A arte sutil de editar a experiência
Uma conversa sobre a máquina, a linguagem e o esquecimento de quem somos
Entre o que acontece e o que dizemos sobre o que acontece, existe um intervalo curto, quase invisível. É ali que a máquina costuma assumir o comando. Este ensaio habita esse intervalo.
Além da tendência conhecida de organizar e viver nossas vidas em torno da prevenção do desconforto e da construção de zonas de segurança, em busca de um conforto perene, existe um movimento discreto impactando a forma como pensamos, falamos e nos explicamos. Ele aparece na linguagem cotidiana, na articulação quase automática das frases, numa palavra curta e socialmente neutra, dessas que raramente despertam atenção. Essa palavrinha de três letras é o “mas”. Quando ela surge, alguma coisa em nós se contrai. Tente reparar.
O “mas” funciona como um reflexo, uma reação automática daquilo que Gurdjieff chamava de máquina 1. A máquina comenta, ajusta, reorganiza. Ela opera por repetição, memória e condicionamento, sustentando a continuidade do personagem com uma eficiência notável. O “mas” é uma engrenagem central desse funcionamento, sempre pronto para manter a coerência interna enquanto preserva a sensação de “lógica e clareza”, coisas das quais nossa mente/ego gosta.
Quando digo por exemplo “estou animado com o ano que vem, mas…”, a experiência já foi interrompida. Ela apareceu inteira por um instante e, em seguida, foi reorganizada para caber numa narrativa que nos seja familiar.
O “mas” entra como edição imediata, remodelando aquilo que é vivido para que ele não ultrapasse certos limites implícitos. A máquina prefere interpretação a permanência. O contato prolongado com a experiência exige um espaço que ela raramente concede.
Isso fica evidente em situações banais. Alguém próximo diz algo que toca num ponto sensível, algo simples, direto, sem acusação. O corpo reage antes da frase seguinte existir. Há um aperto leve, um silêncio curto, um instante em que tudo ainda está aberto. Logo depois, o “mas” aparece. A resposta vem educada, articulada, aparentemente consciente. A conversa segue, os dois permanecem sentados à mesma mesa e mesmo assim alguma coisa se afastou. Não houve conflito, apenas um ajuste com o encontro sendo substituído por “gestão”.
Ninguém brigou, ninguém levantou a voz, ninguém discordou de forma aberta. Do ponto de vista social e psicológico, tudo correu bem. A conversa continuou civilizada, madura, funcional. É exatamente por isso que o gesto passa despercebido.
No instante em que o “mas” entra, a escuta deixa de ser inteira e passa a ser estratégica. A resposta já não nasce do impacto do que foi ouvido, mas de uma necessidade de manter equilíbrio, imagem, controle emocional, coerência narrativa. O outro ainda está ali, fisicamente presente, mas já não está sendo encontrado. Está sendo gerenciado. O que houve foi um ajuste interno.
Por isso, algo em nós se afasta mesmo sem conflito. Encontros pedem risco, silêncio, presença sem edição. Gestão pede eficiência, ajuste, continuidade. Quando um entra, o outro sai.
Esse gesto se repete em cenas ainda menores. Um cansaço aparece no meio do dia. O corpo pede pausa. O pensamento reconhece por um segundo e imediatamente adiciona um “mas agora não”, “mas só um pouquinho mais” ou coisa parecida. Nada dramático acontece. O dia segue funcionando e o corpo também, mas ali alguma coisa foi novamente colocada entre parênteses, por hábito. A máquina sabe continuar.
Esse movimento desloca nossa atenção para algo que é reconhecido, tocado, percebido, e logo transferido para um território mais conhecido e manejável. A frase avança, o raciocínio segue, a conversa continua, enquanto o ponto vivo se dilui para se perder em algum lugar daquele diálogo. O “mas” recompõe uma distância confortável, suficiente para que nada precise ser atravessado até o fim.
Na base desse funcionamento, dessa ‘lógica’, está uma suposição silenciosa, raramente examinada, a de um centro encarregado de administrar a experiência. Um ‘eu’ localizado em algum lugar, um ‘eu’ que organiza o que aparece, decide intensidades e impactos, regula permanências ou sequências. A partir dessa suposição, a vida se transforma num processo a ser gerenciado. Na visão não dual, essa separação surge como um hábito perceptivo sustentado principalmente pela linguagem e pela memória, não escrevo isso como fato, mas por experiência.
O “mas” sustenta esse hábito. Ele aparece sempre depois do acontecimento, como tentativa de uma reorganização tardia. A experiência já passou por ali. O “mas” chega para rearrumar o cenário, suavizar impactos, redistribuir sentidos. É um comentário posterior tentando assumir a posição original.
Quando essa suposição de centralidade, de separação, relaxa por termos alguma clareza e entendimento diretos, vivenciados, a necessidade desse tipo de intervenção diminui. A linguagem não exige correção consciente. O gesto perde força por falta de função. O que se evidencia é inclusão, como consequência natural de um olhar menos fragmentado.
Sensações, pensamentos e situações coexistem sem urgência de ajuste ou hierarquia. Não é mais ‘isso ou aquilo’, passa a ser o que sempre deveria ter sido, porque assim é: ‘isso E aquilo’. Tudo junto, tudo ao mesmo tempo agora, como dizia aquela música do Titãs.
As relações poderiam então, carregar menos tensão acumulada, os conflitos deixariam de ganhar camadas adicionais de explicação, as decisões não pediriam mais um debate interno prolongado para se legitimarem. A vida seguiria com seus desafios habituais, e a resistência automática a eles perderia intensidade. Grande parte do peso não está no que acontece, mas na tentativa constante de reorganizar o que acontece para que se alinhe a uma imagem prévia desejada inconscientemente. Ou conscientemente também.
Não quer dizer que temos que vigiar nossas palavras nem substituir construções linguísticas, porque isso só deslocaria o mesmo mecanismo para um outro nível. O ponto importante está em perceber o reflexo quando ele ocorre, reconhecer o gesto em ação e não interferir. A máquina segue operando, como sempre operou. O que precisa se dissolver é a crença de que ela ocupa o centro.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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George Ivanovich Gurdjieff (c. 1866–1949) afirmava que o ser humano vive, na maior parte do tempo, em um estado de adormecimento psicológico. Age, pensa, sente e decide de forma mecânica, reagindo a estímulos externos e impulsos internos sem real presença ou escolha consciente. A isso ele chamava de comportamento de máquina.
Para Gurdjieff, o homem adormecido é uma máquina que vive em "sonhos acordados", operando no automático, sem verdadeira consciência de si, mas pode despertar através da lembrança de si (auto-recordação), um estado de presença e consciência de seus próprios pensamentos e ações, desenvolvendo uma "máquina" mais consciente e evoluída. Ele ensinou que a vida comum é um sono, e o objetivo é despertar para uma consciência plena, usando exercícios para integrar os centros intelectuais, emocionais e motores, superando a condição de máquina.
Seu ensinamento ficou conhecido como o Quarto Caminho, uma abordagem que não se baseia no isolamento monástico, na negação do mundo ou em práticas exclusivamente corporais, emocionais ou intelectuais. O Quarto Caminho propõe o despertar em meio à vida comum, usando as situações do cotidiano como material para observação de si, lembrança de si e possível despertar da consciência.






