Questão de opinião
Opiniões, preferências, desejos. Tudo inútil.
Se você já se familiarizou com a não dualidade1, com o wu wei 2, com todas as linhas que apontam para o fato de que a vida nos vive e nunca o contrário, pode parar por aqui. Já sabe do que estou falando. Agora, se você ainda sofre por não ser ouvido, por não ter suas ideias aceitas, por sentir que seus desejos morrem no meio do caminho, continue lendo, porque talvez algo aqui sirva.
O sofrimento nasce do desconforto. Mais precisamente, da insatisfação, o dukkha3 do Budismo. Contrariedade é outra forma de olhar para a mesma raiz. As coisas não ficam como estão, nem as boas nem as ruins, tudo passa. O que nos escapa é que não há um lugar para se chegar, nenhuma condição para se obter ou conquistar. A única realidade é a que está sendo vivida aqui, neste instante, onde você lê estas palavras e eu as escrevo. Entre o meu escrever e o seu ler pode ter passado muito tempo, anos talvez. Ainda assim, para você e para mim, o que existe é sempre o agora. Nossa noção de tempo é equivocada, um artifício simples para organizarmos a vida, assim como o hábito de dar nome às coisas. Tempo, espaço, sujeito, objeto. Conceitos, apenas.
Na infinitude da Consciência presente, tudo está contido, parte do mesmo processo, qualquer que seja ele. Forma é vazio, vazio é forma 4. Quando me percebo como parte desse algo que abrange tudo, as coisas passam a ter uma importância relativa, ou nenhuma, porque não sou eu que age. Não há um “fazedor”, há apenas a ação. Você não está lendo o que eu estou escrevendo, aqui existe apenas o ler e o escrever, num lugar onde não há tempo, ou pelo menos, não esse tempo linear que imaginamos. Estou escrevendo e lendo ao mesmo tempo. Sou a Consciência que dá forma a bilhões, trilhões de seres em suas variadas manifestações. Num certo sentido, estou sozinho e escrevendo para mim mesmo.
A fotografia de uma árvore não é uma árvore. Seu pensamento, qualquer que seja, positivo ou negativo, não é você. Fomos condicionados a tomar como verdade aquela voz interior, geralmente crítica, com uma tendência a nos colocar para baixo e apontar sem remorso nossas falhas e defeitos.
“Eu sou” é a única conclusão real que qualquer um de nós pode obter depois de certa auto investigação.
Essa sensação de perceber o corpo e o que está fora dele, a partir de um ponto de vista que abrange tudo. Geralmente damos como certa a localização desse ponto, ali atrás dos olhos, entre as orelhas, e de lá vemos o mundo e gerenciamos a vida. Esse pequeno diretor de cinema que vai conduzindo o filme da nossa existência não existe. É uma construção mental, fruto do que chamamos de criação e formação desde a tenra idade. Quando chegamos aqui, não temos a menor ideia do que seja uma árvore, nem temos pensamentos. Essas imagens e conceitos vão se formando ao longo do tempo, geralmente ali pelos dois anos e meio de vida.
Os “ensinamentos”, que também podem ser chamados de “adestramentos”, são ministrados de forma natural, afinal sempre foi assim, por gerações. Aquele é o papai, aquela a titia, ali o cachorro, a tomada, nenê não pode botar a mão. Cenas do cotidiano de bilhões de seres animados pela mesma Consciência e que não percebem que isso é exatamente o que muitos buscam anos a fio sem encontrar. Ali, naquela tela branca dos primeiros anos, poderíamos ter a atitude simples de nomear as coisas, dar direções e apontamentos como ferramenta de convivência social, e ao mesmo tempo mostrar essa real natureza não dual, da unidade, de sermos parte da mesma Consciência desperta que anima cada uma das “unidades” corpo/mente que achamos ser independentes e separadas.
Esse entendimento é como tocar a campainha de uma porta pelo lado de dentro. Ou encontrar os óculos no alto da cabeça. De uma simplicidade franciscana, simplória até, que quando reconhecida tem a capacidade de transformar profundamente uma vida. Um morrer em vida pode definir esse momento. Morrem os conceitos, os preconceitos e os “valores” que equivocadamente carregamos conosco por grande parte da vida. Esse relembrar é como olhar para o fundo de um lago cristalino, ver os peixes, as pedras, e de repente notar, como num relance, nosso próprio rosto com uma expressão de surpresa genuína. Morrem os apegos, as opiniões, os desejos, nascem as possibilidades de viver momento a momento, sem ruminar o passado ou imaginar um futuro que não existe.
A simplicidade do processo pode ser alcançada agora. Basta perguntar: o que sou eu?
“É, bem, você sabe, isso é só, tipo, sua opinião, cara.”
- O Grande Lebowski
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Nenhum autor é dono do que escreve, apenas o tradutor do silêncio que o antecede. Escrever foi o modo que encontrei de investigar o que somos quando a mente se aquieta. Cada texto nasce desse movimento silencioso da consciência tentando se reconhecer em forma. Às vezes surgem palavras, outras apenas o espaço entre elas. Não escrevo para explicar nada, escrevo para lembrar. A ficção, a ciência e o cotidiano são apenas pretextos. O que fala por trás é o mesmo silêncio que lê.
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O conceito de não dualidade é uma ideia que sugere que a separação que sentimos entre nós mesmos, os outros e o mundo ao nosso redor é uma ilusão. De acordo com essa visão, existe apenas uma realidade unificada e tudo o que percebemos como separado é, na verdade, parte de um todo contínuo.
Em termos mais simples, não dualidade significa “não dois”. Na nossa vida diária, tendemos a ver as coisas como dualidades: bom e mau, eu e você, interno e externo. No entanto, a ideia de não dualidade sugere que essas divisões são construções da mente e que, em um nível mais profundo, tudo está interconectado e é essencialmente o mesmo.
Quando falamos de “self” ou “eu”, muitas vezes nos referimos a nossa personalidade, nossos pensamentos, emoções e corpo físico. No entanto, a não dualidade propõe que o verdadeiro “eu” é a consciência pura, a testemunha silenciosa de todas essas experiências. Esta consciência não é algo que possamos separar ou dividir; ela é a base de tudo o que existe.
Exercício para experimentar um vislumbre da não dualidade:
Encontre um lugar calmo onde você possa sentar-se confortavelmente e sem interrupções.
Feche os olhos e comece a prestar atenção à sua respiração. Sinta o ar entrando e saindo, sem tentar controlá-lo.
Agora, observe seus pensamentos como se fossem nuvens passando pelo céu da sua mente. Não se apegue a eles, apenas observe-os vindo e indo.
À medida que você observa seus pensamentos, comece a questionar: “Quem é o observador desses pensamentos?” Não procure uma resposta intelectual, mas tente sentir a presença daquele que observa.
Reconheça que o observador não pode ser um pensamento, pois você é capaz de observar os próprios pensamentos. Este observador é a sua consciência desperta, sua verdadeira natureza.
Permaneça nesse espaço de observação, permitindo-se simplesmente “ser”. Você pode começar a sentir uma sensação de união ou ausência de separação entre você e o ambiente ao seu redor.
Quando estiver pronto, abra lentamente os olhos, mas tente manter a sensação de união e presença consciente.
Este exercício pode provocar um vislumbre da não dualidade ao facilitar o reconhecimento de que você não é apenas seus pensamentos ou sensações, mas a consciência que está ciente deles. Não se preocupe se não conseguir sentir isso imediatamente; como qualquer prática, pode levar tempo e repetição.
Veja mais aqui:
Wu Wei, do taoísmo, significa “não ação” ou, melhor traduzido, “ação sem esforço”. Não é preguiça, mas fluir com a vida, agindo de forma natural e sem forçar resultados, como a água que contorna obstáculos. É viver em harmonia, agindo no momento certo e com o mínimo de resistência.
Principais conceitos do Wu Wei:
Ação sem esforço: Agir em harmonia com o fluxo natural (o “Tao”), sem tensão ou ansiedade, aumentando a eficácia.
Não forçar: Em vez de tentar controlar tudo, aceita-se o curso natural das coisas, como um rio que contorna a montanha.
Espontaneidade: Ações naturais, genuínas e sem premeditação exagerada.
Estar presente (Estado de Flow): É o oposto de “piloto automático”; é foco intenso e presença total.
Fluir, não lutar: Parar de lutar contra o que não pode ser mudado, reduzindo a exaustão.
Como aplicar o Wu Wei no dia a dia?
Siga a correnteza: Perceba quando está forçando demais e relaxe.
Menos é mais: Evite ações desnecessárias e impulsivas.
Abrace a naturalidade: Permita-se fazer as coisas no tempo delas, agindo com leveza.
Aceitação: Aceite os desafios e adapte-se, em vez de bater de frente.
Em resumo, é a arte de viver com menos resistência e mais sintonia com o momento.
Dukkha (do Pali) é comumente traduzido como “sofrimento”, mas no budismo abrange conceitos mais amplos como insatisfação, desconforto e imperfeição na existência. Representa a sensação de que as coisas não são satisfatórias, sendo a base das Quatro Nobres Verdades sobre a natureza da vida. É a primeira verdade nobre, indicando que a vida inclui dor física, mudança e insatisfação contínua.
Esta frase central do budismo (Sutra do Coração) significa que tudo o que tem forma (objetos, pessoas, pensamentos) é vazio de uma existência independente e permanente, sendo constante transformação, e o próprio vazio se manifesta como formas. Vazio não é “nada”, mas sim a ausência de um “eu” fixo.
Explicação simples para leigos no budismo, como eu:
Forma é Vazio: Tudo o que vemos, tocamos ou sentimos (forma) não existe por si só. É composto por partes e muda o tempo todo. Por exemplo, uma cadeira (forma) é feita de madeira, pregos e trabalho humano. Se você tirar essas partes, a “cadeira” desaparece. Ela é “vazia” de uma essência de cadeira eterna.
Vazio é Forma: O vazio não é um buraco negro ou o nada absoluto. É o potencial para as coisas surgirem. É o espaço que permite que a forma exista.
Exemplo da Nuvem: Uma nuvem tem forma, mas é feita de vapor, vento e calor. Se o vento mudar, ela vira chuva. A nuvem é “vazia” de si mesma, mas essa “vacuidade” permite que ela se transforme em forma (chuva, vapor).
Em suma, forma e vazio são duas faces da mesma moeda: tudo está interconectado, mudando e sem um eu permanente.





