Uma Tradução Chamada Eu
Frequência e vibração traduzidas em fronteira.
Pensamento, emoção, dúvida, medo. Minha história, meu nome, o país onde nasci, minha idade, quem eu amo. As experiências do dia comum e as que chamo de místicas por não ter outro jeito de descrever. Tudo isso que acontece diante de mim e ao meu redor e que, insisto em achar que me pertence, fechado longe do resto do mundo. Isso é o conteúdo. É o que vivo todo dia. Não fica. Surge, se desfaz. E cada vez me atinge de novo, com a mesma surpresa da primeira. O som só existe porque o silêncio o sustenta por trás. Sem o fundo, não há figura.
Não estou preso ao meu corpo nem aos meus pensamentos. Insisto em pensar que sou isso e é essa insistência, só ela, que me mantém dentro de um looping que começou antes de eu ter idade pra perceber que tinha começado. O outro virou ameaça. A vida, a disputa por uma linha de chegada que ninguém nunca viu, tudo herança do processo evolutivo. Nada mais, embora pareça tudo.
O que penso ser eu mesmo é uma espécie de decodificação. O cérebro filtra pra que eu funcione e o preço do filtro é a certeza de que o real é exatamente o que meus olhos entregam. Só que eles não veem nada. Captam frequência e luz, e alguém lá dentro traduz isso num objeto plantado na minha frente, separado de mim.
Antes de aprender a pensar, eu já tinha aprendido a dar nome às coisas. Copo. Mesa. Mãe. Tomada (essa custava bronca). Cada palavra virou uma cerca, cortando um pedaço do mundo do resto e prendendo esse recorte dentro de um som. Ninguém me mostrou o campo inteiro antes de ele vir picotado em nomes. Isso valeu para mesa e para o copo, mas bateu mais fundo em mim. Recebi um nome também. Aprendi a virar a cabeça quando alguém dizia aquele som e não percebi, ninguém percebe, que ele tinha acabado de desenhar uma fronteira ao redor de um pedaço específico do que sempre foi sem divisão. O recorte que passei a chamar de eu.
A gramática nem disfarça. Sujeito, verbo, objeto, alguém sempre agindo sobre alguma coisa. Aprendi a chamar o que vejo de “aquilo” e a mim de “eu” antes mesmo de saber ler. Essas duas palavrinhas já bastaram, não precisava mais nada. O resto veio depois, nome sobrenome, até virar hábito ver o mundo assim, aquilo que dura décadas se disfarça muito bem de realidade.
Acredito no que percebo. E é exatamente aí, dentro da própria crença, que a separação vira concreta e o mundo passa a ser visto a partir de uma versão em miniatura de mim, encolhida entre meus olhos e minhas orelhas.
Ninguém nasceu separado. Alguém só aprendeu a decodificar assim.
“O cérebro é uma espécie de filtro da Consciência.”
— Bernardo Kastrup
Essa versão miniatura de você, encolhida entre os olhos e as orelhas, decodifica o mundo assim desde antes de você aprender a duvidar dela.
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta.
Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Escrevo para lembrar disso.
O pretexto muda a cada texto, hoje um caso do cotidiano, amanhã uma ideia da física, mas o movimento por baixo é sempre o mesmo.
Escrevo o primeiro rascunho de tudo o que publico numa máquina de escrever, longe de telas, no calor do instante em que a ideia ainda não existe. A primeira revisão acontece no Google Docs, após a digitalização via scanner. Depois entra a inteligência artificial, editora exigente, revisando a ortografia e apontando a frase que falha e o vocabulário que engorda o que deveria ser simples. Os fatos citados passam pela mesma revisão e cada fonte é conferida direto na origem.
O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
Esse instante, nenhuma ferramenta pensa por mim.
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Atravesse a fronteira interior
Você já trabalhou muito em si mesmo. Conhece os padrões, sabe identificar o que opera em você. E continua repetindo.
O trabalho que faço, entra antes que o padrão opere. Uma pessoa por vez, cinco semanas.





