O homem que nunca acreditou na fronteira
Há mais de uma entrada para o mesmo território.
Edgar Morin dedicou décadas a construir, com o rigor de quem leva a questão a sério, um argumento que qualquer criança de cinco anos sente intuitivamente antes de aprender a desacreditar: que você e o mundo não são entidades separadas que se encontram de vez em quando. Ele chamou isso de pensamento complexo, podia ter chamado de outra coisa, o nome nunca foi o ponto central.
Há uma frase em O Método que ficou comigo desde que a encontrei: “O ser humano é ao mesmo tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico.” Lida rápido, parece uma lista acadêmica. Relida com atenção, ela desfaz a parede. Morin está dizendo que você é o universo se examinando, que a linha entre o cosmos e o humano é um artifício conceitual sem correspondência no real, que a separação que sentimos entre nós e a natureza é uma construção funcional que tomamos por descrição. Ele passou oitenta anos edificando a prova acadêmica daquilo que se revela numa tarde de silêncio e o que me interessa na obra toda é exatamente esse ponto de chegada.
Morin tinha um conceito que chamava de religar: a inteligência que separa, especializa, compartimentaliza, perde a capacidade de ver o todo. Para ele, a patologia central do pensamento moderno era exatamente essa, a amputação da percepção de totalidade em nome da eficiência analítica. A cabeça bem-feita, seu ideal, era a que conseguia religar o que tinha sido artificialmente dividido. Mas religar pressupõe que havia ligação antes. E ele sabia disso. Toda a arquitetura do pensamento complexo repousa nessa intuição: a separação é o evento secundário, não o primário.
A maioria de nós viveu décadas acreditando no contrário, que somos indivíduos autônomos que ocasionalmente se conectam com o mundo externo, que a natureza e a consciência pertencem a ordens distintas de existência e que a vida é a relação entre essas duas entidades. Morin dedicou sua existência a mostrar que essa descrição é uma ilusão funcional e uma armadilha cognitiva. O cosmos não produziu o ser humano como se produz um artefato separado da fábrica. A vida emergiu da matéria, a consciência emergiu da vida e em cada emergência uma novidade apareceu sem que o anterior desaparecesse. Somos poeira de estrelas que desenvolveu a capacidade de se perguntar o que somos. Não há ruptura nessa cadeia.
O que Morin não dizia, pelo menos não nessa linguagem, é que essa percepção pode ser direta. Que ela não precisa dos seis volumes de O Método, da sociologia, da biologia sistêmica, do construcionismo epistemológico. Ele chegou por décadas de trabalho intelectual; outros chegam pelo corpo, pelo silêncio, pela dissolução do personagem que acredita estar no controle e o território onde todos pousam é o mesmo.
O que me toca desde semana passada, mais do que a morte de um pensador imenso, é a imagem de um homem que aos 104 anos ainda se mantinha, nas palavras da mulher, atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos. Atento e presente até o fim, sem o conforto de um sistema encerrado. Essa é a postura de quem sabe que a vida não é um problema a ser resolvido, é um fenômeno a ser habitado. E isso exige presença.
Morin se descrevia como um “otimista da desesperança”: quanto mais grave o risco, maior a possibilidade de que uma saída emerja. Pensamento complexo levado ao limite e ao mesmo tempo não-dualidade sem precisar do termo. A contradição pode ser habitada. O paradoxo não é um erro lógico, é a descrição mais honesta do real. Parar de se esquivar do que já está aqui é a única coisa que o reconhecimento exige.
Morin foi embora. A ausência de fronteira, não.
“Sim, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
Você já trabalhou muito em si mesmo. Conhece os padrões, sabe nomear o que opera em você. E continua repetindo.
O trabalho que faço entra antes que o padrão se instale. Conheça a Fronteira Interior:






Muito obrigado. Excelente texto e, talvez, uma forma das pessoas se interessarem mais pela obra dele e aprenderem que a vida vai muito além dos limites em que tentamos encaixá-la