Tela Vazia
Uma investigação sobre quem assiste ao próprio pensamento
Penso muito. Você também, basta reparar. É inevitável.
Às vezes me pego tentando aquietar a mente, desfocando, muitas vezes sem sucesso. É uma torrente contínua de ideias, lembranças, possibilidades, arrependimentos, esperanças e medos. Tudo vazio. Tudo sem a menor credibilidade, embora durante quase cinquenta anos eu tenha levado tudo isso com uma seriedade impressionante.
Um belo dia, parei de levar a sério tudo o que a minha cabeça produzia. Não foi bem uma decisão, estava mais para um cansaço de décadas acumuladas de pensamentos sobre pensamentos, planos sobre planos, preocupações empilhadas sobre preocupações que nunca se materializaram. Você conhece esse movimento: a mente pega qualquer coisa à sua frente, um e-mail sem resposta, uma conversa de ontem, uma conta no fim do mês, e transforma em roteiro completo de catástrofe ou salvação, tudo isso antes que o fato em questão tenha sequer decidido o seu desfecho. Esse pensar específico, esse que filosofa, antecipa, julga e não chega a lugar nenhum, pode ser dispensado a qualquer hora. Desde que você entenda de onde ele vem.
Para entender de onde vêm seus pensamentos, experimente isto agora: procure o lugar exato de onde vai sair seu próximo pensamento. Fique parado um instante e observe. O que você encontrou? Provavelmente nada. Silêncio antes da palavra. Um espaço sem borda que antecede qualquer conteúdo mental. É a mesma experiência de tentar pegar a sua própria mão com ela mesma, o instrumento e o objeto são a mesma coisa e a tentativa se desfaz antes de começar.
Outra forma de fazer isso é tentar identificar o pensador, esse personagem que durante muitos anos acreditei estar instalado atrás dos meus olhos, entre minhas orelhas, na minha cabeça, de onde a maioria dos ocidentais acha que vê e entende o mundo. Algumas tradições insistem que ele mora no coração ou no plexo solar. Cada escola tem um mapa, mas o território está vazio.
Os pensamentos surgem e se dissolvem por conta própria, da mesma forma que uma nuvem de chuva se forma no céu e some, indiferente a tudo. A diferença é que olhamos para o céu e vemos o céu com uma nuvem dentro, enquanto olhamos para a mente e achamos que somos a nuvem. Faz tempo que percebo o céu. Os pensamentos passam, incluindo os horríveis, os que durante décadas aceitei como definição de mim mesmo. Passam todos. O fundo não.
Há um exercício que gosto de propor: imagine que sua mente é uma tela de cinema. O filme muda, os personagens entram e saem, o drama se instala e se resolve, e você assiste a tudo isso com a certeza de ser o espectador, aquele que observa de fora, separado da história. Mas preste atenção nesse espectador por um momento. Tente localiza-lo. Onde exatamente ele está sentado? Você vai perceber que ele também é personagem, que a poltrona faz parte do filme, que o cinema inteiro, a tela, a luz, o escuro, o som, está acontecendo dentro do mesmo campo que você chama de você.
Não há fora. Nunca houve uma cabine de projeção separada da projeção. Você é o espaço onde esse conteúdo tem lugar e esse espaço não carrega nenhuma das histórias que se passam dentro dele.
Olho para esse campo e vejo o que estava aqui o tempo todo: o momento exato em que estou, sem a camada de comentário mental que durante décadas cobriu tudo o que eu via. E mesmo quando surge um pensamento ruim, ele passa pelo campo sem alterar o campo. A tela não guarda as cenas.
Antes do próximo pensamento, já estava tudo aqui.
“Sim, bem, você sabe, isso é apenas, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta.
Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas.
Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos.
O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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