Uma máquina para desaparecer
A ciência começa a medir o que a não-dualidade descreve há séculos
No meio de uma improvisação longa, Mike Gordon some de dentro de si mesmo. O baixista da banda Phish escreveu diários por anos tentando entender esse tipo de desaparecimento e o descreve por um detalhe físico preciso: durante cerca de cinco minutos, o reflexo de engolir saliva, que normalmente corre por conta própria fora do campo da atenção, parou. Para ele, esse esquecimento é o sinal mais confiável de que entrou fundo no estado.
A banda toca há mais de quarenta anos. Nesse tempo os músicos aprenderam a reconhecer o estado que o público também persegue nos shows, as horas de improvisação em que a música larga a partitura e passa a responder ao que acontece entre os corpos no palco. Gordon evita a palavra técnica. Prefere dizer que a banda “se encaixa” e escuta antes de execução, a mesma coisa que sustenta uma jam session de jazz no momento em que o tema combinado se dissolve e os instrumentos começam a conversar entre si, sem ninguém esperando a vez de tocar.
O que dá peso à fala de Gordon em recente entrevista é o trabalho de Greg Appelbaum, neurocientista da UC San Diego, que passou anos monitorando o cérebro de Gordon durante os shows. A pesquisa começa longe do eletroencefalograma. Antes de olhar o cérebro, o time precisa saber quando o estado ocorre, e cruza três leituras para isso: Gordon pisa num pedal quando sente que entrou, a plateia responde do seu jeito e Jared Slomoff, produtor de longa data da banda, reconhece de ouvido os momentos em que o som muda de qualidade. Só depois de as três leituras coincidirem eles voltam ao cérebro para ver o que estava acontecendo ali.
A resposta tem nome: hipofrontalidade transitória. Cai a atividade do córtex pré-frontal, a região que calcula e vigia o nosso próprio desempenho e sobem as ondas alfa, em torno de dez hertz, típicas de um cérebro que largou o controle fino e passou a operar mais perto do sensorial puro. O mesmo desenho aparece em cirurgiões no meio de uma operação que corre bem, o que tira o fenômeno do território exclusivo da música. Ele acontece em qualquer situação onde o vigia interno se cala por tempo suficiente para outra parte do cérebro assumir.
Nada disso chega por acaso. Gordon é categórico sobre o tempo que a banda levou construindo repertório e uma escuta afinada entre os mesmos quatro músicos, que tocam juntos há mais tempo do que muitos casamentos duram. A técnica migra para os bastidores quando ele entra no estado e abre espaço para essa outra parte operar sem interferência.
O paradoxo aparece no que Gordon faz com essa descoberta. Ele financia a pesquisa de Appelbaum e está construindo uma máquina, batizada Xen Box, que usa biofeedback para ajudar músicos a entrar no estado e ficar nele. Um homem montando engenharia e ciência para fabricar exatamente aquilo que só aparece quando a intenção de fabricar alguma coisa sai de cena.
Escrevo à máquina há anos. O teclado mecânico me impõe uma condição que o processador de texto no computador nunca impôs: a letra sai, fica marcada no papel e a única direção possível é seguir adiante. Perco a chance de voltar duas palavras atrás e trocar um adjetivo antes de a frase terminar de existir e sigo escrevendo. Isso tira do córtex boa parte do trabalho de pesar cada palavra antes de soltá-la e a página passa a receber o que eu deixei passar, sem o filtro que costuma a escolher por mim.
A não-dualidade descreve há séculos o mesmo observador, esse que examina cada pensamento antes de deixá-lo existir e não precisamos de eletrodo nenhum para reconhecê-lo. No palco ele é o músico medindo a nota certa antes de tocar. Na escrivaninha ele é a mão que corrige a frase antes de terminar de escrevê-la.
O estado de flow chega quando esse observador relaxa e o que sai do corpo, da boca ou da caneta deixa de carregar a assinatura de quem faz e guarda só o rastro de ter passado por ali.
Um baixista esquecido de engolir em Vermont e uma manhã inteira diante de teclas mecânicas, muito longe dali, contam a mesma coisa em instrumentos diferentes.
“Sim, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Você já trabalhou muito em si mesmo. Conhece os padrões, sabe nomear o que opera em você. E continua repetindo.
O trabalho que faço entra antes que o padrão se instale. Conheça a Fronteira Interior:






