Koans: o fim da pressa por entender
Quando a pergunta faz muito mais do que a resposta
Este ensaio apresenta os koans como um recurso simples e preciso para deslocar a atenção do terreno habitual do pensamento e permitir um contato mais direto com a experiência. Em vez de oferecer explicações ou construir argumentos, os koans interrompem o fluxo automático do intelecto e criam um espaço onde o entendimento não vem por acúmulo de ideias, mas por reconhecimento imediato. Um saber instintivo, quase corporal, que não depende de interpretação e aponta para algo já presente, anterior à narrativa, ao esforço e à identidade.
Koans 1são úteis porque operam onde a explicação não alcança.
Um koan não foi feito para ser resolvido.
Koans não foram criados para informar, convencer ou organizar o pensamento. Foram criados para desorganizar o automatismo com que a mente tenta fechar a experiência em conceitos. Um koan não acrescenta conhecimento, ele retira o apoio do pensar automático. Retira o chão da lógica habitual, da narrativa pessoal, da busca por respostas corretas.
Koans não apontam para uma resposta melhor, nem para uma compreensão mais sofisticada, funcionam como um curto-circuito gentil no pensamento habitual, uma pergunta ou afirmação que a mente não consegue fechar, obrigando a atenção a recuar por um instante e buscar algo mais elementar.
A galeria que acompanha este texto propõe alguns koans nesse espírito, para provocar um vislumbre silencioso daquilo que já está consciente antes de qualquer tentativa de entender. Leia um de cada vez dando um tempo para que provoque o efeito.









Depois dos koans, a atenção desacelera por alguns instantes e, nesse espaço mais calmo, o cansaço aparece como um acúmulo discreto das constantes vigilâncias internas, ajustes contínuos e tentativas de antecipar a vida enquanto uma imagem coerente de si se mantém em funcionamento. O pensamento passa a ocupar mais espaço por hábito, criando uma espessura sutil entre a experiência em curso e aquilo que a percebe.
Meu livro, Antes do Pensar nasce desse ponto, como um convite silencioso a reconhecer o que permanece evidente quando a necessidade de explicar diminui e algo pode ser sentido ou percebido antes de ganhar um rótulo.
Não escrevo a partir de teorias nem de técnicas. Escrevo a partir do momento em que algo se expande, sai do modo constante de contração que vivemos hoje. Uso uma máquina de escrever, instrumento que me devolveu a rotina perdida de escrever de forma livre para perceber que as palavras vinham de algum lugar, mas não da minha mente. Funciona como um portal e eu fiquei tão envolvido que acabei formando uma pequena coleção. A máquina mais nova tem a minha idade, a mais antiga, a idade da minha mãe, que completa este ano 90 anos.

Estado de flow é o nome, mas o nome importa pouco. O que importa é o alívio que aparece quando a interferência diminui, uma espécie de normalidade esquecida, quase constrangedora de tão simples.
Com o tempo, fui percebendo que o personagem que tenta melhorar a experiência costuma ser o mesmo que resiste. Ele se move rápido, comenta tudo, quer chegar antes. Parece útil, mas cobra caro. Quando esse movimento relaxa, uma amplitude se apresenta, uma presença que não depende de esforço nem de identidade. Ela não precisa ser construída, porque já está aqui antes de qualquer tentativa de organização. O livro traz os fundamentos do flow e a semente para o vislumbre da não dualidade.
A versão digital chega em breve mas o livro em papel segue à venda na Drummond Livraria em São Paulo ou pela Amazon.
Um koan é uma história, pergunta ou afirmação paradoxal usada na prática budista zen (Chan, Rinzai) como ferramenta de meditação para desafiar o pensamento lógico e promover a iluminação repentina e intuitiva (kenshō), levando a mente além da compreensão conceitual para a experiência direta da realidade. Tem o objetivo de serem contemplados profundamente para revelar a consciência inerente além das palavras.
Aspectos-chave dos koans
Origem: O termo vem do chinês, significando “assunto público para reflexão”, originalmente referindo-se a precedentes legais.
Objetivo: quebrar a dependência intelectual, confrontar o próprio sofrimento e despertar a verdadeira natureza búdica.
Método: o aluno medita sobre o koan (geralmente através do zazen) com a orientação de um professor, não buscando uma resposta intelectual, mas uma compreensão profunda e direta.
Natureza: muitas vezes parecem ilógicos, paradoxais ou insolúveis, atuando como uma “porta” para uma compreensão não conceitual.
Exemplos de Koans
“Qual é o som de uma mão batendo palmas?”
“Se você encontrar o Buda na estrada, mate-o.”
“Mostre-me seu rosto original antes de sua mãe e seu pai nascerem.”





