O que veio depois se instalou. Uma alteração, um tipo de deslocamento quase imperceptível, desses que o corpo reconhece antes da mente ter vocabulário para admitir. A linguagem, no trabalho, continuava fazendo o que sempre fez desde que inventaram instituições: amortecer impactos grandes demais para serem sustentados de uma vez, diluindo a urgência em termos manejáveis.
Naquele fevereiro, a palavra preferida era realinhamento. O mundo se realinhava. Por algum tempo eu também fingi que era isso, um ajuste de forças, um jogo antigo repetindo mais uma rodada. Ficou claro depois que era perda de centro, que não se corrige com técnica nem com boa vontade institucional, porque o centro tinha sido deslocado por método.
O primeiro sinal que ficou em mim veio num envelope.
Chegou numa segunda-feira cedo, papel kraft, classificação restrita, carimbo do consulado brasileiro em Nova York, o papel carregando autoridade para justificar o que trazia dentro. Eram dezessete páginas impressas, fotos anexadas que eu não precisava ter visto e uma nota manuscrita de Paula Mendes 1 pedindo que eu revisasse antes de subir para o gabinete do secretário-geral.
Incidente de São Paulo — 15/02/2026 — Análise Preliminar.
Sentei com o café ainda quente e abri na primeira página. O texto começava do jeito que sempre começa quando alguém tenta dizer o indizível sem se comprometer: coordenadas, estimativa de público, cronologia, vocabulário técnico. Manifestação na Avenida Paulista, concentração a partir das 14h00, crescimento exponencial até atingir algo entre duzentas e cinquenta mil e trezentas mil pessoas por volta das 17h30.
O relatório descrevia que o movimento havia começado organizado, centrais sindicais, movimentos sociais, partidos de oposição, faixas pedindo respeito à soberania nacional, repúdio à captura de Maduro, defesa da Amazônia brasileira, episódios do mercado financeiro, como o do mais recente deles, do banco Master e contra a anistia aos manifestantes de 8 de janeiro, pauta que foi reativada por conta da piora na saúde do ex presidente Bolsonaro.
Mas o que realmente tinha enchido a Paulista era mais visceral: o padrão que estava se desenhando desde a captura de Maduro. Trump não tinha parado na Venezuela. A Groenlândia voltou à mesa de negociações com a Dinamarca sob pressão explícita. O México enfrentava ameaças veladas sobre “cooperação forçada” na fronteira já que para Trump, a presidente mexicana não dirige o país, os cartéis é que o fazem. A Colômbia recebia “sugestões” sobre reformulação de acordos comerciais e ‘fechar a boca’ sobre a Venezuela. Cuba estava sob cerco renovado. Cada movimento tinha a mesma assinatura: soberania tratada como apenas um obstáculo técnico, fronteiras como linhas que podiam ser redesenhadas quando fosse conveniente, algo tão simples quanto decidir mudar o nome do Golfo do México.
Todo mundo sabia que o Brasil seria o próximo, por duas razões que apareciam rigorosamente em cada um dos relatórios estratégicos que cruzavam minha mesa: a Amazônia e o Aquífero Guarani. Sessenta por cento das reservas de água doce da América do Sul correndo embaixo da terra, silenciosas, esperando. A maior floresta tropical do planeta respirando acima. Recursos que, na lógica que estava se impondo, eram “valiosos demais para ficarem sob gestão inadequada.”
A manifestação na Paulista falava sobre o medo perfeitamente racional de que, se Trump podia caçar um chefe de Estado em plena luz do dia e chamar aquilo de operação legal, se podia redesenhar o mapa geopolítico da América Latina como quem reorganiza peças num tabuleiro, então claro que viria para cima do Brasil. Era apenas questão de tempo, de pretexto, de construir a narrativa certa para justificar o inevitável. Segui a leitura.
Às 18h15, algo mudou.
O relatório descrevia com precisão quase forense: infiltração de grupos, ações coordenadas em três pontos distintos da avenida, quebra de vitrines, incêndio de veículos, confronto direto com a Polícia Militar. As lideranças originais tentaram conter, usaram carros de som, pediram calma, tentaram puxar o ato para dentro dos limites do protocolo democrático. Em vinte minutos, a Paulista virou campo de batalha.
A PM respondeu com gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha. Depois, quando já estava fora de controle, munição letal. O relatório evitava a palavra massacre. Usava “confronto com vítimas fatais”. Quarenta e sete mortos. Cento e noventa e três feridos. Quinze desaparecidos.
As fotografias mostravam corpos cobertos com lonas na calçada, sangue escorrendo pelo o asfalto, vitrines explodidas, fogo, fumaça, gente correndo, gente caída, gente carregando gente.
Eu dobrei o envelope no reflexo de achar que fechar o papel pudesse conter o que ele havia aberto. Olhei pela janela. Manhattan acordava sob um céu cinza de inverno. Pessoas caminhavam apressadas na calçada, táxis amarelos no trânsito lento, tudo funcionando dentro da normalidade prevista.
Peguei o telefone interno e disquei para Paula.
— Você leu?, ela atendeu sem cumprimento.
— Acabei de ler.
— E?
— Preciso de contexto. Quem eram os grupos infiltrados? De onde vieram? Como chegaram tão coordenados?
— Ninguém sabe. Ou ninguém quer dizer. O governo brasileiro investiga, existe suspeita de operação externa. Prenderam dezessete pessoas, nenhuma com identificação, todas com equipamento tático profissional.
— Operação externa significa o quê?
— Significa exatamente o que você está pensando.
Houve um silêncio curto na linha, aquele que ocupa mais espaço do que qualquer palavra.
— Como a mídia internacional está enquadrando?, eu perguntei.
— Instabilidade crescente, governo estadual e federal incapazes de manter a ordem, risco para investimentos estrangeiros. A CNN rodou matéria ontem sugerindo que o Brasil pode estar entrando em crise de governabilidade.
Crise de governabilidade. Três semanas depois de Maduro ter sido capturado.
— Você acha que isso foi um teste?, eu disse, mais afirmando do que perguntando.
— Acho que foi um teste, ela cortou. Talvez medir reação, testar alguma narrativa. Preparar terreno para o que vier depois.
Eu desliguei e fiquei olhando para o envelope como se ele fosse um objeto de outra civilização, uma peça de evidência que não se encaixava na rotina. Quarenta e sete mortos virariam estatística em rodapé de relatório anual em poucas semanas, os nomes numa lista que ninguém leria.
Eu precisava escolher como descrever aquilo. Incidente. Confronto. Distúrbio. Repressão. Massacre. Cada palavra abria e fechava portas diplomáticas, porque o mundo real se movia por palavras e naquele ambiente, palavras eram o único instrumento disponível na minha realidade.
Eu comecei a digitar, apaguei, comecei de novo, apaguei de novo. O café esfriou na mesa enquanto eu procurava um sinônimo que não fosse uma mentira nem uma verdade excessiva.
Duas semanas depois, em mais uma manhã que já parecia igual à todas as outras, a reunião começou às nove na sala 4127 do edifício da ONU, um espaço sem janelas onde o ar condicionado fazia um ruído constante de turbina prestes a decolar e quando entrei, Klaus Zimmermann 2 já estava sentado na cabeceira folheando um documento com post-its coloridos marcando seções específicas, método dele de organizar caos em categorias que pudessem ser processadas por estrutura legal.
Dominique 3 chegou logo depois com uma pasta debaixo do braço e aquela expressão que ela assumia quando algo grave tinha acontecido e ela ainda não sabia até onde poderia ir sem criar uma mais uma crise dentro da crise principal. Jean-Pierre Delacroix 4, veterano diplomata que faz a ponte entre o secretário geral e as equipes técnicas, apareceu falando ao telefone em francês sobre canais de diálogo que precisavam permanecer abertos e por último, Richard Pembroke 5 carregando três pastas e duas olheiras de quem tinha dormido mal, tentando manter o tipo de compostura que passa segurança para quem observa de fora.
Eu sentei na cadeira do meio, longe o suficiente da cabeceira para não parecer presunçoso, perto o suficiente para ouvir tudo. Era a posição que eu tinha aprendido a ocupar ali: sempre no meio, sempre registrando, sempre calibrando linguagem, nunca protagonizando.
Dominique fechou a porta e, antes que alguém dissesse qualquer coisa, colocou a pasta sobre a mesa, abriu, tirou um documento curto, grampeado, e disse apenas uma frase.
— Green Mantle vazou.
Klaus parou de folhear e olhou para ela com a expressão de quem acabava de confirmar algo que já suspeitava. Jean-Pierre desligou o telefone no meio de uma frase e ficou parado com o aparelho na mão como se tivesse esquecido o que fazer com ele. Richard deixou as três pastas caírem sobre a mesa com um barulho que ecoou pela sala inteira.
— Quando?, perguntou Klaus.
— Ontem à noite. Publicado simultaneamente em veículos de mídia alternativa na América Latina, alguns sites europeus também. O Guardian já pegou. O Le Monde mencionou. O New York Times está preparando matéria para amanhã.
— Quanto vazou?, Jean-Pierre perguntou.
— Tudo.
Dominique distribuiu cópias para cada um de nós. Quando o papel chegou na minha mão, eu senti o peso dele pelo tipo de realidade que ele pressupunha. O título estava centralizado no topo da primeira página:
GREEN MANTLE — Strategic Intervention Scenario for the Protection of Critical Resources in the Amazon Basin — CONFIDENTIAL — EYES ONLY. (GREEN MANTLE “MANTO VERDE”— Cenário de Intervenção Estratégica para a Proteção de Recursos Críticos na Bacia Amazônica — CONFIDENCIAL — SOMENTE PARA OS DESTINATÁRIOS)
Klaus começou a ler em voz alta. Era um hábito dele: transformar texto em som, como se som fosse mais real do que palavra escrita, como se a gravidade precisasse ser audível.
— Considerando a crescente instabilidade política na América do Sul, particularmente após os eventos na Venezuela, e considerando a importância estratégica da Bacia Amazônica para segurança climática global e acesso a recursos hídricos e minerais críticos…
Ele parou por um instante, como se estivesse escolhendo o tom que ainda caberia ali.
— …recomenda-se avaliação de cenários de intervenção humanitária preventiva que garantam gestão adequada desses recursos sob supervisão internacional.
Klaus levantou os olhos.
— Supervisão internacional é eufemismo para ocupação militar?
Dominique respondeu apenas:
— Continue.
Ele avançou para as seções marcadas.
— Fase Um: preparação de narrativa pública através de amplificação de incompetência administrativa via mídia internacional e apoio seletivo a grupos de oposição.
— Fase Dois: incidente catalisador com justificativa de presença militar limitada sob pretexto de proteção de civis.
— Fase Três: estabelecimento de zona de administração internacional temporária com participação de forças multinacionais lideradas por…
Ele parou de novo.
— Lideradas por quem?, perguntou Richard, já sabendo a resposta.
— Estados Unidos, respondeu Dominique, sem ênfase, como se estivesse lendo uma conta de luz. Com participação simbólica de aliados e representação formal brasileira.
Eu virei a página e encontrei o cronograma. O documento era planejamento com janela temporal e sequência operacional.
Fase 1: janeiro a março de 2026. Fase 2: março a abril. Fase 3: abril a maio. Fase 4: junho a agosto. Fase 5: setembro em diante.
Eu olhei para o mês na agenda mental, para a data que eu acabava de revisitar no envelope de Paula e a coincidência deixou de parecer coincidência do jeito mais incômodo possível, pela forma que era a mesma: linguagem preparando o terreno, evento catalisador, narrativa pronta para encaixar o horror em uma curva previsível.
Jean-Pierre colocou o telefone sobre a mesa devagar.
— Isso é plano operacional, ele disse.
Klaus assentiu como quem registra um fato que não vai tornar o mundo melhor. Ele folheou mais e leu trechos sobre parceiros estratégicos na legitimação, lista de ONGs ambientais internacionais a serem engajadas, protocolos de contenção de resistência, estimativas de baixas aceitáveis, campos de detenção temporária, estratégias de controle de informação e a estrutura de governança prevista, um consórcio internacional liderado por Washington administrando um terço do território brasileiro por dez anos, prorrogáveis.
No fim, havia a fórmula padrão: cenário exploratório para fins de planejamento estratégico, não política ativa. A frase que aparece sempre antes de alguém dizer que era só hipótese, depois de já ter feito tudo.
Senti a sala apertar. Não havia saída sem custos altos. A margem de manobra tinha evaporado. Aquilo era um desenho de mundo onde a soberania de alguns valia menos do que o vocabulário universal que os outros dominavam.
Dominique respirou fundo e retomou o controle, como sempre fazia.
— Precisamos emitir uma declaração hoje. O secretário-geral já recebeu ligações. A imprensa vai explodir isso nas próximas horas. Silêncio não é opção.
— Condenamos?, Richard perguntou.
— Com cuidado, Dominique disse. Sem confirmar autenticidade. Sem acusação direta. Sem escalada desnecessária.
Klaus fechou uma das pastas e falou como quem recita um fundamento.
— O documento, por si, não tem validade legal. É vazamento, e vazamento pode ser negado. Se a gente condena plano que oficialmente não existe, a gente valida a autenticidade. Se a gente valida, a gente cria crise com membro permanente do Conselho. E sem Conselho, não há nada.
Paula Mendes, que tinha entrado sem que eu percebesse, respondeu:
— Klaus, eles estão propondo ocupar um terço do território do meu país. Dividir a Amazônia em zonas. Instalar governança temporária. E você está preocupado com a forma como isso aparece numa ata?
Cristina, ao lado dela, tinha os olhos vermelhos de cansaço ou raiva, ou os dois.
— Quarenta e sete pessoas morreram em São Paulo, ela disse, sem elevar a voz. E eu acabei de ler um documento que descreve evento catalisador no mesmo período. Vocês ainda querem fingir que isso é só linguagem?
O silêncio que caiu foi denso, quase físico, porque ninguém ali sabia o que dizer. Passamos a carreira inteira treinando eufemismos, e agora que precisávamos deles, nenhum servia. Não havia palavra na ONU para documento que carrega prova de planejamento de massacre.
Foi nesse momento que Martin6 entrou.
Ele abriu a porta com a mesma falta de cerimônia que ele reservava para situações em que a etiqueta parecia indecente. Olhou para a mesa, para os papéis, para as faces, e entendeu rápido demais.
— Perdi alguma coisa?
— Canopy Shield vazou, Dominique disse.
Martin pegou uma cópia que sobrava, folheou em silêncio por alguns minutos, parou em uma página, voltou duas, leu de novo, e jogou o documento sobre a mesa com força suficiente para espalhar as folhas.
— Ótimo.
Richard franziu a testa.
— Ótimo??
— Ainda bem que vazou, agora está público e não dá mais para fingir que não sabíamos.
Jean-Pierre tentou manter a civilidade.
— Nós não sabíamos, Martin. Isso nunca passou por canais oficiais.
Martin olhou para ele com uma expressão de cansaço e lucidez que eu conhecia bem.
— Jean-Pierre, você realmente acha que um plano desse nível seria compartilhado conosco? Você acha que alguém ia mandar e-mail dizendo olá, estamos planejando administrar a Amazônia por uma década, por favor revisem e comentem? A gente nunca sabe oficialmente, só percebe o padrão quando já está acontecendo e aí, já é tarde.
Dominique tentou interromper antes que a sala virasse tribunal.
— Martin…
Ele levantou a mão como pedido para não interromper.
— Vai ter nota, ele disse. Vai ter grave preocupação. Vai ter reafirmação de princípios. Vai ter compromisso com o diálogo. E vai ficar bonito, impecável técnicamente, mas politicamente nulo. E do outro lado vai ter gente que joga com outro vocabulário.
Ele olhou para Paula e Cristina, depois para mim.
— E enquanto vocês escolhem sinônimos, eles escolhem coordenadas.
A frase foi um tapa na cara. A coisa mais assustadora nela era a ausência de esperança.
Dominique recolheu as folhas espalhadas e transformou o colapso em tarefa.
— Chega. Temos trabalho a fazer. Klaus, fundamentação legal. Jean-Pierre, estrutura do tom. Richard, leitura de risco. Paula e Cristina, sensibilidade à posição brasileira.
Ela me olhou direto.
— Elias,7 você revisa a linguagem final.
Assenti. Gesto que o corpo ainda executava naquele tempo, quando eu acreditava que margem era aquilo que os gestos ainda podiam preservar.
A reunião terminou com prazos, e-mails, ações distribuídas e a máquina seguiu funcionando.
No corredor, Martin me alcançou antes do elevador. Encostou na parede perto das máquinas de café, olhando para um ponto qualquer do carpete, já cansado com o que viria.
— Você vai ficar?, ele perguntou.
Eu demorei um segundo para responder porque percebi que a pergunta era “você vai continuar sendo isso?”
— Não sei.
Ele me olhou como quem já esperava essa resposta.
— Eu já decidi. Vou sair.
— Para fazer o quê?
— Qualquer coisa que não seja isso.
— Isso o quê?
Ele finalmente me olhou.
— Participar do teatro. Fingir que estamos fazendo algo quando estamos administrando a forma como a barbárie entra no papel.
Ele não me deu tempo de argumentar.
— Sai enquanto ainda dá para você se reconhecer, ele disparou e então entrou no elevador.
A porta fechou. O som do elevador descendo ficou mais fraco, até sumir.
Eu voltei para a minha sala, abri o laptop. O rascunho de Klaus já estava na minha caixa de entrada.
“O Secretário-Geral expressa profunda preocupação com relatos sobre documento contendo cenário hipotético de intervenção unilateral em região de importância ambiental crítica…”
Profunda preocupação. Relatos. Cenário hipotético. Intervenção unilateral.
Cada palavra escolhida para criar distância, para transformar o que era desenho operacional em abstrações discutíveis, para manter o tom civilizado ao delinear uma arquitetura de ocupação.
Eu troquei profunda por grave, porque profunda soava emocional demais. Ajustei uma vírgula. Tirei um advérbio. Troquei uma oração passiva por uma ativa por hábito de clareza, clareza era a minha principal ferramenta.
À medida que eu editava, eu percebi uma coisa que eu não tinha percebido com a mesma nitidez antes: o texto era um tipo de anestesia. Eu estava administrando a dose.
Às 22h00, enviei minha versão.
Às 22h30, Dominique respondeu: “Obrigada. Versão consolidada amanhã primeira hora.”
Eu fiquei sentado no escritório vazio com as luzes apagadas, só o brilho da tela e as luzes de Manhattan pela janela. Eu deveria ter fechado o laptop e aceitado que meu corpo precisava dormir. Houve um intervalo curto entre terminar a tarefa e conseguir levantar da cadeira, e nesse intervalo algo se deslocou de novo, só que agora tinha a ver com outra coisa.
Eu estava olhando para o texto, para o cursor piscando, e por um instante a sensação de ser eu o autor dos gestos ficou difícil de sustentar. Havia algo assistindo a isso tudo que não se confundia com o personagem que eu acreditava ser.
Eu tentei recuperar a narrativa interna, aquilo que a mente costuma fazer quando sente chão faltar: “eu estou cansado, eu estou sob pressão, eu preciso descansar, eu estou ficando dramático”. A tentativa de recuperar o ‘eu’ veio um segundo tarde demais. Por um instante, a história não encaixou.
Por dois segundos a “costura” que mantém a sensação de ser alguém separado vivendo a vida, afrouxou, entrou um ar frio pela fresta, uma neutralidade de outra ordem, anterior ao próprio impulso de tomar posição, anterior à pergunta sobre ficar ou sair. O que se perdeu ali foi a certeza confortável de que havia um ‘eu’ fazendo escolhas. O que ficou foi percepção acontecendo, sem centro, sem dono.
O cursor piscava, indiferente. Grave preocupação. Cenário hipotético. Relatos.
Eu percebi, com um desconforto quieto, que eu podia trocar todas as palavras e ainda assim permanecer dentro do roteiro, que dependia da função. E a minha função, naquele momento, era fazer com que aquilo pudesse ser lido sem que ninguém precisasse agir.
Eu fechei o laptop, e a sensação continuou.
No metrô, um músico tocava violino numa plataforma quase vazia, ainda que fosse a Grand Central. Era tarde mesmo. Eu não soube dizer o que era que estava ouvindo, a execução tinha aquela fluidez que não parece esforço. O corpo dele sumia na própria ação, como se a música se tocasse sozinha. Lembrei de um livro que havia lido ano passado que descreveu isso como “estado de flow”. Eu coloquei 10 dólares no case aberto e fiquei ouvindo até o trem chegar.
A nota oficial foi publicada três dias depois.
A imprensa citou em dois parágrafos. Analistas comentaram que a ONU tinha reagido dentro do esperado. Nenhum governo mudou posição. Nenhuma operação foi cancelada. Nenhuma tropa foi desmobilizada.
O mundo seguiu seu curso como se nada tivesse sido dito.
Porque quase nada tinha sido.
No fim daquela semana, já de madrugada, eu abri de novo o documento vazado na tela, o corpo frio do texto e encontrei uma seção que eu não tinha lido na reunião, talvez por falta de tempo, talvez por instinto de autopreservação.
ANEXO C — GESTÃO DE RESPOSTA INSTITUCIONAL.
Eu li devagar.
“Antecipa-se que organizações multilaterais, particularmente as Nações Unidas, emitirão declarações de preocupação e reafirmação de princípios de soberania. Essas declarações devem ser reconhecidas formalmente, mas não necessitam modificar cronograma operacional…”
Eu parei.
“…dado que a ONU carece de meios coercitivos para impor compliance e que membros permanentes do Conselho de Segurança possuem poder de veto sobre qualquer medida substantiva. Recomenda-se manutenção de canais de diálogo para gestão de aparências institucionais.”
Gestão de aparências institucionais.
Eu fiquei olhando para a frase como se ela tivesse acabado de me descrever por inteiro, da forma mais precisa possível.
Lembrei do envelope de Paula. Lembrei do sangue no asfalto da Paulista. Lembrei do esforço que eu fiz para não escrever massacre. Lembrei do esforço que eu fiz para escolher grave em vez de profunda, como se a troca de adjetivo alterasse o mundo.
Naquele instante eu entendi o inevitável: eles estavam planejando também a forma como nós reagiríamos e registraríamos, parecendo ativos enquanto permanecíamos inofensivos.
Eu fechei o arquivo, a frase ficou aberta em mim.
[2026 / 2149 / Sempre]
Paula Mendes & Cristina Alves
Assessoras Jurídicas Brasileiras destacadas para ONU
Paula: 57 anos, Itamaraty, viveu ditadura militar, reconhece padrões
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