma identidade separada num mundo que, em nenhum nível fundamental, sustenta essa separação.
Não estou propondo dissolução, passividade ou indiferença ao mundo. Não sou niilista. Estou apenas apontando que há uma forma de existir em que a perspectiva individual permanece viva e funcional, mas o terror existencial que vem da separação absoluta começa a perder força. Quando o redemoinho lembra que é rio, ele não para de girar, continua se movendo, continua tendo forma, continua sendo identificável. Só que ele para de lutar contra a água.
O sujeito é o problema que se resolve quando você para de procurar quem o resolve.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski





