A gratidão anda cansada
O momento em que agradecer deixa de ser discurso e passa a ser evidência
Gratidão virou palavra leve demais para o peso da vida que vivemos. Repetida, enfeitada, performada, ela circula com facilidade justamente porque já não exige presença nem confronto com a contingência de estar aqui. Talvez por isso precise ser recolocada no único lugar onde ainda faz sentido, fora do discurso, fora da vitrine, perto daquilo que lembramos evitar. Este ensaio não propõe mais um gesto, nem um exercício a ser praticado. Ele aponta para o instante em que a gratidão deixa de ser linguagem e passa a ser evidência, quando a atenção toca o agora com a mesma lucidez que a morte costuma impor.
A palavra gratidão anda cansada, de tanto ser exibida, repetida, enfeitada, diluída em versões simpáticas que não exigem presença nem contato real com a experiência de estar vivo. Ela aparece como assinatura de e-mail, legenda de foto, encerramento automático de conversa, às vezes acompanhada de um namastê, um gratiluz, um sorriso ensaiado que parece cumprir uma função social mais do que expressar algo vivido. A gratidão, nesse formato, virou um objeto de vitrine, parte do catálogo da espiritualidade de butique, essa que cabe bem na bio do perfil, não constrange, não desorganiza, não chega perto do desconforto que sustenta a vida como ela é.
Nada errado com a palavra em si, nem com o gesto de agradecer. O desgaste começa quando a palavra se transforma em hábito mecânico, em linguagem de superfície, uma espécie de verniz que cobre a pressa, o privilégio e a distração. Fala-se muito sobre gratidão, mas se vive pouco a partir dela. A palavra circula com facilidade justamente porque não pede nada além de concordância, não convoca atenção, não altera o modo como se ocupa o tempo ou se olha para o outro.
Foi a partir desse incômodo, já antigo, que outro dia, ouvindo um áudio do Sam Harris, uma pergunta apareceu de forma quase inevitável, sem esforço e sem intenção de resposta rápida. O que a gratidão poderia ter a ver com a morte?
Ele falava da gratidão como uma atitude mínima, quase óbvia, diante da desigualdade e do sofrimento de tantos de nossos semelhantes. O número é alto demais para ser confortável. Mais de um bilhão de pessoas no mundo, agora, enquanto este texto é lido, atravessam situações extremas, guerras que não escolheram, deslocamentos forçados, fome, acesso precário a água e saneamento, doenças graves, ausência de um teto, de segurança, de previsibilidade. Não é um cenário distante nem abstrato. É difícil imaginar que, se a troca fosse possível, se esse bilhão pudesse escolher estar exatamente onde você está neste momento, lendo estas linhas, essa escolha não fosse feita sem um pingo de hesitação.
A maior parte do tempo seguimos vivendo como se tudo nos fosse dado, como algo natural, previsível e esperado. E ai, se não for desse jeito…
A sequência parece óbvia demais para ser questionada: nascer, crescer, trabalhar, morrer. A morte fica fora do nquadramento cotidiano, tratada como um evento distante, inconveniente e indelicado de ser lembrado em meio a tanta positividade tóxica. Talvez por isso mesmo, a gratidão tenha se tornado tão leve, tão ornamental.
A morte, vista de perto, sem romantização e sem medo performático, tem um efeito curioso. Ela reorganiza a percepção, nos lembrando, de forma direta, que nada do que está aqui é garantido, que a continuidade é uma suposição confortável, mas não é um dado da realidade. De uma hora para outra, podemos não estar mais. Ou aqueles que amamos. Não entenda isso como uma ameaça, mas como fato simples do ato de viver. Quando isso é realmente visto e sentido, não pensado, alguma coisa muda no modo como o presente é vivenciado.
Se fosse possível retornar após a morte para este exato momento, para este corpo, este ambiente, este intervalo aparentemente banal do dia, a gratidão como palavra ou gesto não precisaria ser acionada. Ela seria evidente. O simples fato de estar aqui, respirando, lendo, olhando ao redor, já seria mais do que suficiente. Olhe agora para o que está acontecendo enquanto você lê. O lugar, o corpo apoiado, o som ao redor, o tempo disponível para ler estas linhas. Não há nada de especial nisso e exatamente por isso, tudo é especial.
A gratidão mais profunda não nasce das listas, dos diários, lembretes ou afirmações repetidas pela manhã ou antes de dormir. Ela acontece quando a atenção permanece no presente sem ruminar o passado e nem antecipar um futuro imaginado. Quando o agora é visto como o único lugar possível da experiência, sem distração, sem narrativa adicional, agradecer deixa de ser uma “obrigação”, uma atitude moral ou espiritual e passa a ser reconhecimento silencioso da nossa própria condição humana.
Quando olho para o que faço agora, para quem sou agora, para onde estou agora, a única resposta honesta que surge não tem forma de discurso. Ela se parece mais com um aceno interno, uma clareza simples. Eu poderia estar em Gaza, na Ucrânia, no Irã, na África, em Minnesota.
E você também.
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Isso é tão verdadeiro, Cadu, mas ao mesmo tempo é tão louco perceber como rapidamente a gente se distrai e esquece de tudo.