Três drones da Amazon Logistics sobrevoam a ocupação às seis da manhã. Entrega de pacotes para os níveis superiores, aqueles que ainda têm crédito suficiente no sistema para receber objetos físicos em vez de apenas licenças digitais de uso temporário. O barulho acorda todo mundo, como sempre, as crianças correm para a laje esperando que alguma caixa caia, que algum drone tenha falha de navegação e largue carga no lugar errado.
Não cai nada. Nunca cai. O sistema de geolocalização é preciso demais, os drones aprenderam a trajetória perfeita depois de milhões de entregas mapeadas por uma inteligência que não esquece e não erra.
Desço da laje do container onde durmo e atravesso a viela até o ponto de acesso comunal. Preciso baixar arquivos da nuvem histórica antes que minha cota mensal de dados se esgote. Material sobre 2026, sobre o ano em que tudo mudou de maneira irreversível, sobre Elias Drummond e os documentos que ele descobriu. A tela do terminal público pisca com lentidão calculada para economizar energia, cada segundo de processamento contabilizado contra o limite coletivo da comunidade e navego pelos menus em português reformado até encontrar a seção de arquivos liberados, pré-fragmentação.
A linha de controle fica a quarenta minutos de caminhada da ocupação. Atravesso todos os dias para chegar ao Museu, todos os dias passo pelo checkpoint norte operado pela Forever Defense Corporation. O scanner me identifica assim que entro na zona de detecção, leitura facial automática cruzada com dados biométricos do chip subcutâneo que todos carregamos desde o Acordo de Reorganização Populacional de 2087. O guarda hoje é jovem, uniforme impecável, rifle de plasma discreto na lateral da cabine blindada. Ele nem olha para mim enquanto a tela à sua frente processa minha identidade, histórico de deslocamento, índice de conformidade social.
“档案?” ele pergunta em mandarim antes de corrigir para o português reformado. “Arquivo de novo?”
“Pesquisa histórica,” respondo mantendo as mãos visíveis como protocolo exige.
Ele verifica a tela, entediado. Para ele isso é rotina, mais um acadêmico cruzando para mexer em papéis velhos que ninguém além de especialistas consegue ler. Ele não sabe que o prédio para onde vou costumava ser ministério de um país que existiu, que esta avenida já foi eixo de poder soberano, que Brasília significava algo além de zona administrativa dividida entre corporações.
O sistema apita duas vezes. Vermelho.
— Pare aí — ele ordena em português reformado com sotaque corporativo, aquele falar sem sotaque que treinaram para eliminar qualquer marca regional.
— É erro do sistema — digo mantendo as mãos visíveis. — Cruzo todos os dias, acesso autorizado pelo Museu da Soberania Perdida.
— Encosta na parede — ele repete sem alterar o tom, a mão direita descansando agora no coldre do rifle. — Mãos onde eu possa ver.
Obedeço. A parede de concreto está fria, úmida da chuva noturna. Ele sai da cabine e me revista com eficiência mecânica, movimentos precisos aprendidos em treinamento corporativo. Passa um scanner portátil pelo meu corpo, verificando o chip implantado, procurando dispositivos não autorizados. Encontra apenas a credencial física do Museu que carrego por um hábito que não consigo largar e um caderno de notas em papel. Não consigo sair de casa sem.
— Por que papel? — ele pergunta como se papel fosse contrabando suspeito, segurando o caderno entre dois dedos como se estivesse contaminado.
— Pesquisa histórica. Arquivos antigos. Preciso anotar.
Ele folheia o caderno procurando algo que justifique a detenção, que valide a parada. Encontra apenas notas em português pré-reforma, letra cursiva que ele provavelmente mal consegue decifrar.
— Fica aqui.
Volta para a cabine e digita algo no sistema. Dois minutos de espera enquanto eu permaneço com as mãos na parede. Pessoas passam pela outra cancela, a de retorno para a zona sul, ninguém olha. Checkpoint é rotina, detenção é rotina, humilhação burocrática é parte do custo de cruzar entre administrações territoriais.
O sistema finalmente confirma. Verde. O erro não é explicado, nunca é.
— Pode passar — ele diz sem se desculpar. — Próxima vez deixa o papel em casa. Levanta suspeita desnecessária.
Pego o caderno das mãos dele. A cancela se abre com precisão mecânica. Caminho pelo Eixo Monumental até o Museu, a arquitetura modernista persistindo como esqueleto do que foi, prédios de Niemeyer ainda de pé cercados por construções corporativas mais recentes, vidro e aço substituindo concreto onde edifícios originais desabaram e ninguém teve interesse em reconstruir de forma fiel ao projeto original.
A humilhação ainda queima na pele. O guarda não sabe que o prédio para onde vou costumava ser um ministério de um país que existiu, que esta avenida já foi eixo de poder soberano, que Brasília significava algo além de zona administrativa dividida entre corporações. Para ele eu sou apenas mais um residente de ocupação cruzando para trabalho aprovado, corpo a ser processado pelo sistema de controle, suspeita permanente registrada no chip que carrego sob a pele do punho esquerdo desde que nasci.
Abro o arquivo físico 2026-ONU-BR-CLASS-417 quando chego na sala de pesquisa. O cheiro de papel velho invade o espaço. Cento e vinte e três anos entre o dia em que estes documentos foram impressos e o momento em que meus dedos tocam a borda amarelada da primeira página. O tempo como abismo, como vertigem.
A sala fica no subsolo do que antes era o Itamaraty, agora Museu da Soberania Perdida, nome oficial que carrega ironia involuntária porque ninguém mais entende o que a palavra soberania significava quando o prédio foi construído. Tenho permissão especial para acessar material classificado porque sou um dos últimos que ainda lê português pré-reforma com fluência nativa, por ter passado anos na Confederação aprendendo com os velhos que guardaram a língua original.
Elias Drummond. O nome aparece quarenta e sete vezes neste único arquivo. Tenho três biografias dele na minha mesa, cada uma pintando pessoa completamente diferente usando os mesmos documentos como prova. A história como campo de batalha onde os mortos não podem se defender das interpretações que os vivos constroem.
Fecho os olhos e algo acontece. Janeiro de 2026, saindo daquela reunião com Okafor, documentos na pasta, ainda achando que informação muda alguma coisa. A sensação é estranha, deslocada, como memória que não deveria estar acessível. Toco a borda do papel amarelado e sinto o peso da pasta de couro que ele carregava, que carreguei, que alguém carregou naquele dia impossível de alcançar através do tempo linear.
Olho para minha mão segurando o documento. Por um instante a pele parece diferente, mais jovem talvez, dedos sem as cicatrizes que acumulei nos últimos anos. Pisco e a mão volta a ser minha, a mão deste corpo, desta localização temporal. Mas a sensação persiste, deslocamento entre o que vejo e o que sinto, entre quem observa e através de qual aparato a observação acontece.
Abro os olhos. A sala de pesquisa, o subsolo, 2149. O ar carrega umidade característica de Brasília na estação chuvosa, cheiro de concreto molhado que entra pelas janelas estreitas. O cheiro detona algo, memória que não é minha mas também é, Nova York em março, primavera começando, Elias caminhando de metrô até a ONU, pasta debaixo do braço, ainda confiando em procedimentos.
A sensação não é metafórica. É concreta, física, me desorienta. Memória sensorial atravessando tempo, redemoinhos diferentes do mesmo rio acessando experiências uns dos outros quando a ilusão de separação racha por um momento.
Os documentos que ele recebeu de Okafor estão aqui, digitalizados e também preservados no papel original. Planos para fragmentação territorial do Brasil, cronogramas de desestabilização econômica. Tudo que descobriu naquela sala em janeiro de 2026 está registrado nestes arquivos que agora qualquer pesquisador com credencial apropriada pode consultar. A verdade se tornou história, o segredo virou domínio público.
Há uma lacuna nos registros. Entre a reunião com Okafor em 21 de março e a próxima entrada datada em 4 de abril, quatorze dias desaparecem da documentação oficial. Nenhum relatório de Elias, nenhuma comunicação com Sofia ou com o pai. Duas semanas onde simplesmente deixa de existir no arquivo institucional, e quando reaparece já está em São Paulo, já iniciou contato com jornalistas, já tomou decisões que vão selar o destino dele.
Deixa de existir. Deixo de existir. A linguagem escorrega entre pronomes como se a distinção importasse menos do que finjo acreditar. Estudo o passado dele ou lembro do meu próprio? A pergunta parece absurda quando formulada assim, clara demais, binária demais. A experiência real é outra coisa, é uma certa porosidade entre quem observa e o que é observado, a sensação de que o arquivo não está fora mas dentro, de que memória é o reconhecimento de algo que nunca deixou de estar presente, não só recuperação de informação.
Preciso descobrir o que aconteceu nesses quatorze dias. Preciso porque meu trabalho é preencher lacunas, talvez porque sinto que esses dias vão trazer alguma informação ou entendimento essencial, alguma virada que explica tudo que veio depois. Os documentos seguintes mostram um homem diferente, um homem que já decidiu. O que mudou entre 21 de março e 4 de abril?
Há rumores de arquivos paralelos mantidos pela Confederação, material que nunca foi digitalizado. Testemunhos orais gravados, cartas pessoais que não entraram no registro da ONU, diários que ele teria mantido. Se eu quiser respostas reais, vou precisar cruzar para território livre de novo, vou precisar pedir acesso aos velhos que guardam essa memória como tesouro privado, como resistência ao monopólio corporativo sobre interpretação do passado.
Fevereiro de 2149. Cento e vinte e três anos depois que Elias saiu daquela sala carregando documentos que revelavam o fim do Brasil como nação soberana. Depois que saí. A correção mental acontece automática, profissional, mantendo a distância entre pesquisador e objeto de pesquisa. Mas a sensação física não obedece o ajuste, continua sendo a memória da pasta de couro pesada na mão, do corredor da ONU sob os pés, de um medo visceral subindo pela coluna.
O corpo como aparato temporário onde consciência se localiza. Elias em 2026 era localização específica, parâmetros particulares de experiência sensorial dentro do campo maior que não tem nome adequado em nenhuma língua. Eu em 2149 sou outra localização, outros parâmetros, mas o campo é o mesmo, a água é a mesma água, só o redemoinho tem forma diferente e se imagina separado do rio.
Isso não é metáfora. Isso é a sensação concreta quando toco os documentos dele e a fronteira entre lembrar e imaginar desaparece, quando leio suas palavras e não sei mais quem está lendo e quem escreveu, quando a ilusão de separação temporal racha e deixa vazar algo que sempre esteve lá embaixo da construção mental de passado e futuro como categorias estáveis.
Guardo os papéis na pasta e saio do Museu. Lá fora, Brasília continua existindo como cidade, não como nome (agora é apenas CAZ - Central Administrative Zone), pessoas continuam vivendo como conseguem, o Plano Piloto original agora cercado por ocupações que se espalharam por quilômetros além do projeto modernista.
A distopia é tão completa que deixou de parecer distopia, virou só a realidade, o presente contínuo sem memória de alternativa possível.
Salvo quando você encontra os arquivos. Salvo quando lê os documentos de 2026 e percebe que tudo isso foi escolha, foi planejado. A raiva que isso gera é combustível perigoso, razão pela qual os arquivos são controlados, razão pela qual só pesquisadores credenciados têm acesso.
Caminho de volta para a ocupação pensando em atravessar salas, carregar pastas, acreditar em procedimentos. A distância entre aquele mundo e este parece intransponível, vertigem temporal que deixa tudo que foi feito parecer sonho de outra espécie.
Amanhã vou solicitar permissão para uma viagem à Confederação. Vou procurar os arquivos paralelos, vou tentar descobrir o que aconteceu nesses quatorze dias que desapareceram do registro oficial. Talvez não mude nada, seja só necessidade de dar ordem narrativa ao caos histórico. Ou talvez esses dias contenham a chave para entender como chegamos aqui, como o Brasil virou isso.
Penso. Pensava. Pensei. Os tempos verbais se confundem quando você deixa de acreditar que são pessoas diferentes separadas por abismo cronológico, quando você começa a suspeitar que são localizações temporárias de algo que não cabe dentro da ilusão de identidade individual, que não nasceu em 1993 nem vai morrer quando este corpo parar, que observa através de todos os corpos que já achou que era e que nunca foi realmente porque observador não pode ser objeto observado, porque consciência não pode ser conteúdo da consciência, porque o redemoinho não é a água mas também não é nada além da água.








Ta ficando muito legal, Cadu! Acho que uma hora vale uma news para falar sobre o processo criativo. Adoraria saber mais!
Concordo com o comentário da Bruna! Compartilhe sua inspiração conosco! O Stephen King tem um livro interessante onde ele fala do seu processo criador "Sobre a escrita", é o título. Imaginar um final não significa necessariamente que ele se concretizará. Isso me lembra de "O mundo de Sofia", onde os personagens alteram seu próprio destino, construindo-o nos lapsos de consciência do autor que, muito cansado, escrevia em um estado entre sono e vigília. O processo de escrita de ficção é interessante, parece-me que em determinado ponto da narrativa, quando enredo e perfis já foram definidos, tudo acontece com mínima interferência do autor, e se ele tentar forçar uma situação poderá soar falsa até mesmo para ele próprio. Por isso, alguns eventos podem surpreendê-lo por serem inesperados até o momento que se revelam no fluxo da escrita.
Apenas compartilho essas dicas porque amo o processo de criação de histórias e estou adorando a sua (desejando, claro, que continue apenas na ficção, ou seja, como estória mesmo, mas escrevo com "H" porque com "E" revela idade rsrs). Que venha o capítulo 6!
Para concluir, Monteiro Lobato frequentemente descrevia o processo de criação de Emília como algo autônomo, onde a boneca de pano "aparecia" e ditava suas próprias frases atrevidas, escapando ao controle do autor.