Provavelmente ninguém
O que fica depois do colapso
Abertura do livro “The Open Path” de Elias Amidon:
“Um dos momentos mais luminosos na vida do buscador espiritual é quando a busca finalmente termina: quando reconhecemos que o objetivo tão procurado da busca espiritual já está presente em nós como nossa consciência natural. Reconhecemos que aquilo que buscamos, somos, e que essa consciência transparente e pura no centro do nosso ser é uma janela clara para a unidade.
Com esse reconhecimento vem a percepção de que nada mais precisa ser feito. Nada precisa mudar. Não precisamos nos aperfeiçoar. Cada um de nós já é digno da consciência iluminada porque ela é nossa natureza inata. Essa percepção abre em nós um indescritível senso de alívio e liberdade do auto-julgamento. Compreendemos nesses momentos de percepção que somos completamente um com toda a realidade e sempre fomos, e que esse estado natural é completamente seguro, livre, bondoso e radiante de uma beleza supernal. Não precisamos fazer nada para que isso seja verdade. Ele se faz por si mesmo.”
Tem um momento que os livros não descrevem direito. Você está sentado em silêncio, numa prática qualquer, respirando, meditando ou simplesmente contemplando e de repente a percepção abre e o chão some: o que você chamava de chão era uma ficção bem construída em torno de um personagem que sofria e sobrevivia. E aí vem o pensamento que ninguém espera: se não havia um eu substancial aqui agora, havia um antes? Quem viveu esses trinta, quarenta anos? Ou no meu caso, um pouco mais de sessenta…
O recuo faz sentido porque o que está em jogo é real: aquele personagem custou caro, foi testemunhado por pessoas que importam, foi o fio pelo qual você se reconheceu como alguém e largar isso tem o peso de uma traição.
A percepção não-dual não dissolve apenas o ego que você é agora, o operador que decide e age. Ela retroage. A dissolução do eu não é um evento futuro. Ela reescreve o passado e esse é o ponto que os livros visitam e abandonam rápido demais. Quem foi injustiçado naquela relação que durou oito anos? Quem construiu aquela empresa? Quem aguentou aquele pai difícil? A resposta que a percepção não-dual oferece é desconfortável na medida exata em que você investiu nela: provavelmente ninguém, no sentido que você pensava.
Havia experiência e sensação, memória acumulando sobre memória e o personagem que organizou tudo isso num arco coerente foi construído depois, e continua sendo reconstruído agora, neste instante, enquanto você lê.
Isso ameaça a maioria das pessoas muito mais do que liberta. O ego não protege apenas a si mesmo no presente, protege a coerência do passado como evidência de que existiu. Sem um eu substancial que sofreu aquilo, o sofrimento fica suspenso no ar, sem sujeito. A mente não tem modelo para isso. Ela insiste: tem que ter tido alguém que passou por aquilo, que a dor foi real, que a conquista foi real.
Tudo isso foi real, e ao mesmo tempo pode não ter havido um eu separado e permanente a quem aconteceu. A mente que precisa de coerência linear entre essas duas constatações vai entrar em colapso tentando reconciliá-las.
O que de fato morre nesse processo, e morre, a palavra é essa, é a reivindicação de autoria. A memória fica, a capacidade de agir e sentir permanece intacta. O que desaparece é o uso do passado como prova de que você é alguém. Tudo que aconteceu e deixou marca permanece disponível. O que vai embora é a necessidade de que tudo isso demonstre a existência de um eu que persiste através do tempo como entidade contínua.
Longchenpa, o mestre tibetano do século XIV, tem uma frase que volta sempre que penso nisso: “vazio em essência, contínuo por natureza, nunca existiu como qualquer coisa, e ainda assim surge como tudo.” Tudo isso vem, com toda a densidade que tem, sem precisar de um dono para ser real.
Esse reconhecimento aparece em tradições que mal se conhecem entre si, formulado de formas tão distintas que a convergência é desconcertante. O Sufismo chama esse processo de fana, auto-aniquilação e em seguida observa que o próprio nome erra o alvo: nunca houve nada ali para ser aniquilado. Nisargadatta Maharaj dizia que o que você chama de eu nunca nasceu, só o conceito morre. O Zen aponta pelo ângulo do mushin 1: a mente sem eu fixo é o que sobra quando a suposição de um centro perde o chão. Ramana Maharshi reduzia tudo a uma instrução: pergunte quem sofre. O sofredor some antes da resposta chegar. Tradições separadas por séculos e continentes chegam ao mesmo lugar: nunca houve nada ali para ser aniquilado. E ainda assim o processo dói, porque a suposição de que havia alguém, organizou décadas de vida real. Relacionamentos, escolhas, medos, tudo passou por esse filtro. Descobrir que o filtro era vazio não apaga o que passou por ele.
Há um luto real nesse processo e os livros espirituais raramente ficam com ele o tempo necessário. O luto específico de perceber que o personagem que você cuidou, defendeu e ergueu ao longo de anos provavelmente nunca foi o que parecia ser. Sentar com esse luto sem pressa de resolvê-lo é um dos movimentos mais honestos que esse processo exige. Se não o mais honesto.
A história continua lá, com toda a densidade que teve. O que some é a necessidade de que ela prove alguma coisa. Para quem passou a vida inteira precisando dessa prova, isso tem o peso de uma morte.
O que sobra depois não pertence a ninguém.
“Sim, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta.
Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas.
Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos.
O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Mushin (無心) é um conceito japonês que significa “mente sem mente” ou “estado de não-mente”. Refere-se a um estado de concentração profunda onde a mente está vazia de pensamentos, medos ou julgamentos, permitindo que a pessoa reaja de forma totalmente espontânea e focada ao momento presente.







