A próxima mudança
Maior que a lua, maior que qualquer guerra
O lançamento da Artemis II que está previsto para 6 de março de 2026 (com janelas até abril), me fez lembrar da emoção daquele dia 21 de julho de 1969, quando eu tinha 7 anos. Agora, está para acontecer, depois de muito tempo, o primeiro voo tripulado para orbitar a Lua. A missão de 10 dias vai levar quatro astronautas, testando sistemas de suporte de vida, navegação e capacidades de pilotagem manual antes de retornar à Terra. Não vão pousar ainda, mas é um começo. Neste mês de fevereiro, completam-se 53 anos desde que pusemos os pés naquele lugar pela última vez. Segundo consta, voltaremos a faze-lo ano que vem, com o Artemis III.
Cresci numa época com poucos conflitos, ou pelo menos era assim que parecia.
Nasci em 1962, e nos anos 80 comecei a trabalhar. Fui testemunha da maior mudança vivida pela humanidade na minha memória. A primeira tinha sido aos sete anos, como comentei acima.
A segunda, que nos atingiu a todos, foi o 11 de setembro de 2001. Claro que antes eu já havia sido impactado pela Guerra do Vietnã, pela Bósnia, por terremotos, inundações e tragédias naturais que varreram o planeta, mas tudo isso carregava um grau de distância. O 11 de setembro foi diferente. Foi a primeira fratura exposta do século 21, algo que a geração anterior a mim sequer conseguiria imaginar. E mais recentemente, a pandemia.
Meu ponto aqui é simples. Ao longo da história, inúmeras tragédias e conflitos foram moldando nossas vidas e, sem que percebêssemos, nos dando pistas sobre a nossa real natureza. Em algum momento, comecei a considerar que havia uma alternativa possível. A vida não podia se resumir a isso.
Ainda adolescente, comecei a procurar respostas. Fiz parte de grupos de estudo, rodas de conhecimento, frequentei tradições como o zen, o tao, o quarto caminho de Gurdjieff, me aproximei do xamanismo havaiano e dos povos originários norte-americanos. Li, estudei, pratiquei, me aprofundei, sem nunca criar um vínculo definitivo com nenhuma dessas linhagens. Sempre soube, num lugar silencioso dentro de mim, que isso era algo que ninguém poderia fazer por mim. Aprendi, questionei, inquiri, pratiquei. Foram mais de quarenta anos. Até que um dia, a ficha caiu.
O que caiu foi a ilusão de separação. A percepção nítida, sem esforço, de que nunca houve um "eu" separado do resto. A Consciência que percebe estas palavras, que ouve o barulho da rua, que sente o peso do corpo na cadeira, essa Consciência não está dentro de mim. Eu é que estou dentro dela. Ela não tem endereço, não tem contorno, não pertence a ninguém porque é o próprio campo onde tudo aparece, inclusive a sensação de ser alguém.
O curioso é que a ciência contemporânea começa a chegar exatamente aí, pelo lado de fora. Donald Hoffman, cientista cognitivo do MIT e professor na Universidade da Califórnia, passou décadas demonstrando que nossos sentidos não evoluíram para perceber a realidade, evoluíram para nos manter vivos. O que vemos não é o mundo, é uma interface útil. O cérebro não gera Consciência, ele a filtra, a reduz, a traduz numa versão operacional que nos permite atravessar a rua sem ser atropelados.
O filósofo Bernardo Kastrup 1, brasileiro que trabalhou no CERN, leva isso adiante com uma lucidez que incomoda o establishment acadêmico: a matéria não produz Consciência, a Consciência é que se manifesta como matéria. O mundo físico é o lado de fora de um processo mental universal. Cada um de nós é um redemoinho temporário num rio que não tem margens.
Parece filosofia oriental? É. Só que agora vem com equações, artigos revisados por pares e um incômodo enorme para quem ainda acredita que o cérebro fabrica a mente do mesmo jeito que o pâncreas fabrica insulina.
Todas as tradições que estudei apontavam para isso, cada uma com sua linguagem, e eu levei décadas para perceber o óbvio: nunca houve distância entre mim e o que eu procurava. A busca era o único obstáculo.
Essa percepção, quando amadurecer numa escala coletiva, será a próxima e definitiva mudança na condição humana. Maior que a lua, maior que qualquer guerra. O reconhecimento de que a separação nunca existiu.
Hoje, procuro usar a mente do mesmo modo que se usa uma ferramenta: de forma analítica, sob demanda, quando questões práticas da vida se apresentam e pedem alguma ação. Como downloads. Fora disso, o modo é ocioso, disponível, com a atenção inteira no momento presente, no que está ao redor, registrando cada instante, cada experiência, e agradecendo por estar aqui. Sem diário de gratidão, sem meditação como técnica para aquietar uma mente que já se aquietou por conta própria, porque quando a mente percebe que só existe o que está aqui, ela se aquieta sozinha.
Todo o resto é projeção, um futuro idealizado que não existe ou uma memória imprecisa que insiste em gerar tristeza, raiva, ressentimento. A imaginação sequestra a atenção para lugares que não são reais.
Irrelevante.
Experimente tratar por um tempinho que seja, qualquer pensamento como irrelevante, desimportante. Veja o que acontece e depois me conte.
Quem ficou triste? Quem ficou com raiva? O ego. A mente.
Dê um passo para trás e observe essa “unidade” corpo/mente de uma perspectiva que não pertence a ela. Algo está ali, observando os pensamentos e sentimentos que brotam dessas projeções, dessa imaginação, dessa memória sempre imprecisa.
Esse algo é você.
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Obrigado por ler O Psiconauta!
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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Bernardo Kastrup já tem um livro em Português, acesse https://a.co/d/0gA3YWzQ







Eu acho que não basta compreender que a separação não existe. Sou estudante de "Um Curso em Milagres" e esse é o tema central nas mais de 700 páginas do livro texto. Mas para colocar em prática tal ideia, há um outro livro com 365 exercícios voltados para a prática diaria. Eu digo por mim: estou nessa trilha há mais de 30 anos e ainda sou teimosamente indisciplinado e terrivelmente distraído. Eu sinto que não há separação em alguns momentos específicos, e não posso dizer que vivo o tempo todo nesse estado. Algumas sombras ainda me assombram, e alguns defeitos só ficam claros depois de um certo sofrimento. Mas quanto a conclusão estamos de acordo: essa é a maior mudança que a humanidade pode experimentar. E esse é o alicerce da minha fé: somos UM.
Interessante, Cadu!