Compro o jornal no quiosque de Guarulhos antes de embarcar, hábito de quem passou anos lendo imprensa em papel, porque papel não rastreia o que você leu e até quando. Pago, dobro o jornal, embarco.
Sento na janela. A mochila vai para o espaço debaixo do assento da frente, entre os meus pés, onde vai ficar durante as seis ou mais horas de voo, porque não consigo mais colocá-la em compartimento nenhum onde não esteja ao alcance das minhas mãos. A aeronave taxia na pista, acelera, levanta e São Paulo some embaixo de uma camada de névoa cinzenta que a qualquer hora de qualquer dia do ano cobre a cidade como um cobertor de fumaça.
Abro o jornal na página sete.
A matéria ocupa metade da página, com foto de uma detenção numa rua nos Estados Unidos, dois homens fardados segurando um terceiro contra uma grade metálica. O título: *ICE expande operações para cidadãos americanos; juristas alertam para uso inconstitucional do Exército.
Leio devagar. O que a matéria descreve são operações do serviço de imigração americano que nas últimas três semanas passaram a incluir detenções de cidadãos nascidos em solo americano, filhos de imigrantes em sua maioria, mas não exclusivamente. A justificativa, segundo porta-vozes do governo, é “verificação de status de lealdade nacional” em contexto de “emergência de segurança interna.” O Posse Comitatus Act, lei de 1878 que proíbe uso das forças armadas em operações policiais contra civis americanos, foi suspenso por decreto executivo de emergência para uma ação em Washington. Três congressistas republicanos pediram revisão judicial. A Suprema Corte ainda não se pronunciou.
Dobro o jornal na mesma página e fico olhando pela janela.
Abaixo de nós, o Brasil começa a aparecer debaixo das nuvens. Mato Grosso, provavelmente, aquela geometria de blocos regulares que vista do ar parece mapa de território já dividido em lotes por quem ainda não chegou mas que já mandou o agrimensor na frente.
Groenlândia. Ucrânia. Gaza. Irã. E agora isso, que é diferente de tudo porque é dentro. Cidadãos americanos detidos por forças americanas sem mandado, sem acusação formal, sem prazo. Exército em Washington contra civis numa rua de nome que eu reconheço por ter passado nela duas vezes. A arquitetura é a mesma que eu venho traduzindo em notas diplomáticas há sete anos, a linguagem da emergência que justifica o que em condições normais seria indefensável, só que desta vez o experimento está acontecendo no laboratório principal, não nas filiais.
O avião atravessa uma bolsa de turbulência. Um bebê chora no assento atrás de mim. A aeromoça para de empurrar o carrinho de bebidas.
Pego a caneta no bolso e na margem do jornal escrevo: modelo sendo testado em casa. Olho para o que escrevi. Guardo a caneta. Dobro o jornal.
Então algo acontece que não sei bem como descrever exatamente porque não tenho vocabulário para isso ainda. Déjà-vu talvez?
Não é uma visão, nem alucinação, nem sonho. Me dá a sensação de um “curto circuito” cerebral, como o momento em que você lê uma frase já conhecida e percebe que o sentido sempre esteve lá mas você nunca tinha olhado direito, algo que encosta por um segundo e some antes de poder ser segurado. Por talvez dois ou três segundos, tenho a certeza física de que este momento já foi lido. Que estas páginas que estou segurando, esta caneta, esta margem com duas palavras escritas de minha mão, já existiram em outro tempo na mão de alguém que as lia com o mesmo peso que eu sinto agora. A sensação não tem imagem, não tem rosto, não tem lugar nem tempo. Sinto um peso e uma estranha calma de reconhecer algo que, teoricamente, eu não deveria poder reconhecer.
Passa em dois, três segundos.
O bebê para de chorar. O avião nivela. O carrinho de bebidas segue em frente.
Olho pela janela. A floresta já começou embaixo de nós, aquela massa verde contínua que a partir de certo ponto não tem mais fim identificável, parece ter sempre existido e parece que sempre vai existir, o que é provavelmente impossível, mas é o que parece a trinta mil pés de altitude 1no final de março de dois mil e vinte e seis, voando para Manaus com jornal dobrado no colo e mochila entre os pés e a certeza crescente de que o que está acontecendo não é uma série de crises separadas mas uma única coisa acontecendo em vários lugares ao mesmo tempo.
O avião começa a descer.
O aeroporto de Manaus cheira a suor e combustível de avião misturado com um odor orgânico que vem de fora, da floresta que cerca a cidade, um cerco verde que a engenharia nunca conseguiu empurrar longe o suficiente. Desço do avião depois de seis horas e meia (a escala em Brasília atrasou) num voo de São Paulo onde dormi sentado com a mochila entre os pés porque não consigo mais largá-la em compartimento nenhum e o calor entra pelos poros antes mesmo de eu pisar no finger, calor úmido que cola na pele e transforma a respiração em esforço consciente.
No saguão de desembarque, três homens de colete bege com logotipo da Global Environmental Solutions retiram malas de equipamento da esteira. Caixas de alumínio com etiquetas em inglês, mochilas táticas tentando parecer civis, botas de trilha que nunca pisaram em trilha nenhuma. Um deles fala ao celular com sotaque do meio-oeste americano, voz baixa, olhando ao redor com aquela atenção periférica que não é de biólogo nem de consultor ambiental, é de quem fez treinamento de reconhecimento de terreno antes de qualquer curso de ecologia. Outro carrega case de drone que custa mais do que meu salário de três meses na ONU.
Consultores ambientais. É assim que entram. Com credenciais de pesquisa, autorizações de sobrevoo para mapeamento de biodiversidade, parcerias com universidades locais que precisam do dinheiro e fazem as perguntas erradas ou nenhuma pergunta. O mesmo vocabulário que eu passei anos traduzindo em notas diplomáticas, agora materializado em homens de colete bege desembarcando em Manaus com cara de quem veio trabalhar.
Pego um táxi até um hotel perto do centro, lugar sem nome na fachada que aceita pagamento em dinheiro sem pedir documento. O quarto tem ventilador de teto que faz barulho de motor de barco e uma janela que dá para um beco onde alguém vende peixe frito num carrinho de alumínio. Sento na cama e abro o celular. A mensagem de Paula com as coordenadas de Mayara continua lá, com os números que apontam para um lugar que só existe no mapa se você souber onde procurar.
Ligo para o número que Paula me deu.
— Quem é? — voz feminina, direta, sem cumprimento.
— Elias Drummond. Paula Mendes me deu seu contato.
Silêncio de três segundos. Escuto barulho de vento, motor distante, pássaros que não reconheço.
— Você está em Manaus.
Não era pergunta.
— Cheguei agora.
— Amanhã de manhã tem voo para Boa Vista. Seis e meia. Companhia regional, balcão no aeroporto. Paga em dinheiro. Me encontra na saída do aeroporto de Boa Vista, vou estar numa Hilux branca com adesivo da Sesai. Traz só o que cabe nas costas.
— Mayara, eu preciso explicar o que...
— Paula já explicou. Amanhã.
Desliga.
Fico olhando para o celular. O ventilador gira acima de mim com a regularidade indiferente das coisas que funcionam sem se importar com o que acontece embaixo delas. Penso em ligar para Sofia, dizer que estou em Manaus, que vou entrar em território Yanomami amanhã, que estou seguindo coordenadas que uma mulher praticamente desconhecida me deu por telefone numa conversa de trinta segundos. Penso e não ligo. Cada pessoa que sabe onde estou é um fio que pode ser puxado.
A noite de Manaus entra pela janela com cheiro de rio e diesel. Durmo com a mochila debaixo do travesseiro, documentos encostados no meu corpo como se proximidade física pudesse proteger papel de forças que operam em escala continental.
Boa Vista é menor do que eu esperava, cidade espalhada no meio de um lavrado que parece a savana africana, tudo plano e seco comparado com a Manaus que deixei duas horas atrás. O aeroporto cabe inteiro numa construção que em São Paulo seria terminal de ônibus intermunicipal. Saio carregando a mochila e procuro a Hilux branca.
Ela está encostada no meio-fio com motor desligado, janela aberta, adesivo desbotado da Sesai na porta. Mayara está de pé ao lado do carro, camiseta preta lisa, jeans gasto, tênis de trilha que estes sim já pisaram em toda trilha que existe. Cabelo longo preso num rabo de cavalo prático, rosto que não sorri quando me vê, olhos castanhos escuros que me avaliam com a velocidade de quem decide rápido e muda de ideia devagar.
— Elias.
— Mayara.
Ela olha para a mochila.
— Só isso?
— Só isso.
Abre a porta do passageiro com um gesto. Entro. Ela dá a volta, liga o motor, sai do estacionamento sem falar. O ar condicionado não funciona, as janelas ficam abertas, o vento quente entra trazendo poeira vermelha que gruda em tudo.
Seguimos vinte minutos em silêncio. Saímos da cidade, a estrada fica reta e vazia, lavrado dos dois lados, céu imenso sem uma nuvem. Ela dirige com uma mão no volante, a outra apoiada na janela, conhece cada buraco do asfalto sem precisar olhar.
— Paula disse que você tem documentos - ela fala sem tirar os olhos da estrada. — Planos de ocupação, cronogramas, nomes.
— Tenho.
— Vi parte do que vazou. Manto Verde, Canopy Shield. Bonitos nomes para uma operação de roubo.
— Tem mais. Muito mais do que vazou publicamente.
— Sei. Por isso estou aqui.
Silêncio de novo. O lavrado passa pela janela, monotonia de capim baixo e árvores retorcidas que parecem crescer contra a vontade do solo. Uma garça branca levanta voo de uma poça na beira da estrada, movimento lento que contrasta com a velocidade do carro.
— Você trabalhou na ONU — ela diz.
— Sete anos.
— Eu trabalhei três. Departamento de Direitos Indígenas. Relatório sobre desmatamento na Amazônia, dois mil e dezenove. Passei oito meses compilando dados, entrevistando lideranças, fotografando áreas devastadas. O relatório ficou lindo. Gráficos, mapas, recomendações. Publicaram com capa bonita, distribuíram em conferência, todo mundo aplaudiu. Três meses depois o desmatamento aumentou dezoito por cento.
— Me lembro. Eu também estava lá.
Ela olha para mim pela primeira vez desde que entrei no carro.
— Sabe por que saí?
Espero.
— Eu vi que tava servindo de embalagem. Dando cara bonita pra uma coisa que já tinha sido decidida antes de eu sentar na cadeira. Os dados que eu levantava viravam ferramenta deles. Usavam os nossos próprios números pra calibrar o ritmo. Devagar pra não assustar, rápido o suficiente pra não ter volta quando alguém percebesse.
A estrada faz uma curva. No horizonte, a linha verde da floresta aparece como parede no fim do mundo plano.
— Voltei para o território em dois mil e vinte. Ajudei a montar o Conselho da Floresta em dois mil e vinte e três. Rede de comunicação entre povos, decisões por consenso, rádio de ondas curtas e mensageiros a pé quando precisa. Nada digital que possam interceptar.
— Paula disse que vocês já sabiam o que vinha.
Mayara ri. Primeira vez. Riso curto, seco, sem alegria.
— Quinhentos anos sabendo o que vem. A diferença agora é a escala e a velocidade. Antes levava décadas, agora são meses. O vocabulário mudou, a gramática é a mesma.
Ela reduz a velocidade. Estamos entrando numa cidade pequena, casas baixas, ruas de terra vermelha, uma igreja evangélica a cada dois quarteirões.
— Hoje à noite você dorme em Boa Vista. Amanhã cedo a gente pega um voo até a pista da Sesai dentro do território, uma hora de monomotor. De lá, barco pelo Mucajaí até a aldeia. Umas cinco, seis horas dependendo do rio. Você vai ter tempo de pensar no caminho.
— Pensar em quê?
— No que você está disposto a fazer com o que sabe. Informação vocês têm de sobra. O que falta é outra coisa.
Ela não diz o que é. Estaciona em frente a uma pousada simples, paredes de tijolo aparente, placa escrita à mão.
— Sete da manhã no aeroporto. Não atrasa.
Saio do carro. Ela arranca antes de eu fechar a porta direito.
Fico parado na calçada com a mochila nas costas, poeira vermelha nos sapatos, olhando a Hilux desaparecer no fim da rua. O sol de Roraima pesa nos ombros como coisa sólida. Entro na pousada, peço quarto, pago em dinheiro. O quarto tem rede em vez de cama. Deito e olho para o teto de madeira onde uma lagartixa caça insetos com uma paciência absoluta, movendo-se em pausas calculadas que eu invejo.
Abro o caderno. Escrevo a data, 27 de março de 2026 e depois fico com a caneta suspensa porque não sei como registrar o que estou vivendo. Nos últimos seis dias minha vida se desfez em sequência acelerada. Apartamento invadido, fuga de Nova York, voos comprados em dinheiro, jornalistas que recusaram ouvir, advogados que calcularam o risco e declinaram, uma ex-colega da ONU que me encontrou num mercado municipal para me dar coordenadas de uma mulher Yanomami que acabou de me largar numa pousada em Boa Vista como se estivess entregando uma encomenda.
Escrevo: “Informação vocês têm de sobra. O que falta é outra coisa.”
Fecho o caderno. A lagartixa captura um inseto com precisão cirúrgica. Durmo.
O monomotor Cessna levanta da pista de Boa Vista às sete e quinze com o piloto, Mayara, eu e três caixas de medicamento amarradas com corda no espaço de carga. O piloto é um caboclo de sessenta anos que não disse o nome e não perguntou o meu, ligou os motores, verificou instrumentos e decolou com a naturalidade de quem faz isso todo dia porque faz isso todo dia. Mayara sentou na frente, ao lado dele. Eu fiquei atrás espremido entre as caixas e a janela de acrílico riscado.
Abaixo de nós o lavrado de Roraima vai cedendo lugar à floresta, transição que acontece sem aviso, capim seco e árvores esparsas de repente substituídos por massa verde contínua que se estende em todas as direções até onde a vista alcança, que é longe, porque a sete mil pés de altitude 2 o horizonte parece infinito e a floresta parece infinita e a sensação é de estar sobrevoando um oceano verde onde não existe referência de escala, um rio que visto do chão teria duzentos metros de largura e aparece como um fio prateado entre as copas das árvores.
Quarenta minutos de voo. Mayara aponta para algo lá embaixo e o piloto inclina o avião para a esquerda, curva suave que revela uma clareira com pista de terra batida vermelha cortando a floresta como uma cicatriz recente. A pista da Sesai, o posto de saúde que atende aldeias num raio de duzentos quilômetros. O Cessna desce com solavancos que testam minha confiança na engenharia de pequenas aeronaves e para no fim da pista onde três pessoas esperam à sombra de uma estrutura de madeira e lona.
Desço com as pernas meio bambas. O ar é outro. Diferente de Manaus, que é calor de cidade com escapamento de carro e concreto irradiando, aqui é calor de matéria viva respirando ao redor, umidade que vem de dentro das árvores, cheiro de terra molhada e folha em decomposição e também alguma coisa floral que não consigo identificar. O som é diferente. Manaus tem buzina, Boa Vista tem vento. São camadas de som sobrepostas, pássaros em frequências diferentes, insetos zumbindo, o rio que não vejo ainda mas escuto ao longe e abaixo de tudo uma espécie de silêncio que não é ausência de barulho, mas outra coisa que meu ouvido de cidade ainda não sabe processar.
Mayara fala em Yanomami com as três pessoas que esperavam, conversa rápida, gestos apontando rio abaixo. Um dos homens olha para mim, olha para Mayara, faz uma pergunta que pelo tom parece ser “esse é o cara?” e pela resposta curta dela parece ser “é, vamos.”
O barco é de alumínio, seis metros, motor de popa que já viu melhores dias. Cabe nós quatro mais as caixas de medicamento mais dois tambores de combustível extra. Mayara senta na proa, eu no meio entre as caixas, os dois homens na popa, um no motor, outro vigiando o rio. Entramos no Mucajaí contra a correnteza, o motor trabalhando em rotação alta, a margem passando devagar porque subir rio na Amazônia é exercício de paciência mecânica.
As primeiras duas horas são silêncio e rio. A floresta dos dois lados forma uma parede vertical de verde que sobe trinta, quarenta metros acima d’água, troncos enormes com raízes que entram no rio como dedos enormes mergulhando, copas que se tocam sobre nossas cabeças em alguns trechos formando um túnel onde a luz fica esverdeada e o ar mais frio. Araras passam acima de nós em pares, azuis e vermelhas gritando. Um jacaré desliza da margem para dentro da água quando o barco se aproxima, movimento tão limpo que nem causa reação na água.
Mayara não fala. Os dois homens não falam. O motor faz seu barulho constante e eu fico observando o rio e a floresta e tentando registrar o que estou vendo com o vocabulário que eu tenho, que é insuficiente porque foi calibrado para salas de reunião e documentos diplomáticos e cidades onde a natureza é o que sobrou depois que o concreto parou de avançar. Aqui é o contrário. Aqui o concreto nunca chegou e a floresta continua sendo o que era antes de alguém inventar a palavra floresta.
Na terceira hora o homem do motor reduz velocidade e aponta para a margem direita. Levo um momento para entender o que ele está mostrando. Entre as árvores, quase invisível, uma trilha. Vegetação cortada em linha reta, largura de veículo, marcas de pneu no barro. Mayara olha, não comenta. O outro homem pega um caderno da mochila e faz uma anotação. Coordenadas, provavelmente. Registro silencioso de presença estrangeira em um território onde não foi convidada a entrar.
Meia hora depois, passamos por uma aldeia vazia. Casas comunitárias intactas, estrutura de teto de palha em bom estado, roçados visíveis na clareira. Nenhuma pessoa. Nenhum cachorro, nenhuma galinha, nenhum sinal de vida recente. Mayara aperta os lábios. O homem do caderno anota de novo.
— Pra onde foram? — pergunto.
Mayara demora para responder.
— Realocação temporária. É o que disseram. Proteção da população durante operação de mapeamento ambiental. Iam voltar em dois meses. Faz seis.
O barco continua rio acima. A aldeia vazia fica para trás, engolida pela curva do rio e pela floresta que não distingue entre presença e ausência humana.
Na quinta hora o rio estreita e a correnteza aumenta. O motor trabalha mais, o barco avança mais devagar, a margem passa como se estivéssemos parados e o rio é que se movesse embaixo de nós. Os homens trocam olhares, o do motor ajusta a potência, o outro se inclina para frente como se o peso do corpo pudesse ajudar. Passamos por uma corredeira rasa onde o fundo do barco raspa nas pedras com ruído metálico que faz meu estômago contrair.
Depois da corredeira o rio abre de novo, curva longa para a esquerda, e na margem direita aparece uma clareira grande com três estruturas de palha que reconheço das fotos que vi em relatórios sobre arquitetura Yanomami. Malocas. As casas comunais redondas, abertas, teto de palha. Fumaça subindo de dentro de uma delas. Pessoas na margem do rio, duas mulheres lavando roupa, crianças brincando na água rasa, um homem sentado num tronco consertando rede de pesca.
Mayara se levanta na proa quando o barco encosta na margem. Fala em Yanomami, voz alta, anunciando chegada. As crianças param de brincar e correm para a margem. As mulheres levantam a cabeça. O homem da rede de pesca coloca o trabalho de lado e caminha até a beira da água com passo que não é pressa nem lentidão, é o ritmo de quem está em casa.
Desço do barco pisando em lama que cobre meus sapatos de cidade até o tornozelo. A mochila pesa nas costas. Estou suado, com sede, com fome, com as pernas dormentes de mais de cinco horas sentado num barco de alumínio, e olhando ao redor percebo que estou num lugar que existe fora de qualquer mapa que conheço, fora de qualquer sistema que passei a vida servindo, fora de qualquer vocabulário que sei usar.
O homem que consertava a rede chega até nós. Mais velho do que parecia de longe, cabelo grisalho cortado rente, rosto marcado por linhas profundas que poderiam ser sessenta ou oitenta anos, corpo magro e forte como raiz de árvore. Ele olha para Mayara, olha para mim, volta para Mayara.
Fala em Yanomami. Mayara responde. Conversa breve, tom que conheço de reuniões onde se decide quem entra e quem fica do lado de fora.
— Kopenawa — Mayara diz virando para mim. — Pajé. Meu tio.
Kopenawa me olha. Olhar demorado, sem pressa, sem hostilidade, sem acolhimento. Avaliação de alguém que viu muita gente chegar com boas intenções e aprendeu que intenção só vale se tiver permanência.
Ele estende a mão. Aperto com mão suja de lama do rio.
— Paula falou de você — ele diz em português com sotaque forte, frases curtas, cada palavra colocada com economia, por necessidade de falar a língua de colonizador — Homem que escreve. Que sabe a língua deles.
— Sei a língua. Não sei se serve pra alguma coisa aqui.
Ele quase sorri. Quase.
— Serve. Palavra escrita é a arma que eles reconhecem. Venha. Está com fome.
Me leva em direção à maloca principal. As crianças seguem à distância, curiosas e cautelosas. Uma menina de uns sete anos carrega um bebê no quadril, o bebê olha para mim com olhos enormes e escuros que não pestanejam.
Entro na maloca. Penumbra fresca depois do sol de fora, cheiro de fumaça e mandioca e algo mais que é a própria madeira e palha envelhecendo devagar. Redes penduradas em postes, fogueiras baixas, objetos de uso diário pendurados nas vigas. Nada de supérfluo. Cada coisa tem função, cada coisa está onde precisa estar. E sentado numa rede no canto da maloca, caderno no colo, caneta na mão, barba de dez dias e olheiras fundas, está Thomas Ashford. Ele levanta a cabeça quando entro. Os olhos encontram os meus e não há surpresa neles, só cansaço e algo que parece alívio contido. — Elias. A voz está mais rouca do que lembro. Thomas se levanta devagar, guarda o caderno debaixo do braço, caminha até mim. Está mais magro, mais velho do que cinco dias atrás deveriam permitir, e veste roupas que não são dele, camiseta larga demais, bermuda de tecido barato, chinelo de borracha. O analista sênior da CIA que coordenava inteligência sobre a Amazônia desde a embaixada em Brasília está descalço numa maloca Yanomami usando chinelo havaianas. — Você está vivo — digo, e a frase sai idiota, óbvia, insuficiente. — Mais ou menos — ele diz. — Oficialmente não sei. Depende de quem pergunta. Kopenawa observa a cena sem intervir. Mayara também. O encontro acontece dentro da lógica deles, dois brancos que se conhecem e que precisam conversar, questão que resolve entre eles. Thomas me puxa para fora da maloca, para um canto de sombra entre as estruturas onde ninguém pode ouvir sem ser visto. Fala baixo, rápido, com a precisão comprimida de quem acostumou a transmitir informação em janelas curtas. — Canopy Shield entrou em fase operacional. Não é mais cenário exploratório, Elias. Equipes já estão no terreno, três bases temporárias montadas dentro da TI, com cobertura da Sesai que não sabe que está dando cobertura. Os consultores ambientais que você viu em Manaus são operadores da DIA, Defense Intelligence Agency, misturados com gente de empresa privada, Sagebrush ou subsidiária, ainda estou tentando confirmar. A operação de mapeamento ambiental é pretexto para reconhecimento territorial. Coordenadas de aldeias, censo populacional, levantamento de infraestrutura fluvial. Tudo que você precisa para planejar ocupação rápida quando a ordem vier. — Quando. — Quando. Questão de meses. O bloqueio naval nos portos brasileiros já está desenhado como contingência. Chamam de "inspeção de conformidade ambiental". Linguagem pronta, resolução rascunhada, falta só o pretexto final. — Por que você veio pra cá? Thomas olha para a floresta ao redor. A pergunta parece exigir dele mais do que resposta tática. — Porque mandaram me eliminar. Não prender, não interrogar, eliminar. Descobriram o vazamento, rastrearam até mim, e o protocolo para analista que vira liability é silencioso e definitivo. Recebi aviso de alguém de dentro, alguém que ainda tem escrúpulo ou pelo menos relutância em matar colega de vinte anos. Saí de Brasília com a roupa do corpo, documentos falsos que mantinha pra emergência, voei até Manaus comercial, de lá fiz o mesmo caminho que você fez. Mayara me recebeu porque Paula avisou. Estou aqui há quatro dias. — E ficou mandando mensagem criptografada do território Yanomami. — Queria ter certeza de que você viria. Se viesse, significava que os documentos estão seguros e que alguém além de mim está disposto a fazer alguma coisa com eles. Se não viesse, eu ia ter que repensar tudo. — Eu vim. — Você veio. Silêncio entre nós. O rio ao fundo, crianças brincando, fumaça subindo da maloca. Thomas Ashford, o homem que vazou os documentos que provam a conspiração para desmontar o Brasil, refugiado entre os Yanomami como fugitivo da própria agência. A ironia teria graça se não fosse tão pesada. — Amanhã tem reunião — digo. — Conselho da Floresta. Representantes de vários povos. Trouxe os documentos todos, vou apresentar. — Eu sei. Mayara me contou. Vou estar lá. Tenho informação que complementa os seus documentos. Dados operacionais que Okafor não teria acesso. Coordenadas das bases temporárias, nomes dos operadores, cronograma atualizado. Coisas que só quem esteve dentro do aparato de inteligência pode confirmar. — Eles vão confiar em você? Thomas ri. Riso breve, amargo. — Confiar num americano da CIA? Não. Mas Kopenawa me disse uma coisa quando cheguei. Disse que é bom quando o inimigo manda alguém que conhece a máquina por dentro. Não confia em mim. Confia na utilidade do que sei. Voltamos para a maloca. Kopenawa me indica uma rede. Sento. Alguém traz peixe assado com beiju numa folha de bananeira. Como com as mãos, com fome de quem não comeu nada desde o café da manhã no hotel de Boa Vista. Thomas volta para o canto dele, caderno no colo, escrevendo com a concentração obsessiva de quem sabe que está produzindo documento que pode custar a própria vida. Olho ao redor tentando mapear este lugar com as ferramentas mentais que tenho, e as ferramentas são insuficientes porque foram feitas para outra realidade, para mundo de ângulos retos e horários e documentos assinados em triplicata. E agora, no canto da maloca, um analista da CIA de chinelo, escrevendo o que sabe antes que venham buscá-lo.
Mayara senta numa rede perto de mim.
— Amanhã tem reunião — ela diz. — Conselho da Floresta. Vieram representantes de vários povos, estão chegando há três dias. Você vai ouvir. Vai anotar. Depois a gente decide o que fazer com o que você sabe e o que eles sabem.
— Quantos?
— Quinze, vinte. Yanomami, Suruí, Kayapó, Munduruku, Wajãpi. Alguns ribeirinhos, um quilombola do Pará. Gente que andou dias pra chegar aqui.
— Eles sabem quem eu sou?
— Sabem que você é da ONU, e que trouxe documentos. É o suficiente por agora. Confiança leva tempo. Você tem alguns dias, talvez uma semana. Usa bem.
Ela se levanta.
— Descansa. Amanhã vai ser longo.
Saiu e ficou do lado de fora falando com Kopenawa em Yanomami, vozes baixas que entram na maloca como som natural do lugar, indistinguíveis dos pássaros e do rio e do vento nas folhas. Termino de comer, limpo as mãos na calça, deito na rede. O corpo inteiro dói do barco, da viagem, dos dias acumulados com pouco sono. Olho para o teto de palha onde a fumaça das fogueiras subiu por anos deixando camada escura na madeira, registro silencioso de todas as refeições preparadas, de todas as noites passadas, de toda a vida vivida neste lugar que existe há gerações e que não precisa de ninguém de fora para validar sua existência.
Fecho os olhos. O sono vem rápido, pesado, sem sonho.
Acordo com o som de vozes que não entendo. A maloca está cheia de gente que não estava ontem, rostos novos sentados em redes e no chão, conversas em pelo menos três línguas diferentes que se misturam com o barulho das crianças lá fora e o crepitar das fogueiras sendo reacendidas para o café da manhã.
Mayara aparece ao meu lado.
— Chegaram de madrugada. Vieram do Pará, de Rondônia, do Amapá. Alguns navegaram dois dias pra chegar. Levanta, come alguma coisa, começa em uma hora.
A reunião acontece numa das outras malocas, chão de terra batida, troncos dispostos em círculo irregular que acomoda vinte e duas pessoas contando comigo e Mayara. Sem pauta impressa. Sem crachá de identificação. Cada pessoa que chega cumprimenta as outras pelo nome, senta onde encontra lugar, espera.
Kopenawa abre falando em Yanomami. Mayara traduz ao meu ouvido, voz baixa, frases telegráficas que capturam sentido sem capturar forma.
— Ele está dizendo que a floresta está sendo cercada, helicópteros sobrevoam todo dia. Três aldeias foram realocadas no último mês e gente de fora está abrindo trilha de máquina no território sem autorização de ninguém.
Uma mulher Kayapó fala em seguida. Mais velha, cabelo branco, voz que não precisa de microfone. Mayara traduz.
— Mesmo no sul do Pará. Mineradoras voltaram com escolta armada. Dizem que têm autorização federal. Autorização de quem, se o governo não controla mais nada?
Um homem jovem, Munduruku, fala rápido, com raiva contida. Mayara hesita na tradução, escolhe palavras.
— Barragens no Tapajós. Três novas licenças aprovadas em duas semanas. Equipe técnica toda estrangeira. Os engenheiros brasileiros foram substituídos por gente que não fala português. Ele diz: a gente protegeu esse rio dos nossos próprios governos durante trinta anos, agora vem gente de fora que nem sabe o nome do rio.
Txai Suruí fala por último na primeira rodada. Mais jovem que os outros, trinta e poucos, camiseta com uma frase em inglês que alguém deve ter dado de presente e uma voz calma que contrasta com o conteúdo.
— Rondônia está sendo loteada. Mapas novos circulando com nomes de empresas onde antes tinham nomes de comunidades. Consultores fazendo censo nas aldeias, perguntando quantas pessoas, quantos hectares de roçado, qual a produção. Censo para quem? Perguntei pra eles. Para garantir seus direitos, disseram. Nunca precisamos de censo pra existirem nossos direitos.
Mayara para de traduzir e fala em português para todo mundo.
— Elias trouxe documentos de dentro da ONU. Planos com data, cronograma, nomes. O que vocês estão descrevendo não são incidentes separados, é uma operação coordenada com a mesma lógica, a mesma estrutura e a mesma origem.
Vinte olhares se voltam para mim.
Abro a mochila. Tiro os papéis que venho carregando desde Nova York, as doze páginas manuscritas que condensam o conteúdo dos documentos de Okafor, o mapa das cinco zonas de reorganização territorial, a lista de empresas e nomes, os cronogramas. Coloco tudo em cima de um tronco no meio do círculo.
Falo devagar. Português claro, sem jargão, sem eufemismo. Explico o que é Manto Verde, o que é Canopy Shield, o que são as cinco zonas previstas no plano de reorganização territorial. Explico que a Amazônia está classificada como Zona Norte com administração internacional conjunta sob mandato de conservação, que na prática significa controle externo permanente disfarçado de proteção ambiental. Explico os cronogramas, as fases de implementação, os custos de transição em termos humanos que o documento calcula entre cinquenta e duzentas mil pessoas. Explico que o documento chama isso de aceitável.
Enquanto falo, Mayara traduz para os que não entendem português. A tradução leva o dobro do tempo porque certas palavras não existem nas línguas para as quais ela traduz. Reorganização territorial. Mandato de conservação. Custos de transição. Ela precisa explicar o conceito antes de traduzir o termo e em cada explicação percebo o quanto o vocabulário burocrático que eu domino é ferramenta de ocultação, uma linguagem desenhada para tornar monstruosidade palatável para gente que nunca vai sofrer as consequências.
Quando termino, silêncio. Longo. Ninguém se mexe. O rio passa ao fundo com seu barulho constante, indiferente a cronogramas e zonas de administração.
Kopenawa se dirige a mim.
— Você sabe escrever em português correto, português de documento, de lei, de relatório. Palavra que branco lê e acredita. Isso serve. Escreve o que está acontecendo. Escreve com nomes, datas, coordenadas. Escreve como se fosse documento deles, mas com a verdade dentro.
— Vou escrever.
— Escreve e faz cópias. Cinco cópias, cinco territórios diferentes. Se pegarem uma, as outras sobrevivem.
A reunião continua por mais quatro horas. Discutem rotas, suprimentos, comunicação. Decidem por consenso, processo que para quem está acostumado com votação e maioria simples parece lento demais, até você perceber que no final todo mundo sabe exatamente o que foi decidido e por quê, sem ata, sem registro escrito, sem possibilidade de interpretação divergente.
No fim, Kopenawa se levanta. Fala em Yanomami. Mayara não traduz. Depois me olha.
— Agradeceu a todos por terem vindo. Disse que a floresta já sobreviveu a coisas que ninguém lembra. Que vai sobreviver a essa também. Que eles vão sobreviver.
Não disse como. Porque não é isso que se diz numa reunião dessas. Diz-se que vai sobreviver e depois faz o trabalho de garantir que seja verdade.
Os dias seguintes são de documentação. Acordo cedo, como o que oferecem, sento em algum canto com caderno e caneta e escrevo enquanto pessoas vêm falar comigo. Mayara traduz quando precisa, às vezes não precisa porque alguns falam português e querem contar na própria voz.
Thomas trabalha em paralelo. Ele monta relatório separado, operacional, com linguagem de inteligência que qualquer analista do Pentágono reconheceria como legítima. Coordenadas GPS, designações de unidade, protocolos de comunicação, nomes verdadeiros por trás de nomes de cobertura. O tipo de documento que, se publicado, não pode ser descartado como teoria conspiratória porque tem a impressão digital inconfundível de alguém que esteve dentro da sala onde as decisões foram tomadas. Trabalhamos em mesas improvisadas na borda da maloca, cada um escrevendo na linguagem que domina, ele em inglês técnico militar, eu em português de relatório institucional, as duas línguas do poder que agora servem para denunciar o que o poder faz. Numa das pausas, Thomas fala sem levantar os olhos do caderno. — Você sabe que não posso ficar aqui pra sempre. E que não posso voltar pra lugar nenhum. — Sei. — Martin ofereceu Buenos Aires. Talvez funcione por um tempo. Argentina ainda não está totalmente alinhada. Talvez consiga publicar de lá, com os contatos certos. — E se te acharem? — Se me acharem eu já entreguei tudo que sei. A informação sobrevive mesmo que eu não sobreviva. É o cálculo que fiz quando decidi vazar. Não mudou. Volta a escrever. Eu também.
Txai descreve o que está acontecendo em Rondônia. Fazendas sendo expandidas por empresas com CNPJ registrado em paraíso fiscal, maquinário pesado entrando de madrugada, tratores derrubando floresta enquanto a fiscalização ambiental olha para outro lado porque fiscalização ambiental foi esvaziada de pessoal e de mandato. Ele fala com precisão de quem documentou cada hectare perdido, cada denúncia ignorada, cada tentativa de resistência legal que morreu em mesa de juiz que nunca pisou em terra indígena.
Uma professora ribeirinha do baixo Amazonas conta como escola da comunidade foi fechada por falta de professor depois que o governo cortou repasses para educação rural. As crianças agora vão de barco até a cidade mais próxima, três horas de viagem, e voltam à noite se tiver combustível. Se não tiver, dormem na casa de parente e perdem o dia de trabalho no roçado. Ela fala com calma que esconde camada de fúria que reconheço porque é a mesma fúria que senti sentado na ONU lendo relatórios sobre populações afetadas enquanto populações afetadas morriam a quinhentos quilômetros da sala de reunião onde eu escolhia sinônimos.
Kopenawa conta coisas diferentes. Conta o que a floresta é. Fala dos Xapiri-pë, os espíritos que habitam as cachoeiras e as montanhas e as copas das árvores grandes, fala de como o pajé vê o mundo através dos xapiri e os xapiri veem o mundo através do pajé, fala de como o tempo na floresta funciona diferente do tempo nas cidades, como certas árvores existem em mais de um momento ao mesmo tempo, como o rio que passa agora é o mesmo rio que passou antes de qualquer pessoa existir e vai continuar passando depois de todas as pessoas terem ido embora.
Escuto sem anotar, porque anotar seria transformar em dado o que ele está dizendo, dado vira categoria e categoria é exatamente o que museu faz com coisa viva, empalha e põe etiqueta, mitologia aqui, etnografia ali, conhecimento tradicional numa vitrine com iluminação adequada.
Mayara observa enquanto Kopenawa fala. Em certo momento ela me olha e diz, voz baixa:
— Ele está te dizendo como funciona. Você vai entender ou não. As palavras não ajudam muito.
No terceiro dia, trinta de março, pergunto a Mayara por que saiu da ONU de verdade. Estamos sentados na margem do rio ao entardecer, ela consertando um rádio de ondas curtas com ferramentas improvisadas, eu escrevendo no caderno.
Ela trabalha no rádio enquanto fala.
— Trabalhei com você. Dois mil e dezenove. Relatório sobre desmatamento.
— Eu lembro.
— Você me parecia honesto. Incomodado com o sistema. Como todo mundo lá. A diferença é que vocês ficaram incomodados e continuaram trabalhando. Eu fiquei incomodada e saí. Talvez seja mais fácil quando você tem pra onde voltar. Eu tinha.
O rio passa diante de nós com cor de barro que o entardecer transforma em cobre. Uma família de lontras emerge na margem oposta, brincando com alguma coisa que não consigo ver à distância.
— Saí porque percebi que cada hora que eu passava naquela sala em Nova York era uma hora que eu não passava aqui, e aqui é onde as coisas acontecem. Aqui é onde decidem se tem povo ou não tem, se tem floresta ou não tem, se tem rio ou barragem. Lá a gente produz papel. Aqui a gente produz vida.
Ela aperta um parafuso no rádio. O aparelho crepita, emite estática, depois uma voz distante em língua que não reconheço.
— Funcionou — ela diz, com a satisfação breve de quem resolveu problema concreto.
Na noite de trinta e um de março o rio muda.
Caminho pela margem depois do jantar, sozinho pela primeira vez em dias, caderno na mão, tentando organizar as cinquenta páginas de manuscrito que venho escrevendo desde que cheguei. O texto tem forma agora. Relato completo, cronológico, documentado, com nomes e datas e coordenadas e trechos transcritos dos documentos originais. Inclui também os testemunhos que coletei aqui. Tudo escrito em português que funcione como documento, linguagem que qualquer tribunal ou comissão reconheceria como registro factual, evidência admissível, prova.
Sento numa pedra que avança sobre o rio. A água passa negra sob a luz de estrelas que aqui são absurdas de tantas, céu que parece ficção de tão carregado. Nenhuma luz artificial em nenhuma direção. A aldeia atrás de mim iluminada apenas pelas fogueiras que começam a diminuir. O rio sussurra ao redor da pedra e eu fecho os olhos para descansar um momento e quando abro não estou mais onde estava.
Estou no mesmo rio. A mesma pedra debaixo de mim, a mesma curva, as mesmas árvores na margem. Reconheço pelo ângulo, pela forma como a margem oposta desenha linha contra o céu. A pedra é a mesma.
O rio é o mesmo. O tempo não.
A floresta ao redor está diferente. As árvores estão maiores, algumas quebraram e caíram sobre outras, décadas de crescimento visíveis na espessura dos troncos. Na margem onde ficava a aldeia há estruturas que não são malocas, construções que misturam madeira e algum material que não identifico, formas orgânicas que parecem ter crescido do chão em vez de terem sido construídas. Luzes suaves de dentro, sem fio elétrico visível. Vozes. Língua que reconheço sem entender, Yanomami misturado com português misturado com algo mais, camadas de idioma sobrepostas como as camadas de tempo sobrepostas nesta pedra onde estou sentado.
Alguém caminha pela margem. Carrega caderno e lanterna. Para na beira da água a dez metros de mim. Abre o caderno e lê à luz fraca. Reconheço as páginas. São minhas. São as cinquenta páginas que estou terminando de escrever esta semana, março de dois mil e vinte e seis, mas o papel está amarelado, a tinta desbotada, as bordas gastas de manuseio repetido ao longo de tempo que não consigo calcular.
A pessoa levanta a cabeça. Olha para onde eu estou, para a pedra, para o rio, para o ponto exato onde estou sentado. Não sei se me vê. A pessoa fica parada olhando na minha direção com expressão que conheço, que é a minha própria expressão quando leio documento e sinto que há mais ali do que as palavras carregam.
A imagem não dissolve de uma vez. Oscila. Como sinal de rádio que vai e vem entre duas estações. Rio de dois mil e vinte e seis, rio de outro tempo. Pedra presente, pedra futura. As duas frequências ocupam o mesmo espaço e meu corpo não sabe qual delas é real porque as duas são, as duas estão acontecendo, a pedra existe nos dois momentos com a mesma solidez debaixo de mim.
Abro os olhos. Margem do rio, março de dois mil e vinte e seis, fogueiras da aldeia diminuindo atrás de mim. Caderno na mão, caneta no bolso, coração batendo com força sem ter havido nenhum esforço físico.
Volto para a aldeia. Kopenawa está sentado sozinho perto de uma fogueira que já é mais brasa do que chama. Me olha quando chego, parecia estar me esperando.
Sento ao lado dele. O rio continua passando com o barulho de sempre.
— Você viu — ele diz.
— Vi alguma coisa. No rio. Outro tempo.
Kopenawa mexe na brasa com um graveto. Faíscas sobem e somem no escuro.
— Xapiri mostram o que existe. Rio não tem tempo, tem água. Água não sabe quando é.
— Eu vi alguém lendo meu manuscrito. As páginas que estou escrevendo agora. Mas velhas. Muito velhas.
Ele assente como quem ouve informação que confirma o que já sabia.
— Você escreveu e alguém leu. Isso que a escrita faz. Leva coisa de um tempo pra outro. Vocês brancos acham que inventaram isso com papel e tinta. Xapiri fazem isso sem papel.
Silêncio. O fogo crepita. Insetos cantam ao redor com frequência constante.
— Você não precisa entender — Kopenawa diz. — Precisa escrever. O que escrever fica. Pra quem precisar ler.
Volto para a rede. Deito no escuro ouvindo os sons da floresta que não param nunca, camadas de vida acontecendo ao redor, acima, abaixo, sem pausa, sem intervalo, sem distinção entre um momento e outro. Penso no manuscrito, nas cinquenta páginas que estou terminando, na pessoa que vi na margem do rio lendo essas mesmas páginas em tempo que ainda não existe para mim, que já existe para quem estava lá.
Penso no título que escrevi na primeira página do caderno quando comecei a reunir tudo. A Dobra. O nome veio sem deliberação, como coisa que já estava escrita antes de eu escrever. Porque a dobra é isso. O ponto onde dois momentos se tocam e a ilusão de que são separados racha por um instante e deixa ver o que sempre esteve embaixo: que o rio é um só, que a água é uma só, que quem escreve e quem lê ocupam a mesma página de um texto que ninguém assinou e todo mundo escreveu.
A rede balança com meu peso. O sono não vem rápido desta vez. Fico acordado ouvindo a floresta, sabendo que amanhã entrego o manuscrito, que cinco cópias vão para cinco territórios, que as palavras que escrevi nesta semana vão viajar por caminhos que eu não vou poder seguir e que alguém, em algum tempo que não posso alcançar daqui, vai sentar numa pedra no mesmo rio e ler o que escrevi e sentir o que senti e a separação entre nós vai ser a coisa mais frágil do mundo.
Primeiro de abril. Acordo antes do amanhecer com o grito de um pássaro que Mayara depois me diz ser japiim imitando o som de outra espécie, o pássaro que fala a língua dos outros, mimetismo que aqui é considerado inteligência, lá fora seria chamado de fraude.
Passo a manhã organizando o manuscrito. Cinquenta e três páginas no final. Relato cronológico que começa com minha entrada na ONU em dois mil e dezenove e termina com os testemunhos que coletei nos últimos dias neste território. Cada fato datado, cada nome verificado, cada documento citado por número de referência. Incluo as coordenadas das aldeias realocadas, as trilhas de máquina que vimos do barco, os nomes das empresas que Txai identificou em Rondônia, os cronogramas de Manto Verde e Canopy Shield.
Na primeira página escrevi A Dobra.
Thomas termina o relatório dele no mesmo dia. Vinte e oito páginas em inglês que ele encapsula separadamente.
— Isso vai junto com o teu ele diz. —Cada cópia leva os dois documentos. O teu conta a história. O meu prova a operação. Juntos, ninguém pode dizer que é ficção.
Mayara providencia papel e uma impressora portátil movida a bateria solar que alguém trouxe para o posto de saúde anos atrás. Imprimo cinco cópias. O processo leva horas porque a impressora é lenta e a bateria precisa recarregar entre cópias. Enquanto espero, Kopenawa senta ao meu lado e observa as páginas saindo da máquina com a curiosidade prática de quem avalia a utilidade de ferramenta nova.
— Cinquenta páginas — ele diz. — Muita palavra.
— É a história completa.
— História completa não cabe em cinquenta páginas. Nem em cinquenta mil.
Não discuto.
No final da tarde as cinco cópias estão prontas. Embrulho cada uma em plástico grosso que Mayara encontrou no depósito do posto, vedação contra umidade, papel na Amazônia tem vida curta se não for protegido. Entrego três a representantes que ainda estão na aldeia, que guardam em mochilas e bolsas e vão levar para seus territórios nos próximos dias. A quarta fica com Kopenawa. A quinta eu guardo na minha mochila.
Protocolo combinado: cada cópia vai para um território diferente, guardada por pessoa de confiança, sem registro digital, sem menção em comunicação que possa ser interceptada. Se alguma for encontrada, as outras sobrevivem. Se todas forem encontradas, a memória oral continua, porque antes de ser papel este relato foi conversa, foi testemunho falado em roda, foi história contada de uma pessoa para outra na forma mais antiga de arquivo que existe.
Kopenawa recebe a cópia dele sem cerimônia. Pesa nas mãos, coloca dentro de uma bolsa de fibra, guarda num canto da maloca.
— Vou ler — ele diz. — Devagar. Ler depressa é desperdício.
Mayara me encontra na margem do rio quando o sol começa a descer.
— Amanhã cedo o barco te leva de volta. Pista da Sesai, voo pra Boa Vista, de lá você segue. Manaus, Brasília, pra onde precisar ir.
— Obrigado. Por tudo isso. Por me trazer aqui.
Ela olha para o rio. O entardecer na Amazônia é rápido, o sol cai atrás das árvores e em vinte minutos é noite.
— Você volta quando quiser — ela diz. — Quando puder. Quando fizer sentido. Isso aqui não vai embora.
— E se for embora?
— Aí a gente está em outro lugar. Já falei, quinhentos anos fazendo isso. A gente sabe desaparecer. Sabe reaparecer também.
Ela vai embora. Thomas aparece na margem, mochila nas costas. Ele parte amanhã cedo também, rota diferente da minha. Boa Vista, Manaus, de lá voo para algum lugar que não me diz e que prefiro não saber.
— Cuida dessas páginas — ele diz.
— E você?
— Eu vou fazer o que faço. Desaparecer. Reaparecer em outro lugar. Publicar o que puder de onde der. Manter a informação circulando.
Estende a mão. Aperto. A mão dele está calejada de uma semana na floresta, diferente da mão que apertei em conferências climatizadas da ONU sete anos atrás. Diferente porque o corpo muda quando a decisão é tomada, quando a linha é cruzada e não tem volta.
— Thomas. Ele para.
— Obrigado. Pelo vazamento. Pelos documentos. Por tudo.
— Elias. Foi cálculo. Achei que era mais provável sobreviver contando a verdade do que continuar engolindo a mentira. Cálculo errado, provavelmente. Mas cálculo. Não sou tão corajoso assim…
Desaparece no escuro em direção à maloca onde dorme.Fico na margem vendo o rio escurecer, água que muda de cor conforme a luz muda, cobre, bronze, chumbo, preto. O mesmo rio de dois mil e vinte e seis e do tempo que vi na noite passada. O mesmo rio de quinhentos anos atrás quando os primeiros barcos chegaram trazendo palavras novas para coisas que já tinham nome.
Kopenawa aparece ao meu lado. Última conversa. Ele fala olhando para o rio.
— Não precisa entender. Só precisa escrever. O que você escreve, outro vai ler. E quando ler vai sentir o que você sentiu. E aí não importa mais quando é. Importa que alguém colocou palavra no papel e outro encontrou. Isso é o que fica.
Volto para a maloca. Deito na rede pela última vez. Amanhã começa a viagem de volta. Rio abaixo até a pista, avião até Boa Vista, Manaus, Brasília. Sofia esperando. O país que está sendo desmontado por fora enquanto por dentro, aqui, neste pedaço de floresta que os mapas de reorganização territorial classificam como Zona Norte sob administração internacional conjunta, vinte e poucas pessoas acabaram de montar um protocolo de sobrevivência usando rádio de ondas curtas, mensageiros a pé e memória oral de quinhentos anos.
Durmo com o som do rio que não para.
Leia o conto que inspirou “A Dobra”
9.144 metros
2.133 metros aproximadamente













Muito bom, Cadu! Estou amando! Espero que um dia essa história vá para o papel também. Merece!