Quem Está Lendo Isso?
Uma pergunta que a gramática faz e a mente não consegue responder
Existe uma estrutura gramatical que a maioria das pessoas aprende na escola e descarta logo em seguida. A voz passiva. Ela aponta para algo que as tradições contemplativas tentam descrever há milênios: a ausência de um sujeito separado da experiência. Neste ensaio, uso a gramática como porta de entrada para uma investigação sobre a natureza da Consciência, com três práticas simples que qualquer pessoa pode tentar agora. O objetivo é um vislumbre, não uma explicação.
A janela foi aberta.
O prato foi quebrado.
A decisão foi tomada
Chato, minha professora do segundo grau disse. Melhor evitar e usar a voz ativa. Seja o sujeito da sua frase. Seja o sujeito da sua vida. Mas a voz passiva aponta para aquilo que a voz ativa sistematicamente encobre e isso é o centro de quase tudo que as tradições contemplativas tentam descrever há milênios.
Na voz ativa, existe sempre um agente. Eu abri a janela. Tem um eu, tem uma janela, tem uma ação que parte de um lado e chega no outro. Sujeito, verbo, objeto, o mundo organizado em dois polos com um movimento no meio. Essa é a gramática do ego, descrevendo precisamente a estrutura que sempre pressupõe alguém fazendo algo para alguma coisa. Na voz passiva, esse agente some. “A janela foi aberta”. O “abrir” existe sem precisar de um agente, sem origem declarada, sem responsável.
Pare de ler por um momento e observe a sua respiração, aquela que acontece naturalmente, não a que você faz intencionalmente. Há uma diferença pequena mas estranha entre “estou respirando” e “a respiração está acontecendo”. No segundo caso, onde está aquele que respira? Você procura e encontra mais respiração. O sujeito que deveria estar no centro da cena simplesmente não aparece como uma coisa separada dela e essa ausência, longe de ser perturbadora, tem uma leveza que a maioria das pessoas não espera encontrar ali, naquele momento.
Isso é o que a voz passiva aponta, como mapa de uma experiência que a maioria das pessoas já teve e nem percebeu ou não soube nomear. Pense num momento de concentração profunda, aquele tipo de foco onde o tempo some e você só percebe que horas se passaram quando alguém interrompe. O Professor Mihaly Csikszentmihalyi 1 estudou isso durante décadas, entrevistou atletas, músicos, operários, cirurgiões, jogadores de xadrez e encontrou o mesmo padrão em todos: no pico da experiência, a autoconsciência (ego) desaparece. As pessoas literalmente param de se monitorar. A atenção e o objeto da atenção se fundem em uma coisa só, o músico não toca a música, a música toca, o escalador não sobe a parede, a escalada acontece. A percepção da experiência vira passiva sem que ninguém tenha decidido isso.
O que Csikszentmihalyi chamou de estado de flow, o Zen chama de mushin 2. Douglas Harding passou décadas apontando para o mesmo fenômeno com um experimento simples: olhe para onde a sua cabeça deveria estar e descreva o que encontra. A maioria das pessoas, quando tenta de verdade, encontra espaço, abertura, ausência do ponto de referência que deveria estar ali gerenciando tudo. Harding dizia que a única coisa que nunca vemos é aquilo que está vendo. O sujeito é o ponto cego da experiência, e a voz passiva é a gramática desse ponto cego.
Então aqui está uma prática, se você quiser tentar agora:
Sente-se onde você está, feche os olhos se quiser, ou deixe abertos e comece a observar o que aparece: sons, sensações, o peso do corpo na cadeira, o ar entrando pelo nariz e sendo percebido ali ou no ventre. Para cada coisa que surgir, reformule internamente na voz passiva: o ventilador está sendo ouvido, o peso está sendo sentido, esse pensamento está acontecendo, o calor no rosto está sendo percebido. A princípio soa artificial, porque estamos desfazendo um hábito muito antigo, que é o de inserir um administrador no centro de tudo que ocorre. Mas continue. Depois de alguns minutos, a pergunta “por quem está sendo ouvido?” começa a não ter resposta satisfatória. Você procura o ouvinte e encontra mais “ouvindo”. O sujeito que deveria estar ali como ponto fixo de referência simplesmente não se apresenta como uma coisa separada da experiência e nesse momento alguma coisa acontece, muda de lugar.
Uma segunda variação vai mais fundo. Enquanto estiver nesse estado de observação, perceba o espaço onde as coisas aparecem. O som acontece onde, dentro de quê? O pensamento surge onde, dentro de quê?
Não espere uma resposta conceitual, essa pergunta não tem uma.
Note o espaço antes de nomear o que está nele. Esse espaço, os contemplativos chamam de Consciência, além daquilo que conhecemos como conceito filosófico: é o campo onde tudo aparece, o silêncio onde os sons existem, a tela onde as imagens correm.
Esse espaço não tem bordas, não tem dono, simplesmente está aqui, sempre esteve e você está tão dentro dele que durante anos confundiu o espaço com a entidade que ocupa o espaço.
Bernardo Kastrup usa a imagem de um redemoinho num rio. O redemoinho parece ser uma coisa separada da água, tem forma, tem movimento próprio. Mas se você pegar um copo e tentar capturá-lo, só encontra água. A forma existia como padrão e não como uma substância separada. O sentido de ser um “eu” separado funciona assim: é um padrão de processos acontecendo dentro de uma Consciência muito maior, que é o fundo de tudo. O redemoinho real, descobrindo que sempre foi o rio.
Existe uma terceira entrada para quem tem dificuldade com as duas primeiras. Escolha um objeto à sua frente, pode ser qualquer coisa, uma xícara, uma parede, uma planta e observe sem dar nome -não é fácil no começo - normalmente, assim que os olhos vêem alguma coisa, a mente já rotula instantaneamente e segue em frente: xícara, já sei o que é, próximo.
“No dia em que você ensina à criança o nome do pássaro, ela nunca mais verá o pássaro.”
Jiddu Krishnamurti
O exercício é permanecer com a percepção antes da palavra, o brilho, a forma, a cor antes do nome da cor. Depois de alguns segundos assim, note: quem está vendo? Há uma entidade separada do ver, ou há apenas visão acontecendo? A pergunta não precisa de resposta mas precisa ser sentida de verdade e quando é, sente-se um certo relaxamento de uma tensão que estava tão presente, que só agora percebemos.
Todas essas práticas tocam no mesmo ponto: a suposição de que existe um observador separado da observação. Isso é uma construção mental, não um fato, é uma camada adicional que a mente coloca sobre a experiência bruta como um filtro.
O estudo que Killingsworth e Gilbert 3 mostraram em Harvard, é uma referência importante. Ele mostra que a mente humana passa aproximadamente metade do tempo em outro lugar que não no que está acontecendo, viajando para o passado ou para o futuro, comentando, avaliando, planejando e que quando está em outro lugar, ela sofre mais, independente do que esteja fazendo.
O que as práticas contemplativas chamam de presença, é a experiência que existe antes dessa camada adicional de comentário, o acontecer sem o alguém que acompanha o acontecendo.
A linguagem sempre foi o problema. Para dizer “há percepção”, a gramática exige um sujeito. “Eu percebo.” A estrutura da frase já pressupõe um agente antes de qualquer investigação. A voz passiva é a melhor aproximação que a língua consegue fazer: é percebido, é sentido, está acontecendo.
O texto acabou de ser lido. Se você conseguir encontrar quem leu, me conta depois.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Mushin (mente vazia) e Flow (estado de fluidez) representam estados mentais de alta performance e foco pleno, onde o indivíduo age sem hesitação, medos ou distrações, agindo de forma instintiva e imersa no presente. Enquanto o Mushin é uma filosofia oriental (artes marciais/zen) de silenciamento mental, o Flow é o conceito ocidental de imersão total.






