A Dobra vai ser uma experiência nova para mim.
Um livro vivo, escrito em tempo real, sobre as mudanças drásticas que começaram a operar no planeta desde 3.1.2026.
Quero tratar nestes textos semanais (que mais tarde serão transformados em um ebook), aspectos da nossa condição humana atual, sociedade, cultura e algo que parece estar se moldando em uma nova ordem geopolítica.
Não pretendo entrar em análises do que está acontecendo, considerando que nestes relatos de ficção histórica com elementos da ficção científica, meu ponto de vista é múltiplo (tempo e espaço são relativos) e habita 2026 assim como 2150. Venha comigo nessa jornada de descoberta e exploração mútuas, onde o conceito da não dualidade está presente como contexto e pano de fundo . Toda a semana um novo capítulo (ou dois) na seção “O Cronista” do menu de navegação.
Antes de tudo
A Dobra nasceu de um conto.
A Crônica da Grande Inversão 1 foi um reflexo imediato, uma tentativa de registrar algo que já estava no ar, mas ainda não tinha nome. Um texto curto, pontuado por imagens de colapso, rearranjos de poder e pela sensação difusa de que algo essencial estava se deslocando, não apenas no campo geopolítico, mas na maneira como passamos a nos perceber no mundo.
Quando o conto terminou, ficou claro que ele não havia encerrado nada. As perguntas que apareceram ali não cabiam mais em poucas páginas, nem se limitavam à ficção política ou à especulação histórica. O que começou como uma narrativa sobre inversões de poder revelou, quase sem aviso, uma camada mais profunda e mais incômoda: a forma como a condição humana reage quando as estruturas que nos organizam começam a falhar.
Expandir aquele conto não foi uma decisão estratégica nem um projeto calculado, na verdade foi uma necessidade minha. As provocações pediam mais espaço, mais tempo e uma escrita que pudesse acompanhar, no olhar específico do Cronista, o que estava acontecendo fora da página. À medida que o mundo segue se reorganizando, muitas vezes de forma abrupta e pouco disfarçada, vai ficando impossível tratar aquelas questões como algo encerrado ou distante.
Por isso, este livro não nasce pronto. Os capítulos serão publicados semanalmente, acompanhando o próprio ritmo de maturação do texto e, inevitavelmente, dialogando com a evolução real dos acontecimentos que seguem se desdobrando a partir de 2026. Junto a eles, algumas notas adicionais serão incluídas. Não serão comentários explicativos ou correções, estarão mais para registros paralelos, ecos do presente que continuam tensionando aquilo que a ficção tenta organizar na minha mente.
O que se forma aqui não é para ser uma obra fechada e sim um campo de observação contínua. Um lugar onde o que é narrado e o que está sendo vivido se aproximam o suficiente para provocar algum desconforto, inquietação e, às vezes, um breve vislumbre de algo que normalmente passa despercebido. A não dualidade funciona nesse texto como pano de fundo silencioso, nunca como tese ou resposta de nada além daquilo que se insinua quando a exaustão das narrativas habituais abre espaço para outra forma de ser e estar.
Capítulo 1: O Cronista
Eu trabalhava para as Nações Unidas quando aprendi, de forma nada espetacular, a diferença entre ver e registrar. À época, isso não me pareceu um problema, muito menos um dilema ético. Registrar era utilidade, era uma função que mantinha a engrenagem girando sem sobressaltos. Ver demais, ao contrário, sempre foi entendido como um risco, algo que comprometia a neutralidade e neutralidade era a moeda mais valorizada naquele ambiente, muito mais por conveniência operacional do que propriamente, digamos, convicção moral.
Meu trabalho não envolvia decisões finais, nem exposição pública, nem presença nas imagens que circulavam quando o mundo parecia se mover. Eu operava nos bastidores, num território onde a linguagem precede a ação e, muitas vezes, a substitui. Redigia relatórios, ajustava termos, alinhava versões. Transformava acontecimentos brutos em narrativas aceitáveis, suficientemente estáveis para que nada precisasse ser interrompido de imediato.
Oficialmente, a ONU ainda sustentava a imagem de um espaço de cooperação multilateral, um lugar onde diferenças eram mediadas e conflitos, contidos. Na prática, havia se tornado o ambiente onde a indignação era cuidadosamente administrada, onde cada palavra precisava caber dentro de acordos prévios, onde a preocupação era real, mas raramente acompanhada de risco. Eu era bom nisso. Sabia onde suavizar, onde substituir um verbo forte por outro mais palatável, onde transformar uma violação clara em um incidente e uma ameaça concreta em sinal de alerta.
Não escrevíamos mentiras. Produzíamos verdades que não exigiam ação imediata.
A sala de reuniões no vigésimo terceiro andar tinha aquela luz artificial que fazia tudo parecer acontecer fora do tempo - nem dia, nem noite, apenas o brilho constante das luminárias LED refletido na superfície da mesa de vidro. Eram quatro horas da tarde de uma terça-feira de janeiro quando nos sentamos para redigir a nota sobre a Venezuela.
Havia sete pessoas na sala, mas apenas três importavam naquele momento: eu, Martin Vasquez e a diretora adjunta, uma francesa chamada Dominique cujo sobrenome nunca consegui pronunciar corretamente. Os outros eram assessores júnior, ali para tomar notas e aprender o ofício.
Dominique abriu o laptop dela e projetou o rascunho inicial na parede. A primeira frase dizia: “O Secretário-Geral expressa grave preocupação com os eventos em curso na República Bolivariana da Venezuela.”
— Eventos em curso, disse Martin, inclinando-se para trás na cadeira giratória. Ele tinha o hábito de esticar as pernas debaixo da mesa quando estava prestes a dizer algo incômodo. — É assim que vamos chamar?
Dominique não tirou os olhos da tela.
— Você tem uma sugestão melhor?
— Invasão. Ocupação militar. Captura de um chefe de estado eleito.
— Eleito — ela repetiu, com aquele tom que não era exatamente irônico, mas que deixava claro que a palavra carregava muitas camadas para ser usada sem ressalvas.
— Reconhecido pela assembleia — completou Martin.
— Por parte da assembleia — corrigi, antes de perceber que estava entrando no jogo.
Ele olhou para mim com aquela expressão que eu já conhecia bem. Martin tinha vinte e nove anos, era argentino, falava quatro idiomas e acreditava, com sinceridade desconcertante, que as palavras ainda podiam fazer diferença. Eu tinha trinta e seis e já havia perdido essa ilusão, embora ainda não soubesse nomear o que a havia substituído.
— Certo — disse ele. — Então vamos escrever “eventos em curso” e todo mundo entende que estamos falando do quê, exatamente? De um terremoto? De um festival?
— Todo mundo entende — respondeu Dominique, digitando sem olhar para ele. — E é exatamente por isso que funciona.
— Funciona para quem?
Ela parou de digitar. Levantou os olhos. Havia cansaço naquele olhar, não irritação.
— Para todos que precisam assinar isso sem romper relações diplomáticas com Washington. Para todos que querem deixar claro que não aprovam, mas não querem ser o primeiro a dizer em voz alta. Para todos que ainda têm alguma margem de manobra e não querem perdê-la num gesto simbólico.
Martin cruzou os braços.
— E Maduro? Enquanto a gente escolhe sinônimos, ele está numa cela aqui perto.
— E você acha que ele não estará numa cela se escrevermos “invasão”? — Dominique fechou o laptop com mais força do que o necessário. — Você acha que uma palavra nossa vai libertá-lo?
Silêncio.
Foi um dos assessores júnior que quebrou o momento, uma mulher indiana cujo nome era Priya. Ela tinha um caderno de anotações na frente dela e estava sublinhando alguma coisa com uma caneta vermelha.
— E se usarmos “ação militar unilateral”? — sugeriu. — Pelo menos descreve o que aconteceu sem precisar chamar de invasão.
Dominique considerou.
— Pode funcionar.
Martin revirou os olhos, mas não disse nada. Eu percebi, naquele momento, que ele estava começando a entender o jogo e isso o estava destruindo por dentro. Havia algo doloroso em assistir sua reação.
— “Ação militar unilateral” — repeti, testando o peso da expressão. — É tecnicamente correto.
— E não ofende ninguém fatalmente — acrescentou Dominique, já digitando.
Martin se levantou. Foi até a janela, ficou olhando para fora, para o East River e o trânsito lento da First Avenue. Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Vocês percebem que isso é obsceno, né? O presidente dos Estados Unidos declarou, textualmente, que vai administrar os recursos da Venezuela. Petróleo. Ele disse petróleo. E a gente está aqui discutindo se deve usar “evento” ou “ação”.
— Sim — disse Dominique. — Eu percebo.
Ela não disse mais nada. Não precisava. Havia algo naquele “sim” que continha tudo: o reconhecimento da obscenidade, a aceitação da impotência, a decisão de continuar fazendo o trabalho mesmo assim porque alguém precisava manter o registro, mesmo que o registro fosse feito em código.
Martin voltou para a cadeira. Passou a mão pelo cabelo.
— Tá bom. Ação militar unilateral. E depois?
Trabalhamos por mais duas horas. Cada parágrafo era negociado, cada adjetivo pesado. “Apela” ou “solicita”? “Todas as partes” ou “os envolvidos”? “Diálogo” ou “resolução pacífica”? Havia uma gramática inteira ali, uma linguagem dentro da linguagem, e quanto mais tempo você passava naquele ambiente, mais fluente ficava nela.
No final, tínhamos dois parágrafos. Cento e vinte e duas palavras que expressavam preocupação, reafirmavam princípios, solicitavam contenção e não diziam absolutamente nada que pudesse ser usado como base para ação concreta.
Dominique enviou o texto para aprovação. Desligou o projetor. Guardou o laptop.
— Bom trabalho — disse ela, e havia algo genuíno naquilo, como se realmente acreditasse que havíamos feito o melhor possível dentro das circunstâncias.
Talvez tivéssemos.
Saí da sala com Martin. Fomos até a máquina de café no corredor, aquelas cápsulas superprocessadas que a ONU comprava aos milhares e que tinham gosto de papelão dissolvido em água quente. Ele preparou um expresso duplo. Eu peguei um chá.
— Como você aguenta? — perguntou ele, sem me olhar.
— Aguentar o quê?
— Isso. — Ele fez um gesto vago com a mão, abarcando o prédio inteiro, talvez o sistema inteiro. — Escrever essas merdas como se importasse.
Tomei um gole do chá. Estava quente demais e sem gosto.
— A alternativa é não escrever nada.
— Às vezes eu acho que seria mais honesto.
— Honesto para quem?
Ele não respondeu. Ficamos ali parados, segurando copos de plástico, olhando para a parede cinza do corredor onde havia um pôster desbotado sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Alguém havia rabiscado um bigode no rosto de uma criança sorridente.
— Você já pensou em sair? — perguntei.
— Toda semana. — Ele jogou o copo vazio na lixeira. — Mas pra fazer o quê? Trabalhar pra quem? No final, é tudo a mesma merda, só que com menos ilusão de que serve pra alguma coisa.
Eu poderia ter dito que ele era jovem, que aquilo passava, que a desilusão fazia parte do amadurecimento profissional. Mas eu tinha apenas sete anos a mais que ele e já não acreditava mais em nenhuma dessas frases.
— Pelo menos aqui a gente mantém o registro — falei, e soou oco até para mim.
Martin me olhou de um jeito estranho. Havia algo na expressão dele que eu não conseguia decifrar.
— Você realmente acha que alguém vai ler esses registros daqui a dez anos e pensar “que bom que eles escolheram as palavras certas”?
— Não sei o que vão pensar.
— Eu sei. — Ele enfiou as mãos nos bolsos. — Vão pensar que a gente sabia exatamente o que estava acontecendo e escolheu não fazer nada.
— Não escolhemos não fazer nada. Fizemos o que era possível.
— É. — Ele começou a se afastar pelo corredor. — Continua dizendo isso. Talvez uma hora você acredite.
Naquela noite, sentado no meu apartamento minúsculo em Queens, com a televisão ligada numa transmissão silenciosa da CNN, abri o laptop e reli a nota que havíamos escrito. Cento e vinte e duas palavras. Tecnicamente impecáveis. Diplomaticamente calibradas. Moralmente nulas.
Maduro estava numa prisão federal no Brooklyn, não muito longe de onde eu passava minhas noites - morar tem outro conceito para mim. A frota americana estava ancorada em La Guaira. Empresas petrolíferas já anunciavam “acordos de transição” com o novo governo interino que Washington havia permitido ser instalado, pelo menos por enquanto. E nós tínhamos produzido dois parágrafos de preocupação cuidadosamente modulada.
Fechei o laptop. Olhei para o reflexo da tela escura. Não vi nada que quisesse reconhecer.
Foi naquela noite, embora eu só fosse compreender muito tempo depois, que algo em mim começou a mudar. Não foi uma decisão consciente, nem uma ruptura dramática. Foi apenas a sensação crescente de que a linguagem já não descrevia o mundo como ele realmente é, simplesmente acomodava as coisas. E eu havia me tornado especialista em acomodação.
Três semanas depois, quando o relatório sobre São Paulo chegou à minha mesa, eu já sabia que não haveria eufemismos suficientes para o que estava por vir.
Mas naquela noite de janeiro, com a televisão murmurando imagens de porta-aviões e manifestações dispersadas a gás, eu ainda acreditava que registrar corretamente os fatos seria suficiente.
Ainda acreditava que cumprir bem o ofício bastaria.
Ainda não entendia que, enquanto escolhíamos sinônimos, o mundo já havia decidido quem ficaria protegido pela linguagem e quem ficaria exposto a ela.





Gostei muito! Vou acompanhar bem de perto Cadu 👏🏽👏🏼👏🏿
Muito bom! Ansiosa pelo próximo