Ponto Cego
A fotografia captura o instante em que você parou de existir. A escrita é quando você descobre que nunca existiu da forma que pensava. Criar expõe o lugar onde você ainda não olhou.
Comecei a fotografar aos doze anos, num banheiro improvisado como câmara escura, filme em rolo, química de revelação vazando cheiro pelo vão da porta. O que me fascinava naquilo tudo era o que acontecia antes do clique: um momento em que a câmera desaparecia da mão, o enquadramento deixava de ser só um cálculo. Alguma coisa estava vendo a cena por mim. Levei décadas para entender que aquilo era uma experiência de natureza.
O ponto cego 1
Qualquer pessoa que já criou alguma coisa reconhece aquele instante sem precisar de explicação: a fotografia que tirou e não consegue explicar por quê, o parágrafo que saiu sem saber de onde veio. Esse momento é o mais honesto que o ato criativo oferece, e também o mais ignorado, porque a tendência imediata é atribuir ao talento, ao acaso, ao estado de espírito, e seguir em frente sem perguntar o que estava acontecendo ali que normalmente não acontece.
O que estava em jogo é a consciência sem o filtro habitual e é aí que a investigação começa.
A fotografia ensina isso de forma abrupta. Existe um instante, brevíssimo, em que a percepção acontece antes da mente nomear o que está sendo percebido. A folha ainda não virou “folha”. A luz ainda não virou “bonita”. O rosto do estranho ainda não foi enquadrado como “tipo interessante de fotografar”. Há uma fração de segundo em que o olho registra sem classificar, em que a consciência encontra o mundo sem o filtro do eu que normalmente se interpõe entre os dois. A tradição tibetana chama isso de miksang, 2 o bom olho: uma atenção mais silenciosa, capaz de ver o que está sem imediatamente transformá-lo em conceito gerenciável. O que a fotografia contemplativa aponta, em sua camada mais honesta, é que esse instante existe, que é acessível, e que o fotógrafo é o principal obstáculo para ele.
O paradoxo que nenhum método resolve com facilidade é que você não pode produzir esse instante. Qualquer intenção de alcançá-lo já o afastou, porque a intenção pressupõe um intencionador, um eu que está indo em direção a algum lugar. A prática contemplativa desgasta o obstáculo. A câmera vai esgotando o fotógrafo até que ele para de estar lá, e o que sobra é apenas o ato de ver, limpo, sem ninguém reivindicando que estava presente. O que a imagem registra nesse momento não é o objeto fotografado. É o estado de consciência de quem havia parado de estar lá.
Chamei isso de lembrança. A não separação esteve aqui o tempo todo, por baixo do ruído, e perceber isso é lembrar, da mesma forma que se lembra de uma verdade que sempre se soube mas que o barulho cotidiano encobriu. Esse barulho tem uma estrutura. Segue padrões que se formaram cedo, que operam com consistência, que aparecem no que você escolhe enquadrar e no que deixa fora do quadro, no tom que sua voz assume quando escreve sem perceber, no que você evita dizer mesmo quando está sozinho com a página. Esse padrão é invisível de dentro, por definição. É o lugar de onde você olha, não o lugar para onde olha. E é exatamente por isso que a câmera e a página, quando usadas com atenção, podem mostrar o que o espelho não mostra.
Criar é o ato mais honesto que existe. O que sai revela o lugar onde você ainda não consegue olhar.
A escrita usa a linguagem, que é o tecido com que a mente constrói e sustenta o eu, para dissolver exatamente essa construção. Esse paradoxo é real. Cada palavra carrega uma rede de associações, uma posição no mapa do que achamos que o mundo é, uma história de uso que ativa o eu conceitual automaticamente. Quando escrevemos para descobrir o que está lá, o texto anda por conta própria e o escritor, se tiver a maturidade de não interromper esse movimento com a ansiedade de controlar o que está saindo, começa a perceber que está sendo escrito.
Escrevo meus primeiros rascunhos numa máquina de escrever dos anos 60. Quem descobre isso acha pitoresco, e a pergunta que vem sempre é a mesma: “Mas você não pode apagar?” Exatamente. Cada tecla pressionada é uma decisão sem volta, e é essa irreversibilidade que importa. O som seco das letras batendo no papel, a resistência física das teclas, o cheiro do papel, a ausência de notificação, de aba aberta, de cursor piscando em branco aguardando correção, tudo isso elimina a dispersão antes que ela comece. A máquina não devolve o que foi dito e nessa impossibilidade de retorno, o controle vai cedendo naturalmente. A autocensura perde velocidade porque o gesto já saiu, já está impresso, já pertence ao papel. O que começa a emergir não passa mais pelo crivo do que deveria ser dito. Cada batida de tecla estimula a próxima, o ritmo cria um estado, e esse estado é o que interessa: uma presença que a tela raramente convoca. A máquina é apenas o portal. O que entra por ele é o mesmo fundo quieto que a fotografia acessa pelo clique.
O que você fotografa e o que você escreve revelam quem você deixa de ser no momento em que a obra acontece.
Esse estado se instala como temperatura. A mente que chega à página repleta de agendas, de julgamentos sobre o que deve ser dito, de ansiedade sobre como vai soar, precisa de tempo para esgotar sua própria efervescência. A escrita livre, sem revisão, sem o crítico interno vetando em tempo real, cria esse esgotamento. A mente fala até se cansar do próprio ruído, e há um momento, que nenhum relógio consegue prever, em que a temperatura muda. O fluxo fica mais limpo. A voz perde a afetação. O que sai começa a vir de um lugar que não tem endereço no eu habitual, e reconheço esse estado porque leio o que saiu e encontro uma verdade que não sabia que sabia. Com o mesmo silêncio de depois do clique certo.
A atenção sustentada vai dissolvendo a costura entre um pensamento e o seguinte até que o que resta é Consciência, sem o comentador que normalmente habita cada um deles. A fotografia chega lá pelo corte, pela exigência do instante que não espera. A escrita chega pelo esgotamento, pela travessia do ruído até o fundo quieto que estava lá desde o começo. Uma abre de forma abrupta. A outra como um quarto que vai ficando iluminado antes do amanhecer, sem que você consiga identificar o momento exato em que enxergou.
Por baixo da atividade incessante da mente que constrói e sustenta o personagem, há um campo de Consciência que não é produzido por essa atividade e não depende dela para existir. Fotografia e escrita, praticadas com essa intenção, removem temporariamente a camada de ruído que nos mantém convictos de que somos o personagem que comentamos ser. O que aparece é o que sempre esteve aqui, antes do nome, antes da história, antes da câmera e da página. E antes também, do filtro que decide o que merece ser visto.
O que você cria mostra o mundo como você o vê. O que você evita criar mostra o lugar onde você ainda não olhou.
Ponto Cego - O ensaio que você acabou de ler é o território. Segue o mapa.
Há uma diferença entre entender que a separação é uma ilusão e perceber isso de dentro, no corpo, no momento em que a câmera está na mão ou a página está em branco. A compreensão intelectual é um começo. A experiência direta é outra coisa e é para ela que o programa Ponto Cego foi criado.
O programa nasce do cruzamento de três campos que venho trabalhando há anos: o Eneagrama, o estado de Flow e a perspectiva da não dualidade. Cada um ilumina uma camada diferente do mesmo território. O Eneagrama revela o padrão que cria antes de você, a estrutura de personalidade que aparece no que você escolhe fotografar, no que você evita escrever, no tom e padrão de comportamento que se repetem sem planejamento. O Flow mostra o que acontece quando esse padrão afrouxa, quando o controle cede e algo mais espontâneo ocupa o lugar. A não dualidade aponta para a pergunta que essas duas práticas, em algum momento, inevitavelmente colocam: quem está criando, afinal?
A escrita e a fotografia entram aqui como campos de auto-observação, e o que está em jogo em cada sessão é o que esses atos revelam sobre quem os pratica e quem deixa de estar lá quando eles acontecem de verdade.
O programa existe em dois formatos. O primeiro acontece em cinco semanas, em grupo pequeno, com encontros semanais online e práticas diárias de curta duração, construindo as camadas progressivamente, com tempo para que cada percepção se assente antes da próxima. O segundo é um retiro de três dias, imersivo, onde o mesmo território é cruzado de forma concentrada: saídas fotográficas, sessões de escrita livre, práticas de coerência cardíaca e investigação da não dualidade acontecendo em sequência, num espaço onde a única agenda é a presença. O ritmo de entrada é diferente em cada formato, o lugar onde chegam é o mesmo.
Pré-requisito técnico não existe em nenhum dos dois. Qualquer câmera serve, o celular serve, qualquer papel e bloquinho serve. Até máquina de escrever. O que interessa é aquilo que emerge quando a pessoa para de pensar em como fazer e começa a perceber quem faz.
Se você fez uma pausa lendo isso, o programa já começou. Mande uma mensagem por aqui ou por email e a gente conversa.
Ponto cego é um termo da neurociência, mas a psicologia o usa com outra precisão: é o lugar de onde você olha, não o que você vê. Cada pessoa carrega um ângulo de percepção invisível para ela mesma, formado cedo, consolidado sem que perceba, operando em silêncio por baixo de tudo que faz e que diz, presente na forma como reage sem entender por quê, no que considera óbvio sem nunca ter examinado, no que evita sem saber que está evitando. É a estrutura pela qual o eu se sustenta, e é exatamente por isso que fica fora de alcance. O que descobri, e que nunca deixa de me surpreender, é que criar expõe esse território com uma honestidade que nenhuma análise consegue. O que você produz mostra o que você ainda não consegue ver.
A fotografia Miksang (do tibetano “bom olho”) é uma disciplina de fotografia contemplativa baseada nos ensinamentos da Arte Dharma, focada em capturar o momento presente com “flash de percepção”. Ela propõe registrar o mundo tal como ele é, sem julgamentos ou manipulações conceituais, expressando a experiência visual direta, pura e verdadeira.
Aqui estão os pontos principais sobre a fotografia Miksang:
O “Flash” de Percepção: É o momento em que vemos algo com total clareza e frescor, sem a interferência da mente analítica, antes de categorizar o objeto.
Foco no Simples: A prática incentiva olhar para texturas, cores, formas, sombras e luzes do cotidiano que geralmente passam despercebidas.
Aparência e Realidade: A técnica busca alinhar o olho com a mente no momento presente, resultando em imagens que mostram a essência das coisas.
Origem e Filosofia: Baseada nos ensinamentos do mestre tibetano Chögyam Trungpa, a Miksang integra meditação e fotografia como uma forma de arte contemplativa.
Sem Edição Pesada: A imagem final deve ser fiel ao que foi percebido no momento da captura, priorizando a autenticidade da experiência visual.
A prática da fotografia Miksang é considerada um exercício de atenção plena, frequentemente chamada de “mindful photo“.








Janela johari, ne?
Que texto incrível, Cadu! Me lembrou o livro "A arte cavalheiresca do arqueiro zen". Algumas vezes eu sento pra escrever coisas impublicáveis, só pra mim, sem nenhuma pretensão estabelecida e são esses textos que são mais viscerais e estranhos.
E a sua foto que abre o texto: linda demais!