O instante em que o personagem se cala
A morte como ato lúcido, a dissolução da fronteira e o que permanece quando o corpo já não é necessário
Faz algum tempo que quero escrever sobre a escolha do momento de partir. Penso na finitude como presença constante, disponível a qualquer um, que pode ser vivida de formas humanas e conscientes. No meu caso, se eu estivesse num limite físico e mental que me impedisse de me conectar de forma inteira com as pessoas que amo, confinado a uma vida sustentada por outros meios, essa seria minha escolha. No Brasil, ainda não temos legislação nem debate amplo sobre o assunto. Por isso, e depois de estudar o tema com cuidado, fiquei em dúvida por tempo considerável se publicaria este ensaio. Escolhi publicar.
A ideia de decidir o próprio fim nos inquieta porque desmonta os mitos que sustentam nossa noção de vida. Fomos condicionados a ver a morte como derrota, como se o simples ato de continuar respirando, ainda que em condições frágeis ou artificiais, fosse em si uma vitória. Mas há quem perceba, no auge da lucidez, que viver também inclui a decisão de se retirar.
Daniel Kahneman e Antonio Cicero 1 fizeram essa escolha. Dois homens que viveram atentos ao detalhe, à medida das coisas. Kahneman partiu aos 90 anos, lúcido, ainda caminhando e escrevendo, depois de jantares em Paris com a família, no comando inteiro de sua decisão.
Cicero, diagnosticado com Alzheimer, viajou à Suíça com o companheiro de quatro décadas e deixou uma carta a ser lida depois, onde dizia esperar ter vivido com dignidade e morrer com dignidade. Ambos decidiram morrer quando a vida já havia dito o que precisava dizer, com a serenidade de quem compreende que o corpo tem limites e que até o pensamento mais vasto se curva diante do tempo.
Esse tipo de decisão carrega um peso que poucos suportam encarar. Ela expõe a liberdade que ainda existe dentro do fim e desmonta a ficção do controle.
O ego não tolera a ideia de que a morte possa ser um ato lúcido, porque só entende o morrer como anulação de si. Quem reconhece o “eu” como fenômeno passageiro vê no morrer apenas continuidade de algo que não tem corpo, nem nome e tampouco história.
A eutanásia, o suicídio assistido, a decisão consciente de partir - essas palavras descrevem apenas a superfície. Por baixo, há um movimento mais profundo: a vida voltando à sua origem. O que a mente chama de fim, a Consciência reconhece como dissolução, como um redemoinho que se desfaz na água de onde sempre foi feito.
Diante desse movimento não cabe defesa nem condenação. O que fica é a observação limpa, sem ruído moral. Para alguns, o limite físico chega antes da exaustão interior. Para outros, o corpo ainda resiste, mas a presença já não encontra lugar na forma. Quando a decisão nasce de clareza, é um fechamento de ciclo: o instante em que o personagem se cala e o que sempre esteve aqui se manifesta sem esforço.
O desconforto coletivo diante dessas escolhas revela nosso equívoco essencial: acreditamos ser o corpo e, por isso, lutamos contra o fim do corpo. A Consciência que observa nascer, crescer e morrer não se move. Ela permanece enquanto tudo se transforma. Quando a forma deixa de ser necessária, a Consciência segue sem palco e sem plateia.
A não dualidade ilumina esse ponto com uma precisão incômoda. A vida e a morte são expressões de um mesmo movimento. A Consciência aparece como forma e depois retorna ao silêncio que a sustenta. O corpo é uma configuração transitória do absoluto, um aparato corpo-mente onde a presença se experimenta como alguém. Quando a forma se desfaz, nada se perde, porque nada estava separado.
A morte é a dissolução da fronteira imaginária entre o que acreditávamos ser e o que sempre fomos.
Não nascemos. Surgimos como uma fruta na árvore. Cada corpo é um instante do planeta respirando por si mesmo. A Terra não produz indivíduos: produz expressões momentâneas de um mesmo campo vivo. Chamar isso de “minha vida” é apenas uma convenção, um pronome que aponta para onde não há fronteira.
A obsessão moderna por prolongar o tempo - a promessa do transhumanismo, a corrida pela vida eterna, a ilusão da mente carregada no silício dos servidores digitais, é uma forma de medo. O medo de desaparecer nasce da crença de que existimos separados do todo que nos contém. O que está dentro não desaparece quando a forma muda.
A Consciência permanece intocada enquanto o aparato corpo/mente, esse traje que nos acolhe temporariamente, envelhece, adoece e se desfaz. Ela observa as formas mudando de estado sem participar do enredo, sem ser afetada pelo que registra. O corpo e a mente são passagem. A Consciência é o pano de fundo que nunca entrou em cena.
O que se encerra é apenas o aparato.
NOTA AO LEITOR
Este texto trata a morte como expressão natural da própria vida, vista sob o olhar da Consciência. Não romantiza o suicídio nem descreve desistência.
Em vários países, a decisão consciente de encerrar a vida em casos de sofrimento irreversível é legal e regulamentada: na Holanda desde 2001, na Bélgica desde 2002, no Canadá desde 2016, e na Suíça há décadas, sob critérios médicos e éticos rigorosos. Essas práticas se distinguem radicalmente de mortes resultantes de depressão ou impulso.
No Brasil, não há legislação que permita a eutanásia ou o suicídio assistido. O tema merece discussão com responsabilidade, compaixão e lucidez — sem confundir sofrimento emocional com liberdade consciente.
Se você vive um momento de dor profunda, desespero ou perda de sentido, busque apoio. Falar é um ato de vida.
Fontes:
Sobre Antonio Cicero — Agência Brasil: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-10/poeta-e-letrista-antonio-cicero-morre-na-suica-aos-79-anos
Sobre Daniel Kahneman — Wall Street Journal: https://www.wsj.com/arts-culture/books/daniel-kahneman-assisted-suicide-9fb16124 (matéria original, com paywall). Cobertura em português, acesso aberto, na Exame: https://exame.com/colunistas/instituto-millenium/o-psicologo-que-decidiu-morrer/
Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta.
Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas.
Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos.
O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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