Diante do espelho
O reflexo sem dono
Despersonalizado.
Ouvi essa palavra pela primeira vez já adulto, numa conversa casual com uma amiga psicanalista. Achei curioso. Eu já tinha passado por muitas sessões de terapia, atravessado fases, elaborado histórias, entendido padrões e mesmo assim aquele termo nunca tinha aparecido no caminho. Ficou ali, meio solto, como certas palavras que não pedem entendimento imediato e seguem rondando até encontrar um lugar.
Talvez esse texto seja um pouco sobre isso, numa alusão meramente ilustrativa, já que não me considero alienado nem tampouco sem personalidade como a semântica da palavra aponta.
No último dia do ano fui aparar a barba. Juninho, meu barbeiro (o primeiro que conseguiu acertar a minha barba e me deixar finalmente satisfeito) estava, claro, com agenda cheia, então, resolvi fazer sozinho.
Nada mais simples não é mesmo?
Fui fazendo como já tinha visto tantas vezes e seguia no automático, familiar, até que a máquina entrou mais fundo do que devia e um tufo inteiro desapareceu do rosto. O espelho devolveu a imagem sem atraso. A barba tinha que ir. E foi.
Depois de muitos anos, foi de forma brusca e definitiva. Pelo menos naquele momento.
Choque inicial
Quando levantei os olhos e encontrei o espelho, vi uma imagem nova, não reconheci quem estava ali. Não foi susto nem rejeição, foi estranhamento puro, quase clínico. O reflexo não estava errado, ele só não era familiar. Um rosto legítimo, mas fora de contexto, fora do lugar que eu habito todas as manhãs. Algo essencial tinha saído do lugar junto com a barba e o que permanecia não se encaixava em nenhum nome conhecido.
Fiquei diante do espelho enquanto o corpo se ajustava por conta própria. A mente buscava inquieta algum ponto de referência, alguma âncora familiar, mas só encontrava o movimento da própria busca.
O olhar se sutentou. A imagem continuava lá. O reconhecimento não surgia. Nesse intervalo, muito rápido, uma ansiedade leve se espalhou, como a sensação física de estar sem chão, sem o apoio silencioso de uma identidade reconhecível.
Foi então que comecei a perceber (ou lembrar) de algumas coisas. O rosto era visto com clareza. A visão acontecia sem esforço, mas aquele ou aquilo que vê não se mostrava em lugar algum. A atenção repousava na experiência direta, imediata e não encontrava um centro separado sustentando o olhar. O mesmo acontecia com os sons, o ruído distante da rua, a respiração, tudo era ouvido no mesmo campo aberto onde o rosto aparecia. A divisão habitual entre observador e observado não se sustentava ali.
O espelho deixou de funcionar como confirmação de alguém conhecido e passou a ser só mais um acontecimento. O rosto sem barba, o estranhamento, a tensão sutil, os pensamentos tentando se reorganizar, explicar ou aceitar, tudo surgia no mesmo espaço de percepção, sem hierarquia, sem ter alguém posicionado no comando da cena.
A inquietação se dava nesse atrito silencioso e gerava uma investigação já velha conhecida. Era a constatação prática de que a resposta óbvia tinha desaparecido. A ideia de ser alguém separado observando um mundo, perdeu densidade simplesmente porque não encontrou sustentação na experiência imediata.
Os gestos seguintes aconteceram sozinhos. Limpei a máquina, passei o pós-barba e sentei. O movimento seguia o próprio curso, sem uma direção consciente. Os chineses chamaram isso de Wu Wei 1 com uma naturalidade quase irônica, apontando para algo tão evidente que só passa despercebido quando alguém tenta controlar ou resistir ao fluxo natural das coisas.
À medida que a necessidade de me reconhecer como alguém definido e meio que “esperado”, relaxava, o incômodo perdia consistência. Ficou um campo silencioso onde rosto, espelho, pensamento, mundo e percepção coexistiram sem fronteiras claras, sem centro fixo, sem separação real.
Ali, diante daquele reflexo estranho, a inquietação se dissolveu na lembrança direta do que sempre esteve operando. Foi então que sentei para escrever este texto. A vida se percebendo, sem personagem suficiente para reivindicar autoria.
Mas a barba vai voltar.
Enquanto isso, a novidade é que em Fevereiro sai a versão digital de “Antes do Pensar” meu primeiro livro que ainda tem algumas cópias físicas disponíveis na Amazon e na Drummond Livraria. A versão em áudio, narrada por mim, deverá ser disponibilizada também ainda este ano.
Que o ano que começa seja repleto de alegrias e realizações! Estou editando alguns destes ensaios do Psiconauta para que se tornem parte do meu segundo livro, “A Fronteira Interior” que pretendo lançar ainda em 2026.
Obrigado por ler, comentar e compartilhar alguns destes textos e me acompanhar por aqui!
Wu Wei (無為), um conceito central do Taoísmo, significa “não ação” ou “ação sem esforço”, traduzindo-se como fluir com a vida ou agir em harmonia com o Tao (o Caminho), sem forçar as coisas ou lutar contra a natureza, encontrando eficácia e paz ao “nadar com a correnteza” e agir de forma espontânea e sem artificialidade. Não é inação, mas uma ação natural e sem esforço, como estar “na zona” ou em estado de fluxo, permitindo que as coisas aconteçam com máxima habilidade e serenidade.
Meu artigo falando sobre este tema:









